
Venezuela:
as tarefas para o avanço do processo revolucionário
O
curso de esquerda aberto com
a vitória eleitoral de Hugo Chavez e sua Revolução Bolivariana na
Venezuela é um forte estímulo
para o conjunto de forças antiimperialistas da
América Latina e do mundo. É também um sinal claro da reação das
massas à política neoliberal, indicando a existência de condições para que
as forças progressistas do continente possam atuar com audácia política e
programática contra os planos do imperialismo em cada país.
Ao
mesmo tempo, a vitória eleitoral esmagadora
de Hugo Chavez , a rejeição de seu governo às políticas neoliberais e seus
chamados constantes à unidade de forças antiimperialistas, a defesa que faz da
integração econômica, monetária, militar e cultural latino-americana,
convocam ao conjunto das
forças nacionalistas, militares ou não, aos sindicalistas, aos movimentos
cristãos e à esquerda comunista e
socialista a um debate sobre quais medidas adotar para aproveitar a crise da
política neoliberal, agora mais dramaticamente revelada na Argentina.
A
subida de Chavez ao poder indica como os efeitos catastróficos do
neoliberalismo vão gerando condições de levantes populares tais como o
Caracazzo, o levante popular indígena do Equador em 2000. as várias explosões
sociais dos camponeses na Bolívia e , mais recentemente, o verdadeira rebelião
social generalizada na Argentina. Depois
de sucessivas vitórias eleitorais de governos neoliberais, com suas políticas
entreguistas, privatizantes, antisociais,
ocorridas num quadro de relações mundiais de forças desfavoráveis
após a crise da União Soviética, setores
da esquerda em várias partes do mundo chegaram a admitir que as massas não
mais apoiariam propostas de esquerda, nem reagiriam
com características de
insurreição como estes episódios
indicam.. Assim, a esquerda
tradicional venezuelana foi
surpreendida pela forte reação das massas no Caracazo, que abriu
uma novo curso político no país, estimulando as correntes militares
antiimperialistas lideradas por Chavez a intervir. Eis aí uma primeira
conclusão a tirar: se os partidos de esquerda preparam-se apenas para uma
rotineira e gradual oposição parlamentar de longo prazo, podem deixar escapar
oportunidades históricas que continuam sendo geradas apesar da aparente
hegemonia indestrutível do neoliberalismo.
Conclusões
similares podem ser extraídas do processo político do Equador. Nada menos que
três governos neoliberais foram derrubados por levantes de massas em poucos
anos. No ´último, em janeiro de
2000, o movimento indígena-camponês-popular recebeu o apoio de correntes de
militares progressistas, sob a liderança do Coronel Lúcio Gutierrez, e os
dirigentes chegaram a ocupar por algumas horas uma espécie de governo
provisório instalado no palácio presidencial. O imperialismo acionou a embaixada, seus agentes, a cúpula
militar reacionária e desarticulou este embrião de governo popular, que se
tivesse convocado a população através dos meios de comunicação
para apoiar um programa de distribuição de terras, estatização dos
bancos, aumento dos salários, congelamento dos preços, poderia ter
desarticulado as ações da direita e assumido o controle do país.
As condições estão latentes em muitos lados. Os partidos de esquerda
é que se sentem intimidados para esse processo, não cogitaram sequer a
possibilidade de levantes populares e quando eles ocorrem cuidam mais da
legalidade do que da criação de órgãos de duplo poder e da aplicação de um
programa destinado a enfrentar o capitalismo.
Na
Venezuela este processo de levante encontrou uma corrente militar
antiimperialista decidida a tomar o poder. De modo inteligente e objetivo as
massas venezuelanas, sufocadas numa opressão social, econômica, cultural e
política, compreenderam o sentido
progressista da corrente de Hugo Chavez .
O amplo apoio popular recebido por Chavez
intimidou e paralisou até o
momento uma série de iniciativas golpistas da direita. Com seus votos, com sua
mobilização constante, as massas da Venezuela
derrotaram a máquina eleitoral da direita, o seu poderio econômico, a
sua gigantesca e infame máquina de propaganda e de manipulação concentrada na
mídia. Sem um partido organizado , aliás,
condenando os partidos tradicionais que levaram a rica Venezuela a ser um
dos países de maior injustiça social do mundo ,
Chavez só foi conduzido ao
poder em função da inteligência e da objetividade das massas exploradas
venezuelanas, que indicam a
decisão de impulsionar um processo mais profundo de transformações.
Entretanto,
a Revolução Bolivariana, acaba de
completar três anos no poder e precisa passar a uma nova etapa. Já deu
demonstrações de sobra de que tem apoio eleitoral, vencendo um total de 6
pleitos. Conseguiu aprovar um conjunto de leis populares importantes, como a Lei
de Terras, a Lei de Pesca e outras. Mas ainda não deu início a etapa mais
ampla e profunda de transformações na estrutura sócio-econômica da
Venezuela, onde cerca de 70 por cento dos trabalhadores estão no mercado
informal, igual contingente da população mora em favelas, sujeitas a
desabamentos constantes, obrigadas a roubar eletricidade, sem dispor de
instalações sanitárias adequadas, condições estas absolutamente
injustificáveis no país com tantas riquezas.
