
Conclusões
do Fórum
Social Mundial 2002
O
Fórum Social Mundial 2002 em Porto Alegre foi uma grande demonstração de
força e resolução dos movimentos populares na busca de uma coordenação da
luta contra a globalização capitalista expressa nas gigantescas
manifestações, greves, ocupações nos últimos tempos. Mesmo com os limites
que pretendem impor alguns componentes burgueses ou reformistas da direção, o
Fórum não perde a sua força e importância. No fogo cruzado de uma guerra
imperialista em ato, essa tentativa de coordenação de forças, tem servido
como alerta e resposta aos EUA por todas as ações de guerra perpetradas desde
o Afeganistão, à Palestina, à Colômbia, ao Iraque, pelas ameaças ao Irã e
à Coréia do Norte, pelas provocações contra Chávez, Milosevic até Mugabe,
coroadas pelo anuncio descarado de Bush sobre um aumento de 50 bilhões de
dólares nos investimentos de guerra.
Foram
70.000 participantes, 5.000 organizações de todo o mundo, 15.000 delegados de
150 países em 28 conferencias, 100 seminários e 700 oficinas que não passaram
inobservados à burguesia já incomodada pelas contestações explosivas
desde Gênova, Buenos Aires, à heróica Palestina. A manifestação final dos
50 mil contra a Alca foi o ponto alto deste encontro e deu o sentido e a
orientação revolucionária que o movimento necessita, compensando em parte os
limites da falta de resoluções escritas e de um programa anti-capitalista.
Essa foi uma resposta
aos riscos que este Forum corre ao abrir as portas a forças
conservadoras, como os membros do governo frances, os representantes do Banco
Mundial, cortando por outro lado, o convite a Fidel Castro e a Chávez da
Venezuela. Não foi um acaso que neste ano houve nos painéis de debate uma
conotação maior aos temas econômicos do que aos políticos, quando no Forum
anterior contamos com presenças políticas da importância de Ahmed Ben Bella
da Argélia; de Ricardo Alarcon, presidente do Parlamento Cubano; de Lúcio
Edwin Gutierrez, Coronel do Exército Sociedade Patriótica 21 de janeiro do
Equador; e com uma participação em primeiro plano de João Pedro Stedile do
MST e Lula do PT. Foram tratados temas importantes, mas com uma orientação
economicista, como a questão do comércio mundial, das corporações
multinacionais, da dívida externa, do trabalho, do controle sobre os capitais
financeiros, do militarismo, dos organismos internacionais, da arquitetura
do poder mundial, e assim por diante, sem questionar nem entrar na raiz dos
problemas que é o sistema capitalista, e deixando de longe o tema do
socialismo. Por isso da crítica ao capitalismo se passava à solução
reformista, como a implementação da Tobin tax que atinge somente 5% das
movimentações de capitais, quando 70% dos capitais são especulativos, sem
lastro; ou em temas sobre a OMC, na qual se divagavam com inúteis
alterações nas cláusulas contratuais para resolver o problema das
desigualdades nas relações econômicas entre os países desenvolvidos e
dos do terceiro mundo.
Como
diz James Petras: ...
“Na realidade, o FSM 2002 se dividiu entre reformistas e radicais. Uma
divisão que encontrou sua expressão no interior das diferentes
organizações e indivíduos presentes. Esta divisão foi evidente até na
localização física das discussões, assim como no estilo da apresentação e
composição da audiência. A maior parte do que se escreveu sobre ele está
baseado no que ocorreu na Universidade Católica (PUC). Os eventos da PUC não
foram representativos do Forum, pelo menos aos olhos de muitos ativistas do
movimento. Os organizadores destacaram que aproximadamente uma quinta parte
(10.000) dos participantes do FS estiveram na PUC; em geral, os de mais de 40
anos de idade e na sua maioria profissionais da classe média. Fora da PUC,
aproximadamente
50.000 pessoas participaram num outro espaço politizado, que incluiu debates
e discussões sobre a luta pelo socialismo”... Lamentalvelmente estes
grandes temas sofreram um boicote branco por parte dos organizadores do
Forum, constringindo organizações de esquerda, mais combativas como o
MST, a Via Campesina e outros a buscarem esse espaço alternativo de debates,
o auditório Araújo Viana.
