
Sobre
a crise na Argentina
A cada semana se
produz na Argentina alguma comoção social, pondo a nu a hipocrisia do sistema.
A resistência das populações de Mosconi e Tartagal tocou profundamente o
sentimento do povo argentino. A televisão mostrava continuamente a precariedade
com que vivem as populações dessas regiões e por sua vez, o enfrentamento
massivo com estilingues e pedras contra a repressão policial que conseguiu
acrescentar mais duas mortes à sua conta.
Os que nunca
apareceram foram os “franco-atiradores” aos quais se referiam os funcionários
do governo central e provincial. Somente podiam utilizar a mentira para
justificar sua ação terrorista. O poder necessita terminar com os bloqueios
das estradas, como na rodovia 34 que ocupada pelas crianças, mulheres, pessoas
idosas, jovens adolescentes e adultos. Por isso apelou para a “gendarmeria”
que é um corpo de repressão armada similar ao exército e com armas
desproporcionais mataram, feriram e acabaram ocupando a cidade como em tempos de
guerra.
O bloqueio das
rodovias é a forma que adotaram os trabalhadores, os desempregados, os excluídos
para expressar o seu protesto. É preciso tomá-lo como um exercício empírico
da luta para o poder. Qualquer reinvidicação que conseguissem seria produto
destes enfrentamentos e da pressão social, mas se diluiria a curto prazo porque
não há base para satisfazer as necessidades e demandas de milhões de
habitantes do país.
Mesmo não tendo direção
política, este povo está demonstrando uma consciência muito elevada e tem
conseguido a unificação de todos os integrantes da comunidade. Os seus
dirigentes são dois “piqueteros” e estão sendo intensamente procurados
pela policia, mas eles estão bem protegidos e até lhes fazem entrevistas pela
televisão.
Frente a
tal felonia que coloca em evidência mais uma vez a mentira de “uma
democracia limitada ou incipiente, assim denominada no ambiente político”,
assim como é falso o chamdo funcionamento “independente” entre os poderes,
dado que o executivo, o legislativo e o judiciário respondem com diferentes
tons e graus ao mesmo patrão: o capitalismo selvagem, segundo o eufemismo tão
de moda na boca dos que pretendem ser “opositores”.
Não se escutou
nenhum político denunciar este genocídio, salvo a crueldade com que atuou a
policia. As forças políticas conservadoras e que constituem a maioria se
abstiveram de intervir dado que se trata de um conflito de classe; e portanto,
aceitam direta ou indiretamente o Plano Cavallo, que se chegara a funcionar
elevaria o padrão de vida da classe média alta e nada mais.
Tartagal e Mosconi
conseguiram dividir o governo. Por um lado desejam o desgaste dos
“piqueteros” para desta forma poder submetê-los; e outros que pressionam a
partir do Frepaso para negociar imediatamente; isso explica a abrupta ida de
J.C. Cafiero (Ministro da Carteira Social) a Salta, com o objetivo de chegar a
um acordo.
Há diferentes
conclusões deste conflito: a mais importante é aglutinar uma força política
que sem vacilações coloca a devolução ao país de todos os capitais
fraudulentos que constituem as empresas privatizadas; todos os bens e capitais
que possuem os corruptos, o fim da dependência política e econômica do
imperialismo. Dar à classe operária o Direito Democrático de eleger seus
dirigentes, separando, de fato, a todos aqueles que cobrem os seus negócios,
através da farsa do “acordo social”.
Por isso, é um fato
transcedental a coincidência da resistência dos trabalhadores. Aerolíneas
Argentinas constitue um emblema da soberania nacional. Enquanto Tartaga e
Mosconi põem a nu os negócios da venda da YPF, realizado à custa da vida dos
trabalhadores, o mesmo acontece com a Aerolíneas, reduzindo a cacos o próprio
conceito de nação.
Já foi assinado um
acordo pelo qual começam a funcionar novamente as linhas de cabotagem, ficando
por fora as rotas internacionais, enquanto chamam a um concurso dos credores.
Junto com isso faz-se o novo contrato de trabalho segundo as normas da
flexibilização. E as repressões que sofreram os trabalhadores mostram qual
será o seu futuro.
Há outro
acontecimento importante: a detenção de Menem, acusado de ser chefe de um
bando de delinquentes e por enriquecimento ilícito. Logicamente não se
encontra na prisão, mas numa aristrocrática fazenda, recebendo visitas a
granel. Isto tem servido para juntar o menemismo com o justicialismo, apesar de
haver provocado crises no seu seio. Agora aparece continuamente na boca dos
justicialistas princípios constitucionais como: “toda pessoa é honrada
enquanto não se demonstre o contrário”. Logicamente, o aparato oficialista
está chamado ao silêncio em “respeito” à independência dos poderes
institucionais.
Aqui se está tecendo
uma teia de aranhas cuja rede não sabemos onde vai parar. Mas, o que sabemos é
que a cada dia, a última esperança da suposta democracia está por naufragar.
E depois o quê virá? As massas do país estão cansadas de tantas falsas
promessas e por isso têm uma tarefa gigantesca pela frente. Construir o
instrumento que mude o país. Estamos nesse caminho, junto aos povos da América
Latina.