Com
um ano no poder a Revolução Cubana já havia acabado com o analfabetismo e
tinha iniciado uma profunda reforma agrária , bases para que Cuba seja hoje o
país com elevados indicadores
educacionais, de saúde, e com um grau 96 por cento de eletrificação na
agricultura, cumprindo o admirável papel de exportar médicos, educadores e
vacinas para países pobres da América Latina, Venezuela inclusive, e da
África, além de receber estudantes pobres de todos estes países, inclusive ,
dos bairros negros dos EUA, que só em Cuba têm a oportunidade de estudar
medicina gratuitamente.
Não
falta decisão à equipe de Chavez. Não falta apoio popular e a prova disso foi
a gigantesca manifestação de 500 mil em Caracas no aniversário da Revolução
e em respostas às iniciativas da oligarquia e dos empresários com o apoio o
imperialismo. Agora o que falta é
o programa econômico, a criação de mecanismos que permitam às massas
expressarem-se diretamente na gestão da sociedade e dos recursos do Estado. Se
é certo que houve alguma melhoria em indicadores sociais como na área da
saúde e da educação, a simples comparação com a Revolução Cubana, ou
mesmo com a Revolução Sandinista, mostra que o potencial e as condições da
Venezuela permitem muito mais. Os índices de criminalidade, a alta taxa de
mortalidade infantil e de desnutrição estão aí a desafiar a equipe de Chavez
a ir mais adiante.
É
importante que Chávez declare em
público e com uma metralhadora em punho, que não será um novo Salvador
Allende. A esquerda latino-americana ainda não tirou todas as conclusões sobre
o Chile. Allende acreditava que os
militares chilenos iram respeitar o processo democrático e o voto do povo
chileno. Além disso, ele confiava nos comandantes militares, nas estruturas do
Estado. O golpe foi organizado com o apoio dos EUA e o povo chileno não estava
organizado para enfrenta-lo. Com Chavez é diferente. Ele não tem ilusões de
que a direita irá respeitar o resultado das urnas, e demonstra decisão de reagir . Essa decisão se choca com
a manutenção das estruturas militares e do estado tal como são,
criadas e organizadas para servir à classe dominante, à classe que ainda tem o
poder na economia da Venezuela, que comanda as instituições financeiras, o
processo produtivo, as grandes propriedade agrárias, a comunicação e a
exportação. Ou seja, enquanto essas estruturas não forem transformadas de
modo democrático, sujeitando-se à vontade do povo organizado, não há
garantia de que o processo revolucionário de Chavez não seja interrompido.
A
experiência do governo de Velasco Alvarado , no Peru. Também deve ser
considerada; Militar nacionalista, adotou de início medidas importantes,
incluindo o controle dos meios de comunicação pelos sindicatos e a reforma
agrária. Mas, no campo econômico o governo Alvarado tentou inventar o que
chamava de “propriedade social”, que não seria nem privada , nem estatal.
As estruturas do capitalismo não alteradas no Peru se impuseram e o importante
processo antiimperialista de Alvarado foi interrompido, embora também tivesse
amplo apoio popular.
A
experiência da Nicarágua Sandinista é também eloqüente para mostrar a
necessidade não apenas de medidas de transformação das estruturas da economia
e da sociedade, como também a necessidade de órgãos onde as massas pobres
possam aprender e exercitar a experiência de gestão dos recursos públicos. A
Revolução na Nicarágua comoveu o mundo, tinha forte apoio popular, com massas
armadas. Realizou logo no primeiro ano a importantíssima, Cruzada Nacional de
Alfabetização: os estudantes universitários subiram às montanhas para
ensinar aos camponeses. No entanto, pressionada pelo imperialismo, pela
contra-revolução, e debilitada pela crise da URSS, a direção sandinista submeteu-se ao mesmo modelo eleitoral
vigente no capitalismo, onde o poder econômico decide o resultado das urnas.
Daniel Ortega havia vencido esmagadoramente
a primeira eleição. Mas, com a
ambigüidade no campo da economia, mantido o poder econômico da burguesia
nicaragüense, este poder se expressou na política, aproveitando-se dos efeitos
desgastantes da guerra e do terrorismo de estado norte-americano . Ou seja, a
burguesia tinha como se expressar no modelo eleitoral da Nicarágua, enquanto as
massas não tinham órgãos de poder, não
tinham como influir para fazer avançar a revolução sandinista rumo a um
estado operário como em Cuba, onde a burguesia foi destruída e desarticulada
através da expropriação de suas propriedade, que é de onde emana seu poder
político. A conclusão aí está:
mesmo tendo realizado uma revolução heróica, alfabetizado, distribuído
terras, reduzido drasticamente os índices de mortalidade infantil, a direção
sandinista paralisou-se diante da
necessidade de seguir o caminho rumo à socialização mais ampla da sociedade e
a uma integração numa federação como Cuba e outros países
latino-americanos, única saída para os países pobres da região. Tanto na
Nicarágua como no Chile a burguesia controlava parte essencial da mídia. Na
Venezuela, idem.
