Editorial

O assassinato do prefeito do PT e a agudização da luta de classes no Brasil

 

O assassinato do prefeito Celso Daniel, do PT, faz parte de uma onda crescente de violência política contra a esquerda e os movimentos sociais como o MST. É uma realidade cotidiana da luta pela terra  -  José Rainha foi baleado  -   que vai atingindo agora quadros dirigentes do PT. Esta  face macabra do capitalismo é incorrigível, sendo mais profunda em países com desigualdades como o Brasil.  Daniel é o terceiro prefeito petista assassinado em poucos anos,  assassinatos que também atingem sindicalistas e de modo mais numeroso a trabalhadores rurais sem terra. A retórica social-democrata e de direitos humanos do discurso de Fernando Henrique é desmascarada com esses assassinatos e com as estatísticas: o número de militantes assassinados após a redemocratização formal do país já supera aqueles mortos durante a ditadura militar. O número de homicídios por ano supera a casa dos 8 mil, mais do que os mortos na guerra do Kosovo. 

A reação governamental de “declarar guerra à bandidagem” não vai durar 2 semanas. Serve mal e porcamente para desviar a atenção da agudização da luta classes. Esses assassinatos de militantes feitos pelas estruturas do poder econômico capitalista refletem a necessidade de criar uma desestabilização generalizada no processo eleitoral, e explica-se em parte pelo susto que a burguesia brasileira tomou com a rebelião social na Argentina e pela perda de controle de parcelas expressivas de poder em municípios importantes. Esta desestabilização tende a intimidar a esquerda face a suas boas chances eleitorais e de algum modo provocar uma unificação da direita, mas  também pretende empurrar o PT para as inócuas campanhas de união nacional contra a violência.  Fracassarão as tentativas de conter a violência com medidas de modernização repressiva. Basta dizer que o Estado de São Paulo gastou 30 por cento a mais em verbas para a segurança e a criminalidade aumentou exatamente lá. O Brasil está em terceiro lugar entre os países que mais gastam com a indústria de segurança, perdendo apenas para os EUA e a Colômbia, e a criminalidade cresce junto com a expansão da miséria e das desigualdades.  Enquanto isto, Cuba registra indicadores de criminalidade baixíssimos, em contrapartida aos indicadores sociais mais elevados em todo o mundo, exatamente o contrário do que ocorre no Brasil. 

Só a mobilização popular, a incorporação da população em políticas públicas, a criação de órgãos de participação direta da população da gestão das administrações petistas pode ser uma via para preservar os militantes e para intimidar a criminalidade, que no capitalismo conta com a inevitável corrupção policial. E também é necessário desmascarar a hipocrisia do governo em relação à violência no campo: a maioria dos assassinos e seus mandantes oligarcas estão impunes embora sejam conhecidos e localizáveis; a paralisia interessada da justiça e do Incra nos trabalhos de desapropriação agrava os conflitos e a permissão governamental para que a oligarquia organize suas milícias armadas é pública e notória. 

A voracidade com que as oligarquias-financeiras se lançam para organizar o circo eleitoral para a sucessão presidencial, preparando campanhas bilionárias, contrasta com a divulgação de indicadores sociais pelo IBGE e outros institutos. Há mais de 7 milhões de moradias sem vaso sanitário, há mais de 20 milhões de residências sem luz elétrica, um abismo social separa os cidadãos negros dos brancos; a média salarial brasileira  foi reduzida fortemente ao passo que os lucros dos bancos no período FHC registram recordes históricos. Não deixa de ser emblemático que o ministro da Saúde seja o candidato preferencial do governo em meio à mais uma epidemia de dengue, à notícia de que nascem 300 mil brasileiros por ano com hepatite B, que a desnutrição e a diarréia infantil continuem sendo uma verdadeira pena de morte consolidada , seja em São Paulo(estado mais rico) ou no Maranhão, onde a governadora também se lança à presidência  carregando consigo a conivência com a grilagem de terras, a mortalidade infantil e o trabalho escravo. Aliás, é importante o documento da da CNBB denunciando o nefasto controle oligárquico do estado e pede um projeto nacional para tirar o país da crise que se aprofunda. Este documento  contrasta com o eleitoralismo que predomina na política da esquerda, inclusive no meio sindical. 

Os esforços do governo para apresentar melhorias sociais continuam sendo desmentidos  por estatísticas de seus próprios institutos: a divulgação pelo IPEA de que chegam a 54 milhões os brasileiros famintos e miseráveis faz com que a propaganda oficial se desmanche no ar ou nas telas. Um setor dentro do próprio PSDB, sentindo mais atentamente o susto pelo fracasso neoliberal na Argentina, apressa-se em falar em prioridades sociais e a defender novamente a presença do estado na economia., cuja redução levou os argentinos à beira da guerra civil. 

