
A ciência deve
responder aos interesses da sociedade*
Nas universidades, é
preciso estudar o marxismo nas ciências econômicas,
filosóficas, etc., estudar o marxismo aplicado hoje, a
concepção marxista da história aplicada hoje. Analisar a
utilização da ciência hoje, a ciência prática, a capacidade
da ciência, a quem ela serve.
O movimento operário, movimentos sociais, partidos, junto com
estudantes devem discutir um programa que esteja de acordo ao
interesse socialista da humanidade. Por exemplo, como é que é
discutida atualmente a crise do capitalismo na universidade?
Ainda como resultado da economia. Enquanto nós fazemos uma
comparação com os sistemas socialistas. É preciso discutir
demonstrando que é o sistema capitalista o que produz esta
crise. Que nos países socialistas ela não existe devido ao
sistema de propriedade estatizada. Entretanto isso ainda não se
discute nas universidades. Nem sobre a origem e o porquê das
doenças, por exemplo. Nas faculdades de medicina é preciso
discutir as doenças, mas combinadamente com sua origem, como
elas vêm apoiadas e constituídas por uma relação do ser
humano com a natureza, onde a chave que coloca o homem em contato
com a natureza é a sociedade.
Não existe natureza para um lado e ser humano para outro. Entre
a natureza e o ser humano existe a sociedade, as relações
sociais, que são de exploração, debilitamento do organismo, de
diminuição da capacidade orgânica, má alimentação,
poluição, má oxigenação, tudo isto. A chave que coloca o ser
humano em contato com a natureza é a sociedade. Então o que é
que precisa ser mudado? O ser humano ou a natureza? Nem um nem
outro, mas a forma de vida social que produz tais relações.
Atualmente não se discute nestes termos. Ainda se fica no nível
da doença é a doença, em si. A doença é resultado da
relação entre o ser humano e a natureza. Bem, quem estabelece
esta relação? A sociedade, o regime social, a forma de vida.
Da mesma forma é preciso encarar a ciência jurídica e seus
anexos. Eles defendem que as ciências jurídicas respondam às
necessidades das relações humanas. Isso é falso! Não só não
respondem às necessidades das relações humanas, como ao
contrário, respondem às regras das relações humanas impostas
pela estrutura e o regime em que se vive. Não se pode discutir
uma mentira. Essas regras, essa regulamentação, estão
determinadas pelo regime de propriedade privada, nada mais. As
leis e os códigos são regras convencionadas em função do
interesse do regime, para se manter, para se defender, para fazer
frente às conseqüências das relações do sistema capitalista.
Em relação às ciências físicas, químicas e à física
nuclear, o capitalismo já demonstrou sua incapacidade de
desenvolver as possibilidades que tem, por exemplo, a ciência
nuclear.
E o que se deve fazer, quando se for definir um programa de luta,
um programa revolucionário socialista antes de se discutir a
física nuclear, por exemplo, ou incorporar as massas na
discussão sobre física nuclear, é preciso discutir qual a
possibilidade de se utilizar os recursos nucleares. E que é
possível usá-los em benefício das massas. Que se veja,
consequentemente, que todo o emprego atual da física nuclear
responde a interesses políticos ou militares. E discutir que
para que ela possa ser utilizada corretamente, é necessário que
a sociedade se apodere da possibilidade de usá-la para si. Mas a
humanidade ainda não tem essa possibilidade. Não por falta de
meios técnicos, mas porque não é a sociedade que determina, e
os recursos nucleares estão nas mãos da propriedade privada. E
consequentemente, com toda a capacidade da sociedade para a
utilização destes recursos, estes são usados somente por um
pequeno círculo vinculado ao capitalismo. Os benefícios para a
humanidade são limitados. Ou seja, dar à ciência a sua base
histórica: a sociedade, os seus reais interesses, a vida humana:
a sociedade deve ser a base de toda a ciência.
A ciência ainda não obedece aos interesses da mesma. Ela ainda
responde apenas a uma parte, a um pequeno círculo. Dessa forma,
ela ainda se expressa de forma limitada, amputada, além de que,
para demonstrar sua capacidade histórica de organização,
necessita da participação de toda a sociedade. De toda
sociedade significa de toda a sua capacidade criadora. Porque a
ciência, mesmo em seus mais altos níveis, é resultado da
investigação coletiva de toda a humanidade; desde o camponês
até às crianças, a partir dos lugares mais afastados da terra,
até os que estudam com toda honestidade, e outros sem nenhuma
honestidade. Porque cada um transmite experiências que fez na
sua relação com a natureza, no contato com as relações
sociais, na intervenção de cada um e suas experiências. E
através desta intervenção trata de agir, de desenvolver, de
sentir as possibilidades de organizar, de aproveitar a natureza,
de utilizá-la criando as pequenas invenções que são base para
criação das grandes.
Toda grande invenção é resultado da criatividade social
coletiva. O socialismo vai liberar plenamente esta capacidade dos
povos do mundo para a criação das grandes invenções. A
tendência futura não vai ser produto de um sujeito que vem,
senta-se e pensa. Antes do inventor sempre existe uma quantidade
enorme de pequenas experiências, de pequenas invenções, que se
foram acumulando e permitindo passos progressivos, maiores, até
que surge a possibilidade de utilização porque a sociedade
desenvolve os meios mecânico, científicos, além da dedicação
específica a isso. No entanto, a dedicação peculiar, a
especialização, aparece hoje como um grande desenvolvimento,
mas no socialismo será uma limitação, porque aí não haverá
especialização; todo mundo vai estar incorporado ao progresso.
J.Posadas
25.1.1966
* Extrato de um texto sobre ensino socialista e o programa
anti-capitalista para os estudantes, do folheto sobre o
"Movimento Estudantil, ensino e universidade" publicado
em 7/74.