O levante popular na Argentina e a falta de direção revolucionária

 

O “argentinaço” é um movimento popular muito profundo que contém elementos revolucionários que não se expressam mais nitidamente ou mais abertamente porque não existe a direção que o represente completamente. Não existe uma direção revolucionária, mas mesmo a burguesia não pode atuar como tal com seus representantes tradicionais: sejam peronistas, radicais ou militares como Massera e Videla. Por isso a crise na cúpula peronista, as brigas e as mudanças de presidentes em poucos dias. Nomeando Duhalde em aliança com os radicais, a direção partidária chegou a um acordo transitório, com o qual Menen e o governador de Córdoba não concordam. Esta situação se reflete no juramento de Duhalde que pareceu mais um funeral do que uma cerimônia de posse presidencial. 

Em parte há semelhança com as condições que em 1945 levaram  Peron  ao poder e a manifestação popular de 17 de outubro quando um milhão de pessoas vindas de todos os ângulos do país na Praça de Maio impuseram a libertação de Peron da prisão e um programa nacionalista de expropriações ao imperialismo inglês. Portanto, a oligarquia e os setores financeiros ligados ao imperialismo inglês e em parte aos ianques, quiseram frear o processo de crescimento da economia , das conquistas sociais e culturais e das grandes massas; o povo se mobilizou e encontrou em Peron e em Evita os dirigentes burgueses decididos para essa época. Hoje não há entre os chamados “caciques” peronistas, um só que tenha a metade da coragem de Evita e de Peron da época.

        Certamente, a seu favor é necessário reconhecer que as condições do ponto de vista das massas mudou radicalmente: na época de Peron o movimento popular era novo e preparava suas primeiras armas. Hoje, em troca, tem uma grande experiência sobre suas costas (assim foi também em 1973-74, quando Peron se enfrentou com uma parte importante do seu próprio movimento). Hoje em dia, as massas ocupam as fábricas, bloqueiam  estradas, manifestam-se com panelas, auto-administram com controle popular subsídios estatais como o “Plano trabalhar”, enfrentam com coragem o aparato repressivo que se manteve intacto desde a ditadura. As massas argentinas estão num estado de mobilização permanente. 

A rebelião atual tem elementos de muita espontaneidade, mas preparada por milhares de discussões, mobilizações,  “puebladas”, greves, que nestes últimos anos colocaram à prova e estão formando uma nova vanguarda, sobretudo jovens: operários, desempregados, estudantes, intelectuais. São a CTA, os professores, as correntes de oposição aos sindicatos tradicionais, os partidos de esquerda, intelectuais e artistas que sustentam o movimento, a Frente Nacional contra a Pobreza. Esta Frente, que engloba muitas forças da esquerda e dos sindicatos de oposição, realizou um referendum auto-convocado nos quais participaram, com discussões e com o voto, mais de 3 milhões de pessoas que votaram por um programa alternativo que contemplava um subsídio aos desempregados de US$ 380 e US$ 60 para cada filho dependente. 

Duhalde chega ao governo nestas condições, sob fogo cruzado: o capitalismo mundial que não está disposto a renunciar aos lucros que trazem as riquezas argentinas, e as massas que não somente demonstraram que estão contra “o modelo”, mas que cresceram enormemente na organização e na vontade de lutas. O novo presidente tem pouca margem de manobra sem chegar a reprimir as massas; por isso fala de perigo do “banho de sangue”. Suas propostas são mais moderadas que as de Sáa, pretende ganhar tempo seja com os ianques, seja com o movimento de massas para debilitar este último. 

A burguesia mundial vive com grande temor os acontecimentos da Argentina, sabe que não pode controlar tudo; pode pressionar e fazer chantagens, mas não está segura dos efeitos da sua política; por isso a imprensa norte-americana acusa Duhalde de “populista”. O FMI inicialmente declara que “está bem, que não nos paguem, mas usem esse dinheiro para um plano de reativação econômica”; e depois, sai o Bush que quer mais controle sobre esse plano. Na Europa declaram a disponibilidade de créditos urgentes, que são sem dúvidas para salvar as proprias empresas, de maneira que não pague o povo argentino, mas seja pago pelas massas européias. 

O grande vencedor das últimas eleições foi o protesto popular de 65% que votou em branco, anulou o voto, se absteve ou votou por correntes pequeno-burguesas como a de Carrió (1) que se opõem à corrupção generalizada. Foi um referendum popular contra os dois grandes partidos da burguesia direção A classe operária, os setores revolucionários, não podem expressar agora a direção alternativa, mas tem que tentar. Neste sentido são importantes a CTA, a Frente Nacional contra a Pobreza e algumas correntes de oposição da CGT. A Frente Nacional contra a Pobreza é limitada programaticamente e aparece temerosa de que tudo isso saia das “sedes institucionais” e voltem ao poder dos militares. Não é provável o risco de um golpe militar, sobretudo do tipo monolítico e de direita. As forças armadas estão desprestigiadas. As que foram reforçadas nos últimos anos são as estruturas do aparato repressivo militares , da policia e da CIA; e os Estados Unidos contribuíram muito com isso. São estas estruturas que realizaram o trabalho mais sujo da época da ditadura, e que continuou a reprimir e assassinar nestes últimos e, também nas recentes  manifestações. 

Junto com o programa de consolidação das liberdades democráticas é preciso desenvolver uma grande discussão nacional sobre qual a saída econômica para o país. Um plano de investimentos e de desenvolvimento do mercado interno e de exportação, com a criação de comitês populares de controle da inflação, de aplicação dos critérios de desvalorização de maneira que não prejudiquem ainda mais o nível de vida das massas. Controlar os serviços públicos e os abastecimentos dos gêneros de primeira necessidade como os remédios negados hoje pelas multinacionais à Argentina. O uso dos diversos valores de dólares colocam na ordem do dia a necessidade do monopólio do comércio exterior e da recuperação por parte do Estado das empresas de energia e de serviços que foram privatizadas pelo menemismo. Ao mesmo tempo o Estado pode estabelecer relações mais convenientes ou que rompam as intenções de boicote das multinacionais, como a negação das casas farmacêuticas a fornecer a insulina e outros remédios: acordos com Cuba, com o Brasil e a Venezuela na defesa de uma economia a serviço das massas.

 O movimento de massas deve recuperar a tradição programática da classe operária e do peronismo popular: Huerta Grande, La Falda (2) y las Pautas Programáticas (3) de 1973. Elas contêm  as bases sobre as quais é preciso recomeçar a construir o país: a nacionalização dos Bancos, dos recursos energéticos e de todas as empresas de interesse nacional, a reforma agrária e a participação dos operários na gestão das empresas com a possibilidade dos operários controlarem os livros contáveis e os investimentos.