Aí
se tocou um tema vasto que requer aprofundamento, tornado-se essencial para dar
um norte anti-capitalista ao movimento anti-global. Desta discussão é preciso
extrair conclusões de que instrumentos teóricos como o marxismo são mais do
que vigentes na interpretação do processo da luta de classes atual. Bertinotti
admite sua validade, mas depois diz que os tempos mudaram, que a classe
operária não é a mesma, que há que mirar à pequenoburguesia. O proletariado
como classe não desaparece, mesmo com a sua redução numérica, produto da
tecnificação, da concentração capitalista, do desemprego em massa ou
empobrecimento de camadas da pequenoburguesia; o protagonismo do programa de
classe do proletariado se reforça neste processo de transformação da
sociedade na luta contra o grande capital. Esta globalização capitalista
hoje em xeque, contraditoriamente, facilita por outro lado, e unifica a luta
do proletariado mundial, como previu Marx. O seu pensamento é presente,
merece lugar de honra na tribuna do Forum Social Mundial. Da mesma forma,
Bertinotti e os comunistas não podem falar em socialismo desconhecendo
experiências e conquistas da história, da revolução russa, chinesa,
cubana, Lenin e Trotsky e do Partido Bolchevique, apesar de todos os reveses
apresentados nos países socialistas no pós-91. É preciso corrigir, aprender
da história, mas não há que cancelá-la. Não se pode confundir stalinismo
com a experiência dos 7 primeiros anos da revolução russa; nem burocratismo
com os pilares da estrutura econômica
e social de um Estado operário. Como J. Petras se referia, Cuba é um
exemplo da vitalidade das experiências socialistas, assim como a China e
o Vietnã. Se houve crise nos países socialistas, essencialmente por falta de
direção marxista, não houve tampouco nenhuma demonstração de
vitalidade do capitalismo. Ao contrário, este chega ao limite da sua
sobrevivência, lança o grito de guerra, numa verdadeira agonia moribunda.
O movimento anti-global deve discutir e aprofundar este temário, sem o quê se
reduzirão os seus horizontes e os riscos de um esvaziamento serão reais.
O
acontecimento mais importante neste Forum foi a manifestação final contra a
ALCA pela sua combatividade e pela mensagem político-programática que deixou.
Foi uma resposta ao documento aprovado pela direção do FSM, eurocentrista
firmada pela ATTAC e grande parte da delecação italiana e da CUT. Foram mais
de 50 mil que partiram do auditório Viana, num multicolor de bandeiras e
consignas anti-imperialistas: “ALCArajo” e “Fora da Argentina, fora do
Brasil, fora a ALCA e o FMI”.
...“Com Fidel e Cuba, com Chávez e Venezuela”,
João Pedro Stedile dirigente do MST, convocou a enfrentar a ALCA (como braço
fundamental da intervenção ianque na América Latina) com a organização e
a unidade popular. “Aqui estamos porque a ALCA
não é somente um acordo comercial, a ALCA é um plano estratégico do
imperialismo
para entregar o nosso território e suas riquezas às empresas norteamericanas”,
disse Stedile. “Estamos ao borde de uma guerra, e querem fazer não somente com
aviões, mas também com suas multinacionais. Volto a repetir que a América
Latina está em guerra e já começamos algumas batalhas: a primeira delas é
defender o povo de Cuba e por isso a Campaña Brasileira contra a ALCA
convidou com muito orgulho o companheiro Fidel para esta aqui. A segunda
trincheira é Venezuela: estamos dispostos a defender a Chávez e ao povo
venezuelano
na sua luta contra a oligarquia. A terceira frente de batalha é a Argentina,
onde afaaram o seu povo e se apoderaram ilegalmente de seu governo.
Por isso, lhes dizemos, companheiros, que temos que nos organizar,
arregaçar as mangas e praticar a luta das massas”. E concluiu com o
chamado à organização dos plebiscitos regionais contra a ALCA.
Todos
os acontecimentos posteriores ao FSM por si mesmo superam e esvaziam os
limites impostos no temário dos seus debates na PUC. Urge a unificação da
luta de todos os povos através de uma Internacional comunista de massas que
reúna todos os movimentos combativos dos movimentos anti-globalização,
comunistas, sindicatos e partidos revolucionários, representantes dos
países socialistas, como Cuba, China, Vietnã, contra a guerra imperialista ,
pelo desconhecimento das dívidas externas de todos os países pobres, contra
a política imposta pelo FMI. Sem estas conclusões, sem um programa
anti-capitalista e pelo socialismo,
não existem perspectivas para novos Forums, e nem um “novo mundo
será possível”.
Abril
de 2002