
Editorial
A corrupção e a necessidade de
mobilização
social para abrir saídas populares à crise
_Não é desprezível a
coincidência entre a rebelião das penitenciárias e o aumento
de tom das denúncias de corrupção na alta cúpula do poder,
como a indicar um estado de putrefação social no país. A
população pobre tangida para as prisões percebe que não tem
porque sentir-se inferior ou criminosa quando assiste pela TV e
pelo rádio diversos integrantes da classe dominante desfilando
sua impunidade quando tornam-se cada vez mais costumeiras e
freqüentes as informações sobre as variadas formas de assalto
aos cofres públicos. A diferença gritante está na impunidade
que protege os que articulam os grandes roubos organizados a
partir do aparato do estado. (ver artigo na página 3)
_O mesmo sistema que tornou animalesco e monstruoso o sistema
penitenciário continua desatando diariamente uma guerra social
permanente contra a população mais pobre. As chacinas nos
bairros humildes competem com as estatísticas de mortes nos
países que viveram guerras como Iugoslávia e Iraque. Parte
desta guerra social está expressa no surgimento de 717 novas
favelas durante o governo FHC e continua na informação de que
nascem 250 mil bebês por ano vítimas de hepatite tipo B. A
contaminação ambiental, a redução da massa salarial durante o
ano 2000, o assassinato de mais de 300 trabalhadores rurais
durante a década de 90 (Estado de Direito), cujos criminosos
continuam impunes, revelam o outro lado das acusações de
corrupção nos altos círculos do poder. Corrupto e perverso é
o sistema capitalista como um todo.
_Além de tentar buscar uma saída menos arriscada e menos
tumultuada para a sucessão presidencial, a classe dominante não
deixa de conspirar contra os poucos direitos dos trabalhadores
que ainda restam. Derrubadas as várias conquistas trabalhistas,
o próximo golpe em mira é o assalto aos depósitos do FGTS,
para o que conta com uma baixa resistência do movimento sindical
que nesta última década sofreu os mais duros revezes, período
que coincide uma maior concentração de sua atenção e ação
no jogo parlamentar, palco de derrotas em série para os
trabalhadores. Obviamente, um golpe como este que se trama só
pode ter por objetivo provocar ondas de desemprego e, através
dele, uma redução ainda maior na remuneração dos
trabalhadores. Ou seja, a oitava economia do mundo, que registra
um dos mais graves indicadores de desigualdade social e paga um
dos mais baixos salários mínimos do mundo, confessa através da
gatunagem contra o FGTS qual o verdadeiro conteúdo do que tentam
chamar de social-democracia!!!
_As imagens de famílias pernoitando na porta das escolas e
disputando a tapa matrículas para seus filhos falam muito mais
do que todo o discurso oficial elogiando a política educacional,
repetido pela mídia controlada pelas verbas publicitárias. A
ameaça da febre amarela contra a população é apenas mais uma
prova da destruição das estruturas públicas de saúde, tal
como ocorre na educação, cujos recursos do Fundef e da merenda
escolar não param de ser desviados para os insaciáveis
assaltantes de colarinho branco. Eventuais e residuais retomadas
dos indicadores de emprego empalidecem e dissolvem-se no ar
diante das estatísticas do próprio governo de que o número de
pobres e miseráveis persiste na escala dos 70 milhões de
cidadãos e de que a economia brasileira, acumulando resultados
pífios, caminha aceleradamente para sua segunda década perdida,
além de ter tornando-se ainda mais vulnerável aos ataques
especulativos e artificiais, venham eles da Turquia, da
Indonésia ou da Argentina. Neste país, onde a mídia afirma
haver a suposta estabilidade monetária e onde foram cumpridos
todos os rituais da privatização, o desemprego e a
criminalidade cresceram, a educação e a saúde foram
destruídas, as ondas de corrupção, incluindo lavagem de
dinheiro, sucedem-se numa troca incessante de ministros, sendo
que metade da população revela em pesquisas o desejo de
abandonar o país. É a destruição de um país, de uma nação,
e é o que nos espera se o Brasil continuar seguindo nesta trilha
da privatização e alienar sua soberania para o poder
imperialista mundial e não alterar profundamente o curso de
desnacionalização que fez com que 70 por cento do Produto
Interno Bruto pertença a estrangeiros não residentes.
