O significado histórico de Cuba e o processo revolucionário na América Latina

11 de março de 1979 J. Posadas

A América Latina depende do mundo. Ela não pode decidir nem econômica, nem militarmente, pois depende dos grandes países capitalistas; não é dependente, nem está submetida aos Estados operários como Cuba, mas aos países capitalistas. Toda a sua economia está estruturada no sistema capitalista.
A economia da América Latina foi desenvolvida, estruturada pelo sistema capitalista e se baseia no acoplamento dos grandes países capitalistas para o desenvolvimento das grandes metrópoles. A América Latina não teve um desenvolvimento capitalista como a Inglaterra, a França, a Alemanha e o Estados Unidos, mas um desenvolvimento dependente; por isso, é uma grande colônia. E muitos países da América Latina têm todo o aspecto de colônia.
É preciso interpretar todos os problemas da América Latina através da sua relação com o mundo: qual é a relação com o mundo capitalista, com os estados operários, para ver quê campo de manobra, de possibilidades de ação tem para desenvolver sua economia, e com quê estrutura econômico-social pode desenvolver-se econômica, científica e culturalmente.
A América Latina foi sempre dependente das grandes metrópoles; consequentemente, a cultura, a economia, a ciência, dependem da Inglaterra, Alemanha, Japão, Estados Unidos. Não há condições para cada país isolado da América Latina se desenvolver como uma força própria, capaz de enfrentar o sistema capitalista. O progresso da América Latina depende do desenvolvimento econômico, e este por sua vez, do social; para promover o desenvolvimento social é preciso determinar as suas formas. Sob o sistema capitalista é impossível. Uma prova disso é o enorme atraso da América Latina dirigida pelo sistema capitalista, pelos capitalistas locais e pelas metrópoles imperialistas que são as que na realidade dirigem a economia da América Latina.
É preciso entender como tirar a América Latina do atraso. Cuba pôde sair do atraso porque derrotou o capitalismo, e o derrotou em condições e com meios inferiores aos de outros países na América Latina. A base essencial foi a debilidade da burguesia local, sua dependência estrita ao sistema capitalista, à inversão capitalista e a existência de uma direção revolucionária que foi aprendendo na marcha a organizar o programa em direção à construção do socialismo. Este não é um exemplo terminante, mas sim um guia.
A América Latina está inserida no sistema capitalista. Seus métodos de produção, suas relações econômicas são capitalistas, mas é dependente do mercado capitalista e concorre nele, em condições de inferioridade. Isto faz com que os países da América Latina não tenham nem possibilidades, nem condições, nem meios para avançar dentro do regime capitalista. Podem avançar muito parcialmente em um ou outro aspecto da sua economia, mas não podem liberar-se para se desenvolver com toda a vontade de progresso científico, cultural que têm os povos da América Latina. A América Latina tem bases econômicas, culturais, científicas e artísticas para um grande desenvolvimento; nem todos os países, mas os principais: Brasil, Chile, Uruguai, México, Colombia, Venezuela, Argentina, têm condições para se desenvolver. Para isso, é preciso encarar sobre quê vias deve se realizar o progresso da América Latina.
Cuba era um dos países mais atrasados da América Latina. A ação revolucionária, se deu primeiro através das guerrilhas e, depois, através da ação política e militar; ambas dirigidas por Fidel Castro e Guevara, derrotaram o capitalismo; em poucos anos, romperam com a dependência ao imperialismo; uniram-se aos Estados operários como a Urss, e elevaram a economia, a cultura e as relações sociais.
Um dos aspectos onde mais se expressa e se aprecia o progresso da humanidade são as relações sociais. O capitalismo não encara desse modo; julga o progresso de acordo à quantidade de comida que se consome, à capacidade financeira de intervir no mercado, à capacidade de compra, mas não às relações humanas. Não são as relações humanas as que determinam ou demonstram o progresso dos principais países capitalistas. Isso se nota pelo tipo de progresso dos mesmos; seu progresso é estritamente econômico; seja no Japão, nos Estados Unidos, na França, Inglaterra e Alemanha. O progresso é em termos de comodidades individuais, mas comodidades que nos afastam das relações humanas mais desenvolvidas, e estimulam relações humanas dirigidas ao egoísmo individual da possessão da riqueza, da propriedade. Em troca, em Cuba e nos demais estados operários isso não ocorre. Mesmo havendo direções burocráticas, mesmo não havendo democracia soviética, os Estados operários representam um infinito progresso para a humanidade porque desenvolvem as relações sociais.
