A Nona Sinfonia de Beethoven e

o progresso da humanidade  

J. Posadas 23 de maio de 1978

 

Republicamos este texto de J. Posadas por ocasião do título justamente outorgado pela Unesco no ano 2001 à Nona Sinfonia de Beethoven como Patrimônio Cultural da Humanidade. 

 

A música é uma criação do ser humano que foi desenvolvida com o processo da civilização humana. E a música expressa um dos níveis mais elevados de harmonia que o ser humano encontra. O que promove e determina a base essencial da música é a necessidade de dar uma explicação na relação da vida com a natureza, da vida com o céu, com os seres humanos e dos seres humanos entre si.

Quando se chega à época de Beethoven, ele consegue expressar através da música o que a mente dos filósofos, historiadores e sociólogos de então buscavam explicar e responder: a necessidade de ordenar a vida da humanidade.

A música de Beethoven expressa a harmonia das relações humanas

Ouvir a música de Beethoven não induz a pensar em si mesmo, nos problemas amorosos, do filho, do sexo, e nos problemas individuais,  mas sim, na harmonia das relações humanas; este é o objetivo da música de Beethoven. A sua música permite desenvolver idéias porque expressa a harmonia entre o pensamento e as relações humanas. Não em forma misteriosa, mística ou incerta, mas estabelecendo relações harmoniosas. Não exprime a profundidade do mundo, como a música de Bach, mas este por sua vez não transmite uma resolução das relações sociais. Beethoven, sim. Ele não manifesta politicamente, mas toda a sua música é plena de relações humanas e sociais. A sua música expressa essa harmonia, combinando a suavidade com a profundidade e a altura imensa, sem chegar a confundir-se com o misticismo celestial. Eleva, mas eleva como a expansão dos sentimentos.

A música de Beethoven não afasta, em momento algum, da vida humana. O concerto total da música não se esfuma nos problemas individuais, nos mistérios do céu, no rogar a Deus, ou na prostração diante da virgem ou de um santo. A sua música impulsiona comovendo o senti­mento das relações humanas. É a linguagem da vida, harmoniosa como ele sente que deve ser. E quando ele sente como deve ser, é porque já chegaram à música os sintomas de uma sociedade que tem que alcançar tal finalidade. Essa é a função do artista. Marx fez isso através do texto. Depois dele, mas o fez através do texto. Beethoven expressou através da música. Ouvindo a música de Beethoven não se sente fora da realidade, não se sente o misticismo da pregação ou do pedido a cristo, à virgem, à proteção divina, ao consolo, mas sim a comoção do sentimento que tem nas suas raízes, no seu desenvolvimento e funcionamento na terra, as relações humanas. Por isso a música não induz a encerrar-se no indivíduo, mas a integrar-se. Ele expressa o mais completo depois da Revolução Francesa, os seus alcances e as impressões que causava a revolução. Dado que a música não é uma revolução, nem um tratado político, mas se move na esfera abstrata das relações humanas, ele via desta forma. Não podia ver os alcances políticos, mas adjudicava já a essas relações uma profundidade inalcançável naquela sociedade, mas que viria depois. Da mesma forma que o que inspirava Miguelangelo não se alcançaria naquele então, mas muito depois. Essa é a função do artista.

Beethoven expressa na música o mais alto nível da harmonia entre a natureza, as relações humanas e o indivíduo, que é através da capacidade de interpretação, de organização, de sentimento e de consciência.

A música se faz com a superestrutura do cérebro e não com a inteligência. Ela forma parte da inteligência e é uma das maneiras mais elevadas de inteligência, mesmo que não seja a mais completa. A mais completa é a de Marx, pois é a que dá idéias para mudar a sociedade. Porém, em Beethoven expressa-se a mesma necessidade e capacidade do ser humano de chegar a tal nível de capacidade e de evolução. Se não se chegou a uma forma superior no Estado operário, foi porque a direção de Stalin não o permitiu; caso contrário, já teriam existido outros superiores a Beethoven. Não os houve, não porque não existissem condições, mas porque o regime ou a direção stalinista impediram a continuação de um Marx que, nesta etapa da história seria Trotsky.

