Argentina – parece um sonho, mas é uma realidade

O capitalismo na Argentina está atolado num lamaçal sem solução. A crise açoita o sistema em todas as suas frentes.

A pressão sobre o governo de De La Rua é imensa e este não acha nenhuma saída. Por isso em um ano e meio fez tantas mudanças, dentre eles no alto escalão trocas de ministros (funcionários) e suas políticas sem dúvida tem sido cada vez mais reacionários.

O programa da Aliança foi totalmente desvirtuado. Chegou ao ponto de designar a Domingos Cavallo como Ministro da Economia (até ontem inimigo acérrimo) e hoje com plenos poderes outorgados pelo parlamento para ditar soluções - leis que atentam contra um setor da burguesia, mas que, no essencial, atingem aos setores mais pobres da população.

A Argentina encontra-se num caos. No jargão popular diz-se que há dois presidentes (De La Rua e Cavallo) mas quem manda é o Cavallo.

Os assaltos, os roubos, os assassinatos são notícias de todos os dias. As bases fundamentais do sistema Público: saúde, educação e segurança estão debilitadas a tal ponto que parecem não existir. E há inúmeros protestos que desestabilizam constantemente o poder.

Então estes se lançam a constituir a "Unidade Nacional", mas o que na realidade pretendem construir é a "União da Burguesia".

A crise os flagela, e percebem que as conseqüências da crise do imperialismo ianque vão desabar sobre eles, então saem com a proposta de fazer "o cesto de moedas, incluindo o Euro", o que significa na prática uma desvalorização do Peso. Mesmo que tentem ignorar este quadro, esta perspectiva, esta realidade os sacode: China impõe uma humilhação aos ianques e abre-se uma disputa entre eles para discutir se lançar a guerra agora ou esperar mais.

Que programa podem oferecer para dar uma saída ou pelo menos colocar paliativo para esta crise?

O governo oferece uma maior exploração das massas populares e espera que dentro de seis anos possa ser resolvido o problema do desemprego. Seis anos!

Transformaram o Estado. Reduziram a burocracia e os organismos que eram os pilares do funcionamento social do país. Em troca, substituíram o Estado com as privatizações de todas as empresas estatais que constituíam a base econômica de resistência ao imperialismo e ao capitalismo mundial. Estavam cheias de corrupção, era necessário limpá-las, mas indiretamente elas subvencionavam à economia nacional, e os serviços que a população utiliza: luz, água, telefone, gás, ferrovias, aviação, etc. etc. Qual é o resultado? Imediatamente após os "privados" terem-se apoderado destes recursos, as tarifas telefônicas subiram de 56% e do mesmo modo todos os outros serviços.

Agora o "gênio" Cavallo impôs um novo pacote: o que corresponde à taxação dos depósitos ou saques de dinheiro para quem usa cheques, o que também afeta os depósitos a prazo fixo ou as caixas de poupança, mesmo que ele o negue. Falam de corrupção.

E volta à tona o escândalo da venda de armas ao Equador e à Croácia. Está claro que quase todos os componentes e assessores do governo de Meném e todo o "pessoal" menemista teriam que estar presos. Mas é "vox populi" que atrás destas trapaças está o imperialismo ianque, então ninguém dá crédito a tais investigações.

De qualquer forma este fenômeno é interessante porque produz um resultado unânime, bloqueios de estradas, mobilizações contra a política continuísta de Menem conduzida pelo governo da "Aliança".

Um setor da burguesia protesta, mas quem detém o poder e o consenso com o imperialismo é o setor mais forte, normalmente denominado o "stablishment".

Como é de se esperar, todo o peso destas medidas recai sobre o poder aquisitivo da população. Então os chamados ApyMes (pequenos e médios empresários da indústria, do comércio e do meio rural) encontram-se encurralados. Este setor da economia busca abertamente uma Frente com os trabalhadores. Mas os obstáculos para tal são enormes: há três Centrais Operárias, a CTA, a CGT combativa e dissidente, e a CGT oficial dirigida pelos chamados "gordos", os burocratas "dialoguistas" tradicionais, perpetuados nos seus postos devido à proteção de que gozam por parte do poder e da legislação sobre as Associações Profissionais que eles próprios conquistaram em troca de favores e silêncios frente aos desmandos dos governos.


AS MOBILIZAÇÕES CONTRA A ALCA

Houve três mobilizações contra a Alca. Nestes fatos podem-se distinguir o progresso e ao mesmo tempo o impasse, devido ao fato que as concentrações tenham sido feitas por motivos abertamente políticos. Refletem também um aspecto de pressão e negociação, que permitiu aos sindicatos obter a postergação da lei de desregulamentação dos serviços sociais prestados pelos sindicatos, que são um pilar de sustentação das burocracias, principalmente das mais potentes.