Comparando com o capitalismo, nos Estados operários como a Urss, Cuba, Polonia, Alemanha, Tchecoslovaquia, Iugoslavia e mesmo China, há um progresso imenso nas relações humanas, porque o desenvolvimento da economia tende a elevar o ser humano na preocupação por outro ser humano, não pela acumulação individual como no capitalismo. Muitos desses países eram mais atrasados do que os países da América Latina e, hoje têm uma relação humana infinitamente superior, relações humanas seja com a criança, o ancião e a mulher. Estes estados operários partiram de condições mais atrasadas que os países mais atrasados do sistema capitalista e, hoje, tem um desenvolvimento econômico infinitamente superior. Não é um problema de técnica ou de capacidade de inversão; a técnica na produção e a capacidade de inversão têm importância, mas se técnica e capacidade de inversão vão dirigidas à apropriação individual, entram na concorrência do sistema capitalista e desenvolvem parte das forças da sociedade, parte da inteligência, formam pessoas interessadas no progresso individual, que é o que o sistema capitalista busca. Em troca, nos Estados operários, mesmo havendo burocracia, isso não ocorre. Aliás, são Estados operários, não se trata ainda do socialismo. O socialismo não é um estado, é uma sociedade e, portanto elimina toda forma de estado, elimina a direção por meio do aparato, e a direção é a população intervindo em órgãos. Dessa forma se elimina a desigualdade social e a apropriação de acordo a cada um segundo sua capacidade, substituindo-a por a cada um segundo a sua necessidade. É preciso discutir todos estes problemas na América Latina.
É preciso discutir também o atraso da América Latina. Há países mais atrasados que os da América Latina: Moçambique, Etiopia, Angola, e, nestes países há um progresso das relações humanas infinitamente superior que no capitalismo. Não somente em relação às crianças, anciãos, mulheres, mas ao gênero humano. Mesmo não havendo alcançado uma elevação suficiente, necessária para um maior progresso econômico, já estão colocadas as condições para o desenvolvimento da solidariedade social muito profunda. Esse sentimento se desenvolve na forma de compreensão social que é muito além da simples solidariedade. Não é uma dada circunstância que determina que é preciso ser solidários; mas, a solidariedade é uma parte normal das relações humanas (mesmo com a existência da burocracia nos Estados operários). Isto deve ser discutido por todos os dirigentes de todos os movimentos de esquerda, guerrilheiros, movimentos pequeno-burgueses de libertação da América Latina.
Não se trata de fazer na América Latina uma copia do que se fez em Cuba ou na Urss, mas de como encarar o progresso da América Latina, seja tomando individualmente cada país, seja de conjunto. Individualmente não há possibilidades de desenvolvimento para nenhuma país na América Latina; para se desenvolver tem que romper com a dependência ao sistema capitalista. Esta é a conclusão mais importante e imediata.
Na América Latina houve uma série de movimentos de libertação dirigidos pela burguesia nacional, mas todos ficaram limitados, fracassaram ou não puderam avançar como o de Peron (o que foi mais longe de todos) ou como movimentos da esquerda socialista como o de Allende no Chile. Não são processos idênticos. O movimento de Peron foi um movimento burgues que foi muito longe na sua vinculação com as massas, apoiou-se no campo sindical contra a velha oligarquia e o imperialismo. O que faltou foram direções que compreendessem o processo para avançar, partindo do apoio ao peronismo para depois passar a etapas superiores, para impulsionar o movimento nacionalista a formas mais elevadas.
Podem e se devem fazer avanços, progressos de alianças com setores da burguesia por direitos democráticos, por certo desenvolvimento econômico, mas considerando que a aliança tem um alcance limitado. A burguesia busca apoiar-se na classe operária, na pequeno-burguesia, no campesinato para somente ela avançar; limitando todas as possibilidades que existem de avançar, porque a sua programação, sua política, preocupação cultural e científica estão determinados pelo seu interesse próprio de substituir o domínio do capital estrangeiro. Quer que o capital nacional expulse o capital estrangeiro e, daí então, ela mesma dirigir o país. Isso abre condições porque permite um maior desenvolvimento democrático, maiores condições econômicas, porque substitui a dependência econômica do imperialismo e consegue fazer com que parte da riqueza que era antes levada pelo imperialismo, fique agora no país e que haja mais para distribuir. Mas, a distribuição que faz é ínfima, pois a classe operária recebe 10 por cento e 90 por cento é levada pela burguesia. A classe operária, os setores pobres recebem uma ínfima parte da riqueza nacional; a maioria é canalizada e levada pela burguesia nacional. É preciso discutir estas experiências para ver porque a América Latina não avança mais.