Nós ouvimos Beethoven porque ele forma parte de um objetivo da humanidade: harmonizar a existência, harmonizar o nível no qual a base é a alegria humana de viver. E a alegria humana de viver tem que sugerir, propor idéias nobres. Idéias que expressem a fraternidade e que sejam a base das relações humanas. A música de Beethoven expressa isso. A sua harmonia conduz à fraternidade humana. Por isso, na sua mais completa obra, a Nona Sinfonia, ele introduziu o coral. A música era insuficiente para expressar o que ele sentia. Sendo a música mais elevada que já se ouviu e, possivelmente até que não estejamos no socialismo, não escutaremos algo superior a Beethoven. Dando um significado histórico, Beethoven incorporou o coro. Não era uma imitação da ópera, como dizem os historia­dores da época. Isso não é certo. O coro de Beethoven não se assemelha em nada, não lembra nada semelhante, nem leva a pensar em nenhuma ópera. A voz humana é superior ao som do instrumento. O som do instrumento também é par­te do ser humano, contudo passa pelo instrumento, então corta, diminui a capacidade de expressão. A voz é direta; reflete diretamente os sentimentos, comunica, organiza. A forma mais elevada de expressão da música é a voz humana. A forma mais elevada da fraternidade na música é expressada assim por Beethoven.

O que Marx expressou na sua obra, Beethoven expressou na música. Expressou da forma mais completa. Podia expressar-se na pintura, mas o efeito seria inferior tanto à música quanto à obra intelectual. O intelectual é para a ação direta; organiza, prevê, desenvolve o raciocínio. A pintura sugere, motiva bases para raciocinar. A capacidade teórica do marxismo dá diretamente os instrumentos para compreender os móveis, os fatores que intervêm na história e a determinam. Na música, não. Na música, o músico deve interpretar, sentir através do que se chama sensibilidade, a inspiração. Mas, a inspiração não pode ser feita se não há um sentido de unidade com o ser humano, como em Beethoven. Por isso, só há um Beethoven, que é superior a Bach, que foi um dos mestres de Beethoven na forma da música, mas não no conteúdo social.

Ouvimos a Beethoven porque forma parte do objetivo do comunismo: elevar as relações humanas e a vida fraternal. Beethoven é o que mais se aproxima disso. Beethoven poderia ter sido superado no Estado operário. Mas, mesmo assim, no Estado operário, sem Stalin, e alcançado o socialismo, seria necessária uma forma estável de sociedade para expressar as formas mais elevadas de expressão artística. Beethoven já expressava a segurança de um regime que se mostrou superior ao feudalismo; então, já o superava. E no socialismo, serão necessárias relações superiores para dar músicos e pintores.

Escutamos a Beethoven com a mais elevada alegria de sentir-nos comunicados, unidos aos criadores das relações humanas, da fraternidade humana, qualquer que haja sido o lugar ou a função que eles exerceram, como Beethoven na música. Não há dúvidas de que existe uma diferença muito grande entre Beethoven e Marx. Marx dava a base para dirigir, intervir e transformar a história. Beethoven dava um dos elementos para sentir a alegria de poder tomar a decisão de mudar a história. São diferentes funções, mas ambas necessárias para a história.

A “Apassionata”, a melhor sonata de Beethoven, expressa uma comunicação e um senti­mento de paixão muito profundo. Sentimento harmonioso, muito, muito profundo. Mesmo com aspectos melancólicos em deter­minados momentos, a melancolia não desce ao nível da angústia, mas sim, conduz à reanimação por meio do amor. Era a melancolia de Beethoven por ser só, por não ter companheira, por ter tido uma série de problemas com uma mulher que amava. E entre a mulher que amava e a música, ficou com a música. E na “Apassionata”, ele mostra uma profundidade muito grande de senti­mento, apaixonado, que é um exemplo, um guia para todos; especialmente para nós, para sentirmos que tudo o que se faça de digno na história tem com paixão

A paixão não é o torvelinho do ritmo, mas sim o sentimento da profusão de decisão, de amor por conseguir o que sequer; em demonstrar que se age com carinho e amor à vida, aos seres humanos e ao porvir. E Beethoven mostra isso muito bem. Ele era um grande apaixonado pela música e, através disso, da vida e da fraternidade humana. Por isso, tem a Terceira, a Quinta e a Nona que são três símbolos da fraternidade humana. Na Terceira Sinfonia há a marcha fúnebre, que não conduz ao pensamento de luto, de morte, do companheiro que se vai, mas sim, a uma descrição de um acontecimento que ainda não podemos dominar – que é a morte –, mas que o compreendemos sem que seja mais uma imposição.

 

J. Posadas