
A ciência, as classes e o processo desigual e combinado da História
Apresentação Estes textos que publicamos sobre a ciência
são úteis para intervir na discussão sobre as recentes
conquistas científicas no campo do genoma humano, da
biogenética, do uso de produtos agrícolas transgênicos,
clonações no campo pecuário e mais recentemente o seu
possível uso com seres humanos. |
Quem mais se aproxima
do marxismo é a ciência. Por sua natureza objetiva, é ela quem
mais se aproxima do materialismo dialético. O limite da ciência
está no fato de que ela não é independente dos interesses
sociais. Por uma necessidade objetiva, e também para
utilizá-la, a ciência precisa conhecer a verdade.
Entretanto, como a verdade é utilizada por uma classe, termina
sendo limitada, não podendo expressar-se de forma integral,
completa. Por isso, no capitalismo, a ciência é burguesa. Não
porque é um burguês quem vai fazendo as descobertas, quem vai
utilizando, mas porque a ciência termina servindo à burguesia.
E o cientista, que objetivamente é estimulado a servir à
humanidade, fica sem possibilidade de exercer esta função. Por
exemplo, o cientista que descobriu o câncer, ou outra doença
qualquer, é lógico que este indivíduo está estimulado pela
necessidade humana de progresso, e é por esta razão que a
ciência existe. Ela não existe porque determinados indivíduos
são patrocinados pelo capitalismo para pesquisarem.
Em suas origens, a ciência é prática, tem um interesse
prático, só posteriormente ela se transforma em capacidade de
previsão. Mas inicialmente a ciência é pressionada pela
necessidade de responder ao momento, só mais tarde, uma vez
organizada, é que passa a prever, e isto se torna mais
importante do que descobrir o que aparece diante dos olhos.
Os cientistas no regime de propriedade privada
O cientista, que é estimulado a servir a humanidade, não pode
faze-lo porque está sujeito ao interesse de classe, está a
serviço de uma classe, utilizado por uma classe. Por isso a
ciência se torna limitada, e passa a ser a ciência também
está submetida às classes. E que as descobertas também
obedecem a um interesse de classe, porque sirvam às classes, ao
capitalismo, à burguesia.
Em sua consciência, a humanidade já se libertou da dependência
da natureza, mesmo sem ter conquistado isso em termos materiais.
Muitos problemas foram criados pelo desenvolvimento da sociedade
organizada, através de diversas fases, dentro do processo de
extrair da natureza a matéria-prima e transformá-la, e também
no desenvolvimento das relações criadas pela sociedade de
classes, baseada em interesses privados. Esses problemas não
eram econômicos, mas derivados das relações sociais, e se dão
no campo do sentimento e da consciência.
Mas, por sua vez, antes desses problemas existirem, já se
colocavam outros, aqueles de como interpretar, como sentir, como
pensar. Em sua primeira etapa eles se desenvolviam no campo de
com extrair as riquezas da natureza e transforma-las, mas depois
se desenvolvem no sentido de como abarcar as relações humanas e
estabelecer princípios aplicados às relações humanas, às
relações com a natureza. Mas como essa necessidade de
integração se realizava baseada na sociedade de classes, a
compreensão e o progresso tinham que ser necessariamente de
forma muito limitada. Apesar disso, uma vez obrigados a
desenvolver a natureza e a sociedade, os seres humanos estavam
obrigados a progredir na relação da consciência com a
sociedade e a natureza.
A ciência progrediu mais que a economia
Sendo a ciência a representação mais elevada da natureza e da
sociedade, a consciência humana foi progredindo muito mais que a
sociedade e a economia; infinitamente mais que a relação com a
natureza e que a capacidade social para extrair riquezas da
natureza. Nessa etapa o instrumento mais poderoso para extrair
riquezas da natureza foi a busca de como desenvolver a capacidade
para compreender os princípios. Esse foi o incentivo e a
motivação: compreender os princípios de como se desenvolviam
as leis da natureza. Isso elevou então a capacidade humana de
pensar, de sentir, de compreender, e nesse processo de elevação
os seres humanos foram se sentindo independentes da natureza.
Vendo que eram mais capazes que a natureza, superiores.
A ciência e a limitação de classe
Mas os seres humanos iam sendo obrigados a ter sua capacidade
restringida, porque não podiam pensar objetivamente. Tinham que
pensar parcialmente porque a concepção que se desenvolvia era a
de extrair riquezas da natureza em benefício de um grupo contra
outro. Tinham que pensar em como desenvolver determinadas
conquistas sociais, mas ao mesmo tempo em como impedir que outros
a tomassem para si.
O pensamento, os alcances da compreensão, dessa forma, não eram
elaborados de forma completa, iam sendo limitados. E não apenas
porque a capacidade humana ainda não tinha se desenvolvido, mas
porque as condições sociais que existiam limitavam essa
capacidade. Que eram as condições determinadas pela propriedade
privada, pelo interesse privado. O interesse que havia não era o
de desenvolver uma compreensão que beneficiasse a todos, mas a
um setor, que por sua vez, defendia-se dos demais. Tratava-se da
sociedade de classe. Isso então limitava a capacidade cientifica
e histórica. E se dava um processo, onde, ao mesmo tempo em que,
por necessidade orgânica, a classe dominante necessitava
utilizar toda a sociedade, não podia, por outro lado, recorrer a
toda sociedade, porque se o fizesse livremente, ela (a classe
dominante) é que seria eliminada.
