
A crise do capitalismo, a guerra e o socialismo
| Apresentação _O comportamento do imperialismo no Iraque, na Iugoslávia, na Colômbia, na insistência em manter e ampliar a OTAN a todo o globo e desenvolver o chamado escudo espacial, está indicando com clareza qual é a sua verdadeira natureza, profundamente analisada neste texto de J.Posadas. _Mesmo com a desaparição da URSS - mas não das experiências socialista no mundo - o capitalismo não inaugurou nenhuma 'era de paz': mais recuou o campo socialista, mais avançou o militarismo, a barbárie e a agressão. _A força da análise dialética é imbatível: a história ensina que é necessário preparar-se para enfrentar, por meio de uma frente única entre todas as forças, movimentos e países progressistas, a violência reacionária do capitalismo, opondo a ela a organização revolucionária, que inclui a preparação militar. _Os acordos militares entre a China, a Rússia e mesmo a Índia, neste contexto, representam um avanço necessário. O exemplo revolucionário de Cuba, que leva adiante a experiência socialista ao seu nível mais elevado considerando as circunstâncias históricas e o seu isolamento, é um elemento que dá à humanidade a força para enfrentar o capitalismo e permitirá retomar o caminho da construção do socialismo no mundo, superando as consequências da guerra generalizada que o capitalismo já está praticando. |
_A guerra é uma necessidade do capitalismo. É parte da
concorrência capitalista e tem origem na acumulação do capital
. Não incide diretamente na comercialização, porém na
produção e no lucro sim, porque a indústria de armamentos
representa quase vinte por cento da produção dos grandes
países. E em alguns casos, como os Estados Unidos, se a
fabricação de armas chega a parar há um colapso - não uma
crise - e se afunda tudo. Os maiores capitais do mundo estão
investidos nas armas atômicas, que são do Estado, mas que paga
às empresas privadas. Existe uma infinidade de empresas privadas
que produzem peças, preparados químicos atômicos, que depois
vendem ao Estado. Logo a fabricação de armamentos convencionais
é uma parte preponderante em todos os orçamentos. A parte
constituída pelos armamentos chega a vinte e cinco por cento da
exportação da França; e a mesma coisa ocorre com a Bélgica.
_Isso forma toda uma camada de gente que deseja a guerra, e que
se não pode provocá-la entre os grandes países, fornece a
outros países que guerreiem. Isto não que dizer que fabricam a
guerra, esta é uma necessidade social para quem dirige ou para
quem se defende. Então, quando estes setores vendem armas,
vendem-nas em determinadas situações e investem ali. Se tudo
isso se paralisa, desencadeia-se uma crise na qual o capitalismo
estoura, porque justamente na indústria de guerra ele avançou
muito no controle sobre setores da pequena burguesia alta e
média; isto significa que se esta não vê perspectiva, abandona
o campo capitalista.
(...)
_A especialização existia antes porque não havia o
conhecimento científico da eletrônica, do movimento do átomo,
das relações átomo-movimento-energia. Ao passo que hoje,
qualquer operário que estuda aprende em seguida e maneja uma
máquina eletrônica, mesmo as mais complicadas. Isto significa,
que a pequena burguesia já não tem a mesma categoria que antes,
quando constituía um setor bem diferenciado. Hoje não, cada vez
mais se sente parte daquilo que produz, uma vez que ao apertar o
botão está produzindo. Existem complexos (assim chamamos pela
quantidade enorme de aparelhos e pela variedade) que são
manejados apenas por três operários. Quer dizer, que a
generalização do sistema de produção vai eliminando o
proletariado, vai reduzindo o número de operários, mas também
vai ganhando a pequena burguesia técnica e científica às
fileiras do proletariado.
_Ao mesmo tempo que se desenvolve este processo, o capitalismo
não tem outra solução que a guerra. E a decisão da matança
que vai significar a guerra, existe independentemente da
existência da vontade ou não de um outro capitalista, é a
necessidade do regime o que produz a guerra. E por regime se
entende que a estrutura econômica determina que para que a
economia funcione, os planos essenciais devem ser decididos pela
grande indústria, pelo grande capital, a grande finança, porque
ao estar tudo concentrado estes determinam o movimento econômico
das outras empresas ou dos grupos financeiros menores.