A crise no campo governista para a escolha do sucessor de FHC mal esconde o desconcerto diante da inclinação do eleitorado por uma candidatura com perfil reformista. Um setor da direita quer impor via Roseana a manutenção das políticas neoliberais, mas com atendimento aos apetites fisiológicos das oligarquias nordestinas. A  burguesia paulista joga com José Serra acenando com um equilíbrio inviável entre estabilidade monetária (juros altos, recessão, corte de gastos públicos etc) e redução das desigualdades, impossível de alcançar nesta etapa do capitalismo. O abismo entre países pobres e ricos cresce vertiginosamente e é uma lei  irrevogável do capitalismo. A estagnação econômica capitalista é mundial, e impõe-se nos países da América Latina e no Brasil. A idéia de que a crise da Argentina não contagiará o Brasil é desmentida pelo próprio discurso oficial que tanto citou as crises da Ásia e da Rússia para explicar suas dificuldades, como também pelo crescimento descontrolado da dívida externa e da dívida pública, sem que isso tenha invertido a diminuição do fluxo de entrada de investimentos externos. O que os economistas burgueses chamam de vulnerabilidade externa ampliou-se com a crise de grandes parceiros comerciais brasileiros, os Eua e mais gravemente na Argentina. Como lá, a abertura econômica e comercial no Brasil, trouxe brutal  desnacionalização da economia, a concentração e  internacionalização do sistema financeiro e só ampliou o grau de perigosa dependência  de fluxos de capital especulativo externo, em volume declinante nos últimos anos. Onde estaria a estabilidade econômica numa economia  estagnada, mais dependente  e mais desnacionalizada? Não por acaso Fernando Henrique vai a Rússia e Ucrânia em busca de acordos, incluindo os da área espacial para uso da Base de Alcântara,  conflitando com os EUA que exigem exclusividade. Os conflitos devem agravar-se, mas no final de tudo, o candidato será escolhido pelas altas finanças, sempre em obediência ao imperialismo ianque, que já disse não aceitar um governo Lula. 

Desatento a este quadro global que revela que o capital externo atua como ímã, representando desinvestimento e fator de endividamento,  até o PT tem se mostrado sensível frente a falência de certos ramos empresarias, por exemplo, votando favoravelmente à abertura da mídia ao capital externo, perdendo grande oportunidade para propor um modelo de comunicação democrático, sem o controle dos oligopólios privados e que sejam instrumentos de elevação informativo-cultural do povo, não de seu embrutecimento. A ajuda petista aos magnatas da mídia não decorre de ignorância do fato de que são exatamente aqueles  órgãos de comunicação que recorreram ao capital externo os que encontram-se mais abalados (RBS,  Gazeta Mercantil; Globocabo, Grupo Abril etc): é fundamentalmente uma escolha política para período eleitoral que, absolutamente em nada diminuirá a hostilidade da mídia  -  agora mais controlada pelos capitais externos  -  contra a candidatura de Lula. Nem esta, nem outras atenuações na política petista resultarão em dividendos eleitorais. A garantia que o PT tenta dar ao grande capital de que não revisará as privatizações, de que não tomará medidas de rupturas quanto à dívida externa, ou que não dará sentido transformador à reforma agrária, só faz distanciar o partido das massas exploradas e reduzir as diferenças entre as candidaturas, já que o campo governista também se apresentará eleitoralmente com um discurso reformista e de justiça social.  Essa redução de diferença favorece as candidaturas conservadoras,  anulando um diferencial fundamental na candidatura de esquerda: a militância e a mobilização popular. Com isto, tornam-se mais decisivos fatores que a burguesia tem à disposição: poder econômico, manipulação da máquina governamental, da mídia, e  da justiça eleitoral. 

Esta tendência da política do PT para uma não ruptura com a política neoliberal contrasta frontalmente com a indignação das massas argentinas contra o regime,  inclusive com a oposição vitoriosa há menos de dois anos. As caçarolas, as rebeliões e os saques na Argentina são o veredicto das massas contra as privatizações, a anulação dos direitos trabalhistas, a desnacionalização, a destruição das políticas públicas. É isto o que deveria estar sendo ouvido pelo PT. Vitórias oposicionistas até que têm ocorrido em muitos países, sem significar, entretanto, qualquer solução ou superação das crises sócio-econômicas. Eis aí o Chile, a Bolívia, o Equador ou o Peru a indicar que sem aplicação de programas que confrontem o neoliberalismo, que estatizem os setores fundamentais da economia, que realizem uma ampla e profunda reforma agrária, acompanhada de uma política de educação, de saúde, de construção de moradias, de obras públicas contra enchentes, mesmo uma vitória oposicionista será reduzida e engolida pela crise crescente do capitalismo. Novas demissões na indústria automobilística, acompanhando o desemprego mundial, já estão engatilhadas, logo após as multinacionais terem  rapinado dinheiro público para instalação de novas montadoras. As massas não vêem o PT defendendo um programa realmente alternativo , de mudanças, para enfrentar esta crise, por exemplo, reivindicando que esta indústria passe a produzir ônibus para o transporte coletivo e máquinas agrícolas, que seja dada prioridade ao transporte ferroviário. As greves dos metalúrgicos indicam a existência de condições para o debate de um modelo alternativo, de soluções duradouras para a garantia do emprego e para o atendimento de uma população sem transporte decente. 

 Assim, quanto mais aguda a crise externa e interna, mais visível torna-se a paralisia do PT, sua opção pela não mobilização das massas e concentração da vida partidária exclusivamente nas ações eleitorais, com o desaparecimento dos núcleos de base. A crise da direita e o processo da Argentina podem contribuir para uma vitória eleitoral petista, uma vitória conjuntural. Entretanto, sem a mobilização das massas isto e torna-se a cada dia menos provável. Mas, de todo modo,  não representaria uma solução para a crise estratégica brasileira, que exigiria mais que a substituição de administradores de um mesmo modelo, um movimento massas amplo com a capacidade de realizar grandes transformações sociais que tirem o povo brasileiro da miséria crônica e da desagregação social.

21.01.2002