Cada país capitalista depende do mercado mundial. As burguesias da América Latina não podem fazer frente ao mercado mundial isoladamente; são produtores de matérias primas que dependem do mercado mundial: o mercado comprador, vendedor, o mercado das finanças, do crédito que são as pressões com que o imperialismo impõe a dependência. O imperialismo também instiga os enfrentamentos militares para impedir o desenvolvimento de cada país. Diante destas condições, nenhuma burguesia pode levar adiante uma tarefa importante de desenvolvimento econômico. Peron, na sua etapa, promoveu um progresso imenso na Argentina; e houve um grande progresso dos sindicatos, mas depois voltou tudo para trás. Não os sindicatos, que continuaram e continuam a luta, mas sim todo o desenvolvimento econômico que se anulou.
Em troca, Cuba, sendo um dos países mais pobres da América Latina, teve um progresso econômico imenso que se expressa nas condições de vida da população, na ausência de analfabetos, nas pessoas que comem melhor, no ensino gratuito, nos hospitais e nas relações humanas infinitamente superiores a todos os países da América Latina. Nos Estados operários há condições de desenvolvimento econômico imensas que permitem uma relação com a população infinitamente superior à do sistema capitalista. Tudo isso se deve à propriedade estatizada e à planificação da produção.
Cada país da América Latina enfrenta individualmente o mercado mundial capitalista, depende da inversão, da compra, do transporte, do crédito; depende da relação com o mercado que é cada vez mais estreito e reduzido a um menor número de capitalistas. A América Latina depende disso e, separadamente, cada país depende do mercado mundial; e este tem como criar enfrentamentos entre uns e outros obrigando-os a depender do mesmo. Os países da América Latina não têm possibilidades de desenvolver uma grande indústria; somente em forma limitada. Os países que desenvolveram a indústria o fizeram na maior parte dos casos com o apoio dos Estados operários, como o Peru e a Argentina.
O desenvolvimento industrial da América Latina é muito incipiente, muito limitado e, as grandes metrópoles organizam a fabricação de peças na América Latina porque fica mais barato. Desta forma produzem pela metade do preço, colocam no mercado latino-americano e, por sua vez, ao ter os capitais que dão trabalho, emprego, interessa aos setores do capitalismo nacional produzir peças pré-fabricadas, matérias primas para depois servir aos grandes mercados capitalistas: Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, França.
O capitalismo na América Latina não tem possibilidades de se desenvolver e de se independizar do capital estrangeiro e fazer do continente países capitalistas desenvolvidos. Isso é impossível porque o interesse capitalista impede organizar esta luta e não tem a capacidade para essa atividade porque vai contra o seu interesse de acumulação de capital e de lucros para reinvistir e desenvolver a economia em base ao seu próprio interesse que limita as possibilidades e as condições imensas que existem na América Latina. Assim, fica limitado ao interesse de lucro dos capitalistas e, estes, por sua vez, estão limitados pela concorrência mundial, onde o capitalismo latino-americano tem pouca entrada porque é o grande capital internacional que domina o mercado mundial.
O que mostram com o "boom" do Brasil, não é nenhum "boom", são uma série de medidas do capitalismo brasileiro, que aproveitou uma circunstancia passageira para desenvolver uma camada de grandes milionários e nada mais. O resto da população não teve o seu poder de consumo aumentado no mercado, nem teve mais trabalho ou melhores condições de vida, nem melhor alimentação ou menos analfabetos.
O desenvolvimento econômico da América Latina, sob o sistema capitalista, está estruturado a fim de desenvolver o interesse do investidor imperialista para que este domine econômica e politicamente, impida o desenvolvimento de outros competidores capitalistas e, ao mesmo tempo, que seja uma força que impeça o desenvolvimento das lutas sociais ou revolucionárias e as transformações sociais. Esta é a conclusão sobre o Brasil onde não há nenhum "boom".
Estes são países que dependem de pequenas camadas de grandes financeiras e de oligarquias, que são as que em última instância determinam a vida destes países. E com este "boom" industrial do Brasil, o que fizeram foi concentrar em São Paulo capitais dirigidos por um pequeno número de capitalistas e nada mais. A economia do Brasil depende essencialmente da venda do café ao exterior. E isso não é uma fatalidade, mas uma imposição do sistema capitalista. Os Estados operários também eram assim antes e agora não são mais. O desenvolvimento dos Estados operários é mais elevado em todos os aspectos: econômico, social, hospitalar, educacional, nas relações humanas, na preocupação pelos demais. Isso se dá assim porque a base da economia não é a acumulação individual, mas a acumulação social.
É preciso discutir todos estes problemas em toda a vanguarda operária, entre os intelectuais, os estudantes, e mesmo com setores da burguesia, fatalistas, que sentem que a América Latina não tem perspectivas na via capitalista.