Mas a influência das lutas em todo mundo e em especial da América Latina constituem um estímulo constante para resistir e conseguir formar um polo nacional e popular em condições de mudar a realidade atual.

O recente Fórum de Porto Alegre, a presença de Cuba e as mobilizações dos Zapatistas estão exercendo uma grande influência neste processo. Por isso num dos atos públicos contra a Alca falaram oradores operários, ecologistas, etc. através dos quais se sentia a vibração profunda que suscitavam as delegações provenientes do Brasil, do Chile, do Uruguai, do Canadá, e as de outros países, muito numerosas.

Desenvolve-se uma corrente de segurança para enfrentar o imperialismo, derrotá-lo e construir uma nova sociedade na qual prevaleçam as relações humanas fraternais e solidárias, uma sociedade socialista.

A Argentina, com a tradição de luta da classe operária, apresenta-se com atraso neste processo. Por enquanto esta se expressa nos rachas políticos, como os que ocorreram na Aliança pela Mudança encabeçada por Alicia Castro, secretária-geral do Sindicato dos Aeroviários, que conjuntamente com outros três ou quatro deputados do FREPASO romperam com o mesmo. Expressa-se também com a deputada radical Carrió, que não respeita a disciplina do seu bloco, declarando-se contra a política de De La Rua. Ou com o religioso "padre Farinello", predicador que formou o "Polo Social", e que dá o seu apoio a Alicia Castro.

A debandada que se produz no menemismo e nas investigações sobre as vendas ilegais de armas ao Equador e à Croácia, a constante mobilização contra os aparelhos de repressão da ditadura, as greves nas fábricas que se multiplicam frente ao desemprego e à redução dos salários, formam um quadro que parece um sonho.

Mas o avanço da compreensão de toda uma enorme vanguarda sobre a inutilidade e a falsidade das instituições burguesas, está abrindo o caminho para formação de uma verdadeira Aliança de classe com propósito de transformar o país. O capitalismo já demonstrou que não o pode faze-lo. A aprendizagem é forçada e custosa e parece um sonho, mas representa uma realidade cheia de esperanças.



Seção Argentina da IV Internacional Posadista

Argentina – parece um sonho, mas é uma realidade





O capitalismo na Argentina está atolado num lamaçal sem solução. A crise açoita o sistema em todas as suas frentes.

A pressão sobre o governo de De La Rua é imensa e este não acha nenhuma saída. Por isso em um ano e meio fez tantas mudanças, dentre eles no alto escalão trocas de ministros (funcionários) e suas políticas sem dúvida tem sido cada vez mais reacionários.

O programa da Aliança foi totalmente desvirtuado. Chegou ao ponto de designar a Domingos Cavallo como Ministro da Economia (até ontem inimigo acérrimo) e hoje com plenos poderes outorgados pelo parlamento para ditar soluções - leis que atentam contra um setor da burguesia, mas que, no essencial, atingem aos setores mais pobres da população.

A Argentina encontra-se num caos. No jargão popular diz-se que há dois presidentes (De La Rua e Cavallo) mas quem manda é o Cavallo.

Os assaltos, os roubos, os assassinatos são notícias de todos os dias. As bases fundamentais do sistema Público: saúde, educação e segurança estão debilitadas a tal ponto que parecem não existir. E há inúmeros protestos que desestabilizam constantemente o poder.

Então estes se lançam a constituir a "Unidade Nacional", mas o que na realidade pretendem construir é a "União da Burguesia".

A crise os flagela, e percebem que as conseqüências da crise do imperialismo ianque vão desabar sobre eles, então saem com a proposta de fazer "o cesto de moedas, incluindo o Euro", o que significa na prática uma desvalorização do Peso. Mesmo que tentem ignorar este quadro, esta perspectiva, esta realidade os sacode: China impõe uma humilhação aos ianques e abre-se uma disputa entre eles para discutir se lançar a guerra agora ou esperar mais.

Que programa podem oferecer para dar uma saída ou pelo menos colocar paliativo para esta crise?

O governo oferece uma maior exploração das massas populares e espera que dentro de seis anos possa ser resolvido o problema do desemprego. Seis anos!