_A acintosa fabricação da mentira da "vaca louca"
pelo Canadá serve de alerta aos que imaginam que o capitalismo
internacional respeita algum tipo de regra de concorrência.
Revela ao mesmo tempo que o desenvolvimento significativo que se
alcançou na fabricação de aviões de médio porte deve-se
fundamentalmente à intervenção do Estado, possibilitando a
concentração de recursos e desenvolvimento de tecnologia,
conquistas criminosamente alienadas pela privatização parcial
da Embraer. A lição deve ser aprendida: com uma forte
intervenção estatal, se aliada à indispensável planificação
democrática e sob controle social, o Brasil tem as condições
de desenvolvimento significativo em vários setores, como também
indica o estágio alcançado pela Petrobrás e antes pela
Telebrás. Também deve ser extraída a lição de que
privatizações como a da Vale do Rio Doce, com patrimônio na
escala dos trilhões e que foi entregue a preço negativo, são,
essas sim, as grandes corrupções, com um grau de perniciosidade
e de prejuízo para gerações futuras que nem a soma durante
anos de todos os roubos que conduziram população pobre ao
Carandiru jamais conseguirá equiparar-se.
_O ânimo e combatividade injetados pelo Fórum de Porto Alegre
nos movimentos sindical, social e de esquerda - apesar da
carência de um programa (ver artigo ao lado - podem servir para
dar segurança a uma intervenção mais audaciosa das
oposições. Mas o dilema está claramente colocado: esperar que
o Parlamento convoque uma CPI - vale lembrar que os círculos do
poder controlam e regulam a convocação, o funcionamento e os
alcances das CPIs - ou desencadear um processo que organize a
crescente indignação e revolta popular não apenas para
investigar a fundo as denúncias de corrupção no governo, nos
processos de privatização, mas também defendendo claramente o
cancelamento destas privatizações, verdadeiras doações de
patrimônio, mediadas por sórdidas propinas como se revela no
bate-boca do poder. Foi a enorme e incansável mobilização do
MST que pautou a luta pela reforma agrária, projetando-a para o
mundo. No parlamento, sem pressão social, esquartejaram a
Constituição e o monopólio das telecomunicações e do
petróleo. Eis aí uma experiência a considerar para convocar
debates, passeatas, mobilizações de todo tipo exigindo a
apuração e punição dos corruptos.
_Aquela corrupção que havia na época da ditadura com suas
milhares de obras inacabadas que enriqueceram muita gente no
poder, deu lugar agora a uma corrupção tolerada e abençoada
pelo regime de estado de direito, pelo o que atribuir ao
Parlamento - marcado pelas milhares de medidas provisórias, pela
compra e venda de votos e mandatos e por ter referendado um
verdadeiro golpe a longo prazo contra o patrimônio público e os
direitos dos trabalhadores - que fiscalize o Executivo, nada mais
é que grave ilusão em que incorreriam setores da esquerda. Não
seria menos delirante e irresponsável acreditar que o
Judiciário - do qual o Juiz Nicolau não é exceção - pudesse
fazer justiça e exercitar-se com independência para apurar e
punir o leque infinito de corrupções. Não se deve esperar nem
do Parlamento, nem do Judiciário, mas convocar os sindicatos, os
partidos de esquerda, as Igrejas, a OAB, os militares
nacionalistas, o movimento estudantil e a intelectualidade para
um movimento amplo em busca de uma verdadeira democracia, de uma
verdadeira ética na política, que só pode realizar-se quando
cumpre-se um programa de medidas de transformações sociais, de
estatização do sistema financeiro onde se opera toda a
jogatina, de cancelamento das privatizações, de reforma
agrária, de produção de alimentos, roupas, sapatos,
construção de casas populares, saneamento básico para livrar
milhões de crianças do esgoto e da pena de morte da diarréia
infantil.
06.03.2001