
Apresentação
Republicamos
este texto de J. Posadas pela sua atualidade na interpretação deste fenômeno
vigente no processo crescente de crise do capitalismo tal como o questionamento
ao tradicional poder das instituições religiosas, através de uma
participação ativa do clero progressista nas lutas revolucionárias em
diversas partes do planeta. Fenômeno este que se nota na atuação e nos
pronunciamentos políticos de diversos bispos, cardeais e padres brasileiros
junto às lutas camponesas, ao MST, e a adesão em todas as manifestações no
mundo contra os danos da globalização capitalista e contra a guerra.
Após experiências já vividas na Nicarágua e El Salvador e em parte o
Timor hoje, se retoma esta atuação num nível superior na medida em que a
agressividade e a barbárie capitalista aumenta. Correntes inteiras de
católicos, islâmicos, sentem que os preceitos religiosos da justiça social e
da paz são acolhidos pelas idéias, pelo método científico da interpretação
marxista da história e pela força revolucionária das grandes massas.
Saudamos a sua participação exemplar, como a de extratos inteiros da
pequeno-burguesia, dos militares progressistas que transpõem barreiras da
opressão capitalista para aderir com convicção teórica e métodos de força
à luta dos operários, camponeses e sindicatos pelas transformações sociais.
A
religião, o progresso social da história e o socialismo
J.
Posadas 5 de agosto de 1980
As análises que vamos fazer, têm o sentido de chamar e impulsionar os partidos comunistas e Estados operários a intervir mais ativa e conscientemente sobre este problema. Um dos acontecimentos mais importantes para intervir é o Irã; mas não apenas o Irã como também todos os países desta zona: Iraque, Síria, Turquia, Afeganistão. São países nos quais um problema fundamental é a religião – essencialmente islâmica – , a divisão em seitas religiosas e o poder das altas cúpulas feudais sobre camadas da pequeno-burguesia e toda a população nômade e camponesa, por elas exploradas.
Mas, nesta problemática também se inclui a religião católica e a hebréia, além da presbiteriana e evangélica, mas estes não com tanta importância, porque têm menos peso na questão religiosa. Os setores mais importantes são da religião católica cristã. E, assim como as Olimpíadas de Moscou foram uma expressão do progresso cultural, científico e social da humanidade, a luta social que existe atualmente no mundo inclui uma parte dos movimentos católicos e islâmicos, que luta pelas transformações sociais; e neste processo as massas superam todas as suas direções. Superam completamente, e isto se expressa no Irã, no Afeganistão, na Argélia, Líbia, Líbano, onde estão se produzindo mudanças progressivas no movimento islâmico, e também na conduta da Igreja católica, que é obrigada a considerar e basear-se no processo de transformações sociais.
Interessa-nos ver como decai o poder da Igreja, seja a católica, seja a islâmica, judia ou ortodoxa, na medida em que aumenta a participação das massas do mundo na luta pelas transformações sociais. No sentido histórico preciso, a religião continua sendo o “ópio dos povos”, mas aqueles que distribuem o ópio já não têm poder de “opiar” as pessoas; agora, para poderem distribuir o ópio, tem que agitar a bandeira vermelha, como o Papa, que foi à Polônia. Para manter a autoridade da Igreja êle deve mostrar-se progressista. Isto indica que há, nas pessoas, um processo de progresso na compreensão infinitamente maior do que podem expressar, seja no Irã ou em qualquer outro país do mundo.
São questões como esta que devemos abordar, para orientar os Estados operários e os partidos comunistas, sobre como intervir. Mas também é preciso ter em conta o problema da China, onde a religião tem uma infinidade de categorias, de seitas, de grupos, como havia na Urss antes. Então, nós temos que ver como ajudar os partidos comunistas a levar uma política mais audaciosa do que a que eles fazem com relação aos movimentos religiosos procurando dissolver a frente entre as cúpulas religiosas – sobretudo católicas – e o capitalismo; em vez disto, é preciso alentar e atrair uma parte das direções católicas – não só militantes e setores de base e sim direções católicas – para serem ganhas.