Transformaram o Estado. Reduziram a burocracia e os organismos que eram os pilares do funcionamento social do país. Em troca, substituíram o Estado com as privatizações de todas as empresas estatais que constituíam a base econômica de resistência ao imperialismo e ao capitalismo mundial. Estavam cheias de corrupção, era necessário limpá-las, mas indiretamente elas subvencionavam à economia nacional, e os serviços que a população utiliza: luz, água, telefone, gás, ferrovias, aviação, etc. etc. Qual é o resultado? Imediatamente após os "privados" terem-se apoderado destes recursos, as tarifas telefônicas subiram de 56% e do mesmo modo todos os outros serviços.

Agora o "gênio" Cavallo impôs um novo pacote: o que corresponde à taxação dos depósitos ou saques de dinheiro para quem usa cheques, o que também afeta os depósitos a prazo fixo ou as caixas de poupança, mesmo que ele o negue. Falam de corrupção.

E volta à tona o escândalo da venda de armas ao Equador e à Croácia. Está claro que quase todos os componentes e assessores do governo de Meném e todo o "pessoal" menemista teriam que estar presos. Mas é "vox populi" que atrás destas trapaças está o imperialismo ianque, então ninguém dá crédito a tais investigações.

De qualquer forma este fenômeno é interessante porque produz um resultado unânime, bloqueios de estradas, mobilizações contra a política continuísta de Menem conduzida pelo governo da "Aliança".

Um setor da burguesia protesta, mas quem detém o poder e o consenso com o imperialismo é o setor mais forte, normalmente denominado o "stablishment".

Como é de se esperar, todo o peso destas medidas recai sobre o poder aquisitivo da população. Então os chamados ApyMes (pequenos e médios empresários da indústria, do comércio e do meio rural) encontram-se encurralados. Este setor da economia busca abertamente uma Frente com os trabalhadores. Mas os obstáculos para tal são enormes: há três Centrais Operárias, a CTA, a CGT combativa e dissidente, e a CGT oficial dirigida pelos chamados "gordos", os burocratas "dialoguistas" tradicionais, perpetuados nos seus postos devido à proteção de que gozam por parte do poder e da legislação sobre as Associações Profissionais que eles próprios conquistaram em troca de favores e silêncios frente aos desmandos dos governos.


AS MOBILIZAÇÕES CONTRA A ALCA

Houve três mobilizações contra a Alca. Nestes fatos podem-se distinguir o progresso e ao mesmo tempo o impasse, devido ao fato que as concentrações tenham sido feitas por motivos abertamente políticos. Refletem também um aspecto de pressão e negociação, que permitiu aos sindicatos obter a postergação da lei de desregulamentação dos serviços sociais prestados pelos sindicatos, que são um pilar de sustentação das burocracias, principalmente das mais potentes.

Mas a influência das lutas em todo mundo e em especial da América Latina constituem um estímulo constante para resistir e conseguir formar um polo nacional e popular em condições de mudar a realidade atual.

O recente Fórum de Porto Alegre, a presença de Cuba e as mobilizações dos Zapatistas estão exercendo uma grande influência neste processo. Por isso num dos atos públicos contra a Alca falaram oradores operários, ecologistas, etc. através dos quais se sentia a vibração profunda que suscitavam as delegações provenientes do Brasil, do Chile, do Uruguai, do Canadá, e as de outros países, muito numerosas.

Desenvolve-se uma corrente de segurança para enfrentar o imperialismo, derrotá-lo e construir uma nova sociedade na qual prevaleçam as relações humanas fraternais e solidárias, uma sociedade socialista.

A Argentina, com a tradição de luta da classe operária, apresenta-se com atraso neste processo. Por enquanto esta se expressa nos rachas políticos, como os que ocorreram na Aliança pela Mudança encabeçada por Alicia Castro, secretária-geral do Sindicato dos Aeroviários, que conjuntamente com outros três ou quatro deputados do FREPASO romperam com o mesmo. Expressa-se também com a deputada radical Carrió, que não respeita a disciplina do seu bloco, declarando-se contra a política de De La Rua. Ou com o religioso "padre Farinello", predicador que formou o "Polo Social", e que dá o seu apoio a Alicia Castro.

A debandada que se produz no menemismo e nas investigações sobre as vendas ilegais de armas ao Equador e à Croácia, a constante mobilização contra os aparelhos de repressão da ditadura, as greves nas fábricas que se multiplicam frente ao desemprego e à redução dos salários, formam um quadro que parece um sonho.

Mas o avanço da compreensão de toda uma enorme vanguarda sobre a inutilidade e a falsidade das instituições burguesas, está abrindo o caminho para formação de uma verdadeira Aliança de classe com propósito de transformar o país. O capitalismo já demonstrou que não o pode faze-lo. A aprendizagem é forçada e custosa e parece um sonho, mas representa uma realidade cheia de esperanças.


Seção Argentina da IV Internacional Posadista

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