_E acima de tudo, existe uma grande concentração porque cada
vez mais se centraliza a função do grande capital nos países
capitalistas, a concorrência é muito mais veloz, mais dinâmica
e mais forte do que em qualquer outra etapa da história. Ao
mesmo tempo, a concorrência significa a concentração do
capital, da produção e o controle da economia e, significa
também que no controle do exército, da polícia e dos ensaios
atômicos estejam os setores que correspondem, nos grandes
países, a esse enorme poder econômico da grande indústria e
das finanças. Estes são os setores que determinam a guerra e
que podem decidi-la em qualquer momento, sem que o parlamento,
presidente, possam intervir. São os grandes setores que dominam
a economia. Antes de chegar ao ponto em que o processo
revolucionário domine em países como os Estados Unidos ou a
Alemanha, eles farão a guerra. Sendo assim, é preciso fazer uma
análise de classe, não uma historiografia sobre o que disse
este ou aquele. Por exemplo, se falamos das plantas: o nascimento
de qualquer planta, flor, tem uma vida, uma historiografia que
começa na semente, na sua relação com a terra e depois, o
desenvolvimento. Existe uma unidade que termina na fruta ou na
flor. Este processo é estudado tanto na botânica, como na
biologia ou na genética. Mas quando se trata da sociedade, os
comunistas afirmam que este principio muda, que este
comportamento é diferente. Por que outro comportamento? É o
medo da guerra atômica! Antes, como se comportavam? Então
respondem: {na época de Lênin era preciso fazer assim, agora
não}. Por que agora não? A burguesia foi obrigada a mudar de
concepção, de natureza? O que mudou para que a burguesia aceite
não fazer a guerra agora, ou, possa aceitar a imposição de
não fazer a guerra? Quais são os exemplos históricos que
existem?
_Analisemos a China como exemplo histórico. Em 1948, foi o lugar
onde Stalin tentou impor uma grande conciliação com Chan Kai
Chek, e apesar disso foi necessária a guerra para que triunfa-se
a revolução. Não há mudança social sem guerra. E ademais,
como o capitalismo prepara o seu comportamento? De que maneira
demonstra que seja influído pelo progresso da história, ou que
se enfraquece, ou se desorganiza como classe? Onde se vê, onde
se expressa isso? Não existe nenhum exemplo. No entanto, nem os
comunistas e nem os socialistas discutem assim. Simplesmente
dizem: {a guerra atômica é uma barbaridade, é o fim do mundo}.
Dessa forma atemorizam, começando por se atemorizarem a si
mesmos, o que os leva a ceder frente ao capitalismo. Procuram com
isso instalar-se no campo inimigo para vigiá-lo, impedir-lhe que
faça a guerra, ou, para controlá-lo, persuadi-lo a aceitar as
mudanças.
_É uma filosofia mística, não equivocada, é mística: é
conceber o comportamento humano diferente do que é, não
determinado pelas relações de produção. E a grandeza de Marx,
essencialmente, é haver mostrado o fetiche da produção, e a
existência real, material do capitalismo. Mas, fetiche da
produção e o capitalismo são uma unidade. O capitalismo sem a
produção não serve, mas a produção sem o capitalismo serve.
O capitalismo sem a produção não tem força, porque dela
depende toda a sua forma de pensar, de conceber e de ver. O medo
do capitalismo é diferente do medo comum das pessoas. O
capitalismo tem medo porque sente um vazio na vida. As pessoas,
por outro lado, sentem medo frente a um fato concreto, porque
sentem-se com menos força, não conhecem o fato, não se sentem
com capacidade, ou não conseguem concentrar a atenção para
compreender. O capitalismo não experimenta essas sensações;
suas reações não estão determinadas da mesma forma que as
reações comuns das pessoas frente a um acontecimento, mas pelo
medo de ser banido da história. Isto o influencia brutalmente e
faz com que se encerre no seu interesse de classe.
(...)
_Os comunistas não discutem assim. Discutem baseados em
suposições, imaginações, e não sobre a conclusão
científica que é preciso extrair do comportamento das classes
na história. O temor à guerra atômica não é medo. Quem tem
medo da guerra atômica? Eles, os dirigentes comunistas, estendem
o seu próprio temor - que não é medo - que surge do receio a
sentir-se responsáveis da destruição do mundo.
(...)
_A guerra não é o fim do mundo. Será uma destruição maior
que as anteriores, no entanto, com relação ao aumento da
destruição também aumentou a capacidade científica, a
consciência e a inteligência do mundo para compreender que pode
refazer tudo e melhor do que era antes. Existe uma difusão
constante, incontível do conhecimento e da transmissão do
conhecimento sobre a economia, a astronomia, sobre as leis da
física. Existe um conhecimento imensamente maior que antes.
consequentemente, há um aumento da segurança do mundo com
respeito ao porvir, à natureza, à produção e ao universo.
Anteriormente havia um processo tímido um processo tímido da
parte da humanidade, que não tinha decisão, porque apenas um
circulo restrito era que possuía a compreensão. Em troca, agora
existem os estados operários que mostram que pode-se vencer
tudo. A guerra atômica será proporcionalmente maior que as
outras guerras, mas nada mais.
_Os efeitos mais importantes da guerra não são as destruições
materiais - isso se reconstrói qualquer que seja a destruição
-, são o temor que impõe e o sentimento de paralisia que
comporta. Na etapa precedente da história, era a burguesia que,
depois da guerra, voltava reconstruir o processo místico que é
a produção capitalista. Hoje não, são os Estados operários
que imediatamente desenvolvem a confiança dialética no processo
materialista da história. É preciso discutir com os camaradas
comunistas, socialistas e de esquerda, sobre estes fenômenos.