Para se medir a influência da revolução no pensamento católico ou religioso em geral, quaisquer que sejam seus princípios, é preciso ver que uma quantidade imensa de intelectuais católicos foi ganha pela revolução, tanto na Itália, na França, na Inglaterra quanto na Alemanha.
A função das cúpulas da Igreja continua sendo a de “ópio dos povos”, mas cada vez têm menos ópio para distribuir, cada vez se reduz mais a quantidade de ópio e aumenta a quantidade de pessoas que não adormecem com o ópio. O princípio de Marx de que a religião é o ópio dos povos se mantém, mas é preciso basear-se no fato de que a função da religião como ópio dos povos, se dá num processo desigual e combinado. A função das altas cúpulas continua sendo a mesma, e também dos centros que são os representantes diretos da propriedade privada, mas não a da estrutura total da Igreja. Porque mesmo esta, para a sua função, tem que ter em conta o processo de transformações sociais e de avanço da cultura da humanidade. O Papa aprendeu isto no México e no Brasil, com os “chutes” que levou. Não puderam lhe dar chutes de verdade, mas correspondia a isto. Na Polônia ele foi para sentir a presença de Cristo e o resultado foi a presença do socialismo em Cristo.
O religiosos e a revolução socialista
São problemas relativamente novos, mas mais profundos, e é preciso desenvolver dirigindo-se aos partidos comunistas e, sobretudo, aos católicos. Muitos deles dizem que, sem deixar de ser crentes, são militantes do comunismo. Crêem na existência de Deus mas, quanto aos cultos, já mudam, e aceitam princípios do comunismo, como por exemplo, que as transformações sociais têm que ser feitas à força, sem invocar a Deus, e sim invocando às massas.
São problemas que, da forma como se apresentam, são relativamente novos, e nós devemos participar ativamente para fazer amadurecer um processo que, se amadurecer por si mesmo, é mais lento; mas nós podemos ajudá-lo a amadurecer enormemente.
Vamos analisar sobre tudo isto, não tanto analisando estritamente o problema da religião, o progresso social da história e o socialismo. É muito importante, porque há uma quantidade imensa de católicos, sobretudo de católicos que vêem o comunismo como uma necessidade, e não se incomodam de andar “de mãos dadas com o comunismo”.
O senador Raniero La Valle da Itália, que é católico, independente de esquerda e de origem democrata-cristã, entrevistou, num filme que ele fez sobre o Vietnam, a um dos chefes budistas:
– Como é que você agora apoia a revolução vietnamita? –, perguntou ele ao religioso.
– No começo eu estava contra. Falar de comunismo para mim, era como falar do diabo, e eu acreditava em tudo o que Van Thieu (ditador que se manteve no Vietnam do Sul até ser derrubado pelos vietcongs – N.R.) dizia, e predicava isto. Os comunistas vieram, e me deixaram. E eu estive vendo o que eles faziam e cheguei à conclusão de que aquilo era o que eu, como religioso, aspirava fazer. Então, eu disse para mim mesmo: o comunismo do Vietnam é um comunismo religioso. E fui ganho porque os comunistas fazem o que a base essencial da minha crença quer: justiça.
Este era um dirigente máximo budista. Depois, foi entrevistado um católico:
– Para mim o comunismo era o diabo. Bem, eu vi os comunistas. Especialmente os vi lutar e vi o seu sentimento de justiça. Fizeram coisas maravilhosas. Nenhum de nós teria feito isto.
– Você é comunista?
– Não, eu não sou comunista, mas vou apoiar os comunistas. E digo para todos os meus fiéis que é preciso apoiá-los.
E mesmo a atitude de muitos aiatolás no Irã é de quem está de acordo que a solução é o comunismo. “E Maomé?” – Maomé vai virar comunista”.
É preciso desenvolver sobre tudo isto para tirar uma conclusão sobre a atividade. Os comunistas fazem uma atividade dirigida aos católicos, mas muito conciliadora e seguidista.