São
importantes a decisão e o compromisso de Chavez com os oprimidos, suas
propostas de integração latino-americana. Mas a história tem suas leis. O
imperialismo não respeitará nenhum processo democrático, muito menos num
país grande produtor de petróleo como a Venezuela.
Enquanto a Revolução Bolivariana completa três anos, as massas
continuam morando nos morros, em casas improvisadas como dizia Ali Primera em
suas canções, não têm emprego, o salário mínimo não sustenta uma família
obreira, não há transporte, etc . E elas observam ao seu lado os grandes
palácios dos ricos, a imensa riqueza acumulada por esta camarilha que rapinou
os recursos públicos a partir do petróleo, observam a enormes extensões de
terras agricultáveis improdutivas controladas por uma oligarquia parasitária,
enquanto a Venezuela tem que importar alimentos e depender do exterior. E pedem
que Chavez siga adiante.
O
apoio eleitoral não se sustenta por tempo indefinido se as condições
sub-humanas permanecem intactas. Chavez tem a decisão de entregar o Palácio de
Miraflores para a criação da Universidade Popular Bolivariana. Como gesto é
importante porque sinaliza contra a proibição capitalista de que as massas
pobres ascendam ao ensino universitário. Mas há plenas condições para
desencadear uma cruzada nacional de alfabetização, combinada com a
expropriação dos latifúndios improdutivos e sua entrega
a cooperativas de camponeses. Junto a isto é necessário que o Estado
construa estradas, eletrifique o campo, invista na produção de alimentos de
consumo popular, gerando empregos e reduzindo os preços. Ao mesmo tempo, a
caótica situação de Caracas e seus arredores, exige a aplicação urgente de
um programa popular de habitação, enfrentando o desemprego que é o
responsável pela altíssima criminalidade. Sendo importante o deslocamento de
tropas para o cumprimento de atividades sociais nos bairros pobres, na
vacinação, construção de postos de saúde, de escolas etc, as demandas das massas da Venezuela são tão urgentes e inadiáveis que
é preciso uma forte intervenção do Estado. O imperialismo vai reagir, vai
sabotar com especulações financeiras, com pressões de toda natureza, vai
pressionar o empresariado e a oligarquia a organizarem sabotagens, o que traz a
necessidade de discutir o controle estatal sobre o sistema financeiro e sobre a
produção dos bens essenciais ao consumo popular. Os venezuelanos consomem
poucas proteínas, pouco leite, praticamente não lêem, não podem comprar
jornal ou livros, têm muita carência de roupas, sapatos, móveis e utensílios
domésticos. E há uma faixa da população absolutamente na miséria. Sem
transformações de fundo, de intervenção estatal, sem reforma agrária, todo
este setor miserável poderá voltar a ser massa de manobra dos partidos
tradicionais da burguesia venezuelana como no passado.
Os
acordos econômicos, comerciais e culturais como Cuba são uma base
importantíssima para que as massas venezuelanas compreendam que para avançar
socialmente é preciso organizar a economia. Nas idéias de Bolívar, como todo
seus objetivos e compromissos antiimperialistas, não há indicações sobre
como organizar a economia, como planejar a sociedade. E Cuba, neste sentido,
serve de lição para as massas pobres da Venezuela, que estão vendo como o
povo cubano pode escapar da exploração colonial. Lá, junto com as idéias
profundas e audaciosas de José Marti, estão as idéias de Marx, de Lênin, de
Che Guevara. É preciso debater isto na Venezuela e no movimento bolivariano.
O
apoio popular, eleitoral, social, das
massas venezuelanas Chavez já tem. Mas, a relutância na adoção de medidas
para fazer a economia funcionar para as massas, tem gerado
uma decepção em camadas da pequeno-burguesia, intelectuais
progressistas e estudantes. Esta demora cria um vazio que anima a direita a
tomar iniciativas, para as quais não tem apoio na sociedade. Não é possível
inventar a roda em economia. A experiência histórica mostra que foi através
da estatização, da planificação da economia e do controle popular que Cuba
avançou. É impossível inverter radicalmente os elevados índices de
concentração de renda e de desigualdade na Venezuela sem transformar um modelo
econômico que ainda é o mesmo de antes, que funciona para atender as demandas
da minoria da sociedade. Só o avanço nestas medidas de transformação contra
a estrutura sócio-econômica controlada pela burguesia é que pode garantir a
ampliação do apoio popular e a capacidade de resistir às ações de sabotagem
que inevitavelmente o imperialismo vai adotar.
20.01.2002