_Nós não desejamos a guerra atômica; a guerra é uma
conseqüência inerente ao capitalismo. Marx, Engels e Rosa
Luxemburgo escreveram muito sobre isso. Rosa Luxemburgo tem belas
análises onde mostra que a indústria de guerra é parte
inseparável da vida do capitalismo. E hoje, a indústria de
guerra é enormemente mais potente que na época de Rosa de
Luxemburgo. Todo grande país capitalista tem aproximadamente 30%
de sua economia dedicada a guerra. Eles disfarçam de mil
maneiras: (o sujeito que olha o céu, o outro que cuida as
estrelas). São milhares de pessoas que estão em funções desse
tipo para objetivos militares. Somente os soviéticos, possuem
uns mil satélites de investigação sobre o sistema capitalista,
que ao mesmo tempo servem para a meteorologia. E os ianques;
quantos tem? Porque os ianques devem investigar os soviéticos e
os seus rivais capitalistas, os franceses, os alemães e os
japoneses.
_A base essencial do medo é a insegurança, o desconhecimento e
a insegurança do método para compreender, porque pode haver
desconhecimento mas sem medo. Por exemplo, pode-se desconhecer o
que existe por diante quando se vai em um avião, mas se olha o
mapa e pronto. Não se conhece o que existe por diante, mas isso
não é medo, porque existe o mapa que dá o conhecimento que
falta. Com respeito ao futuro, o medo tem uma razão de natureza
social, que é mais importante, que a dos aparatos, porque se
trata de reações individuais, de temor individual. Uma das
conseqüências da propriedade privada é o desenvolvimento do
sentido individual em todos os aspectos da vida. E uma das
conseqüências mais importantes da revolução socialista é o
desenvolvimento do interesse coletivo. A base do interesse
coletivo e a confiança que poderemos resolver tudo, realizar
tudo. O capitalismo não: consegue uma coisa, outra, depois?
Enquanto que o Estado operário sabe: vejam a Rússia, que estava
destruída, Lenin fez o programa, três anos depois concede a NEP
(Nova Política Econômica), mas constrói o Estado operário.
_O papel da violência no processo da história (...)
_A revolução não é terrorismo,
nem é violência individual, é a forma necessária para o
progresso. Para empurrar um objeto é necessário um impulso e
forçar o estado estático no qual se encontra. O estado
estático também é uma das formas do movimento, se não; não
é possível empurrar. O capitalismo chama o movimento de
terrorismo, mas para avançar é preciso mover-se, é preciso
tirar o obstáculo que impede o movimento. Quando se crava um
prego, como se faz para que este entre? Se diz:(entra preguinho).
Para tirar um parafuso, como se faz? Se diz: (sai parafuzinho),
ou se usa a força? É o que Engels mostra: a passagem da semente
à flor tem formas violentas; existe um momento no qual da forma
anterior ocorre a transformação, sem que se observe claramente.
Isto é, não vai pouco a pouca, passando de um estado a outro. O
nascimento da criança também é assim. Pode-se acompanhar o
processo e ir influindo, organizando, estimulando, elevando o
processo de crescimento, mais a etapa do salto dialético não
pode ser impedida. Em nenhuma forma de atividade natural ou
social, pode-se impedir o salto, porque este é a forma do
movimento. Um processo que vai caminhando e para, interromper-se
o movimento, mais não pára de mover-se; é uma interrupção do
movimento que depois é retomado.
_Na sociedade o processo da violência é a forma que adquire o
movimento da sociedade no determinado momento, como o trem que
caminha, a flor que nasce, o vento, as relações humanas. Quem
emprega a violência em ações de terrorismo individual não tem
nada que ver com o conceito dialético da violência como um
processo necessário para o progresso da história, são formas
de agir para intimidar. A revolução não intimida, a
revolução ganha, porque se revela numa forma superior,
econômica, social e humanamente, através do Estado operário.
É superior, não tem interesses individuais, procura elevar a
humanidade nas suas relações econômicas e sociais para então
desprender-se de toda forma de medo e de toda forma de
imposição. Desaparecerá também o que hoje se chama
violência, e será admitida como a forma normal do movimento,
que por um período se concentra, adquire o processo da dualidade
e depois, a dualidade se resolve numa forma superior.
_Os comunistas não discutem assim, por isso não discutem nunca
de dialética, e quando falam de dialética é um ponto
longínquo e escondido. E no entanto, o método dialético é a
base para compreender a história. Por isso muitos deles são
críticos em relação ao método dialético, quando na verdade,
todo sábio ou cientista, é dialético, mesmo que não saiba.
J. Posadas l6 de abril de l978