Este é um problema fundamental, com o qual devemos contribuir com análises, para orientar a todos estes camaradas. Já fizemos uma contribuição importante, particularmente no caso do Irã, quando analisamos sobre Khomeini, que era visto com um sem vergonha, um trapaceiro, um explorador da revolução e até um fascista. Nós dissemos que não era assim, e que era preciso fazer uma frente única com ele. Sem sujeitar-se à sua limitação, mas considerando que é possível impulsioná-lo bastante.
Há uma divisão na Igreja e um começo de desenvolvimento, muito superficial ainda, de uma influência marxista. Superficial porque não tratam todos os problemas, mas o método de raciocínio cristão ou religioso é deixado de lado, e raciocinam como políticos. Deus entra de vez em quando, desde que não atrapalhe muito, e por outro lado, a cada instante estão dizendo que “é preciso resolver os problemas sociais”. Não falam de “submetimento” ou de “respeito”, e sim de que “é preciso resolver os problemas sociais”.
O Papa procura formar a sua própria corrente, no meio de tudo isto. Na viagem que fez pelo mundo, foi detectando, para ver qual deve ser o jogo da Igreja no futuro. Na Polônia, um milhão de pessoas ou mais foram vê-lo. É preciso ver que a Polônia é o Estado operário mais católico, tem uma grande tradição católica. Eles – o capitalismo e a Igreja – esperavam uns cinco milhões. O Papa ia como representante da concepção católica da vida, que é estabelecida pela Igreja, em representação da propriedade privada. E não fez nenhum ataque contra o socialismo, o Estado operário ou os erros cometidos pela burocracia: nenhuma palavra! E não foi porque o impediram, pois ele teria mil formas de falar. O Papa não falou; e além disto, havia “contestadores”, e por que não apareceram? A imprensa teve plena liberdade para ir a todos os lados, tirar fotografias, escutar, gravar: não escutou um só “contestador” (refere-se à primeira viagem do Papa, em 1979 – N.R.). O Papa também foi ao México e pensou que tinha ganho os camponeses. Quando ele disse: “Há alegria na choça dos pobres”, o mandaram à merda! O insultaram! Ele teve que convocar uma nova reunião no dia seguinte, para retificar o que havia dito.
A Igreja, quando faz isto, é porque está vendo como se situar, e como tirar vantagem para ela, como casta. Mas não há lugar na história para isto; a Igreja age desta forma para defender a estrutura de casta que já possui, que, apesar de ser dependente da propriedade privada, nem sempre depende dos mesmos interesses imediatos da propriedade privada. É preciso lembrar que há diferenças entre este Papa e Pio XII, que benzia os canhões de Mussolini, e que tinha cara de assassino, mãos de ladrão e olhos de tarado.
Mas não se deve medir a atitude da Igreja apenas pelo que este Papa está fazendo, e sim pelo fato de que há dentro dela uma ala que se expressa nos Concílios, nas reuniões (que não são públicas) e que está contra a propriedade privada e apoia os Estados operários. São quase todos, setores da África e da América Latina, apesar que também da Europa. Isto constitui um movimento favorável à luta anticapitalista e que os comunistas não sabem utilizar. Influenciam eleitoralmente, mas não têm posição frente a este processo interno na Igreja.
No movimento católico, muçulmano, no judeu menor, há uma corrente que é acessível a esta compreensão. Neste sentido é preciso ter em conta a existência de Gadaffi, de Assad, da Síria, e de uma parte da corrente dirigente do Iraque, onde há uma luta muito grande. A Igreja Ortodoxa não é importante porque não tem peso, e onde tem a maior quantidade de gente que a segue é na União Soviética, mas aí, os ortodoxos são antes de tudo soviéticos e depois ortodoxos.
Então, as bases das religiões que pesam, determinam e têm importância, são a católica, a muçulmana e, longinquamente, a israelense, porque dentro da massa judia há um setor bastante grande que é comunista. Quase todo o movimento judeu da América latina é de esquerda. Os que são de direita ou de centro, são os grandes empresários ou comerciantes.
3/8/1980
J.
Posadas