A classe dominante recorria apenas a uma parte da sociedade,
submetendo-se ao mesmo tempo. E não podia chegar a compreender
ou a sentir outra coisa que não fossem as opiniões que
estivessem estritamente a seu serviço, dentro dos seus
propósitos, do seu interesse de classe. E essas opiniões,
sentimentos, interpretação da história, da sociedade, da terra
e do céu, estão determinados por essa limitação histórica.
Não apenas pela falta de conhecimentos científicos, mas pelo
fato de que a limitação de classe impedia que os seres humanos
progredissem objetivamente no conhecimento científico pleno.
Existia uma limitação social. Porque se bem que com Marx se
abre uma nova etapa na história, ela não pode ser alcançada
até a época de Marx, por que o desenvolvimento objetivo da
estrutura social, das relações sociais, impediam um alcance
maior. Mas ao mesmo tempo em que havia um impedimento no sentido
de um alcance maior, esse mesmo processo obrigava a classe
dominante a tratar de elaborar um instrumento (NT a
ciência) que lhe permitisse extrair da natureza mais e mais
riquezas e também procurar compreender as relações sociais.
Que por sua vez criavam um fenômeno novo: os conflitos sociais,
os conflitos entre as relações econômicas e as relações
afetivas, os sentimentos, a consciência. A classe dominante não
podia compreender que existia uma unidade entre tudo isto. E não
podia compreendê-lo, por várias razões: pelo interesse de
classe, pela insuficiência de conhecimentos e por que não
existia a possibilidade de aumentar o conhecimento por causa do
interesse de classe (...)
O Homem organiza a sociedade e a natureza
Quando surgem a botânica, as ciências naturais, que eram como
se chamavam as primeiras formas organizadas de toda a ciência,
ainda se tratava de uma dependência do indivíduo diante do
poderio da natureza. Marx se baseou no desenvolvimento desigual e
combinado da ciência, que era capaz de descobrir, por exemplo, o
desenvolvimento de determinados gérmens, plantas, a
possibilidade de enxertos, transformações, explicações sobre
a chuva, as estrelas, o sol, a dependência da terra em relação
ao sol, ao sistema planetário, a mecânica de Newton, as
descobertas diretamente vinculadas à prática comercial, como a
máquina a vapor, o trem, o telefone e um série de descobertas
que evidenciam o domínio do ser humano organizando a sociedade e
a natureza.
Os saltos mais avançados foram dados pela consciência
Mas, ao mesmo tempo em que eram feitas essas descobertas
parciais, o sistema de exploração social impedia que elas
fossem utilizadas em benefício de toda a população. E enquanto
num ou noutro campo da vida e da natureza, eram feitos grandes
descobrimentos, em outros havia um completo desconhecimento. Não
se tratava de um processo de descobertas que se desenvolvia num
ascenso lógico, que fosse estendendo, abarcando todas as
atividades humanidade, da natureza. Mas progressos em aspectos
muito parciais, e cuja repercussão e utilização social era
muito limitada, porque a finalidade era comercial.
Faltava o elemento que generalizasse a sua utilização em
benefício de toda a sociedade. Era um desenvolvimento que se
dava, portanto, de forma desigual e combinada. E o aspecto
desigual do desenvolvimento era o de que as descobertas eram
impostas pela necessidade comercial, ou seja, ao serem utilizados
comercialmente, o benefício era muito parcial. Isso era
combinado, ao mesmo tempo, com um atraso imenso que impedia que a
sociedade se apoiasse nos progressos alcançados para avançar
dialeticamente em saltos. Naquela etapa, por exemplo, a
humanidade ainda não podia avançar através de saltos
pronunciados como hoje. Ainda que a humanidade sempre avançou
através de saltos porque todos os grandes progressos são saltos
da história. Mas saltos muito limitados, de efeitos, benefícios
e alcances muito limitados.
Os saltos mais avançados da humanidade foram dados através da
consciência humana, num processo em que milhões de seres
humanos se mobilizam. Esses são os saltos mais gigantescos: de
massas que partem de um atraso social e econômico tribal muito
grande e vão da tribo ao poder, à discussão dos problemas mais
elevados da ciência. Esses são os saltos dialéticos mais
completos, nos quais o caráter desigual e combinado de
desenvolvimento passa a ser determinado pelo aspecto combinado e
não pelo desigual, porque o progresso passa a ser utilizado
generalizadamente em benefício, diretamente passa a se
generalizar ao resto da humanidade, que parte do nível mais
elevado.
A dialética da vida
A concepção materialista da vida progrediu constantemente.
Através de uma necessidade imposta pela ciência, pelo interesse
comercial, militar e do desenvolvimento do domínio da natureza.
Esse progresso se deu limitadamente, porque não conseguia ser
socialmente utilizado no sentido de libertar a sociedade da
opressão e da dependência da natureza. Mas ainda que não tenha
conseguido alcançar esse objetivo, avançou constantemente,
mostrando que o mundo, a natureza, a sociedade se desenvolviam
dentro de um processo ininterrupto de nascimento,
desenvolvimento, transformação, e que este processo vinha da
natureza e da sociedade, que tinham fases. Sendo que a duração
das fases não estava determinada estritamente por ciclos fixos,
mas pelas forças que intervinham pela possibilidade,
concentração e capacidade das forças que intervinham, tanto na
natureza como na sociedade.
J. Posadas
Abril 1967