Os países da América Latina podem se desenvolver como Cuba, mas individualmente não o podem conseguir. Inclusive para um desenvolvimento posterior em Cuba é necessário uma unificação com o resto da América Latina. Ela não está travada completamente. Cuba pode avançar infinitamente mais, mas para uma maior estruturação da economia é necessária a planificação. Para isso, é preciso estender-se ao resto da América Latina. Da mesma forma como se relaciona com os demais Estados operários, particularmente com a Urss, deve fazê-lo com toda a América Latina.
A burguesia não tem possibilidades de se desenvolver isoladamente; ela depende do mercado mundial. Não tem a força, a técnica, os meios, mas depende do mercado mundial capitalista. É impossível unificar-se sob o capitalismo, porque as burguesias competem entre si; então, cada uma tem interesses diferentes entre si. Elas podem ser circunstancialmente atraídas a acordos para tratar de se defender e concorrer com o resto do sistema capitalista, mas não podem fazer acordos estáveis porque cada burguesia defende interesses particulares. Todas as intenções de unificar a América Latina, de fazer órgãos regionais fracassaram completamente. Em troca, os Estados operários avançaram com o COMECON, o CAME. Mesmo sem ter grande importância, o progresso foi enorme.
As burguesias da América Latina determinam a sua conduta de acordo com o seu interesse que depende do grau de relação com o capitalismo mundial e com o imperialismo. Não têm confiança, nem na política, nem no programa científico; o seu comportamento está determinado pelo interesse conômico concreto. A crise mundial do capitalismo é cada vez maior e encerra as perspectivas de desenvolvimento para a América Latina nas mãos da burguesia e dentro do sistema capitalista; da mesma forma que na África e na Ásia. Isso se expressa mesmo limitadamente, nas altas e baixas repentinas dos preços das matérias primas e nas manobras dos grandes consórcios imperialistas.
A unificação não pode ocorrer se predomina o interesse individual. Ao passo que, com a propriedade estatizada, sim, é possível porque já não é o interesse privado que determina, mas o interesse dos povos; estes intervêm e determinam o curso da economia.
Na etapa atual não se pode medir o comportamento das massas porque estas não tiveram oportunidade de se expressar; mas há uma influência enorme do desenvolvimento mundial da revolução socialista sobre elas. As massas da América Latina vêem que países atrasadíssimos como a Etiopia, Moçambique, Angola e Vietnan, progrediram enormemente. O Vietnan, mesmo com todas as dificuldades e atraso econômico que tem herdado do imperialismo francês e ianque, reeducou um milhão de pessoas. As massas vêem e sentem isso. As massas estão aprendendo do mundo, não simplesmente pelo que dizem os dirigentes atuais dos movimentos ou das organizações políticas.
Ao se falar em federações entre os países da América Latina não se trata de um programa para ser aplicado imediatamente. Mas, para o avanço da América Latina é necessário fazer federações entre os países do Atlântico, do Pacífico, para poder desta forma planificar regionalmente e avançar a federação de toda a América Latina. A base essencial disto é a lingua comum. Já na sua época, os libertadores da América Latina contra a dominação colonial, buscavam isto, mas naquela etapa do desenvolvimento da América Latina não se podia unificar. Agora, existem essas condições. Naquela época eram movimentos da burguesia incipientes que, para unificar-se, chocavam com o interesse e a limitação econômica de cada um e com o temor de cada país de depender do outro.
O problema das federações não pode ser encarado com rigidez, mas de acordo com maleabilidade do processo. Setores da baixa e média burguesia estariam dispostos a formas de federação. É preciso aproveitar-se disso. Para o progresso do país, é preciso utilizar e basear-se nestas camadas sociais e ir avançando para não ficar nos marcos estritos do interesse local da burguesia.
Um dos problemas a resolver na América Latina é que, junto ao desenvolvimento da economia, deve realizar-se o desenvolvimento social; e isto significa democracia, mesmo burguesa, dentro da democracia capitalista e isto não se pode fazer sob a estrita direção política da burguesia porque ela não tem interesse nisso. Quando tem certo interesse e busca pactos e alianças com o proletariado e o campesinato é para explorá-los e dividi-los em frações pondo-os uns contra os outros. Faz isto porque já não pode utilizar as formas de golpes de estado como fazia antes. Agora tem que fazer isso nas lutas políticas e buscando justificar-se perante a pequeno-burguesia; tem que fazer movimentos políticos apoiados no campesinato, no proletariado e na pequeno-burguesia. A burguesia na América Latina não tem possibilidades de promover um maior desenvolvimento do que está fazendo.
Não existe um progresso social importante na América Latina. O que existe é um progresso em certos aspectos da economia e na utilização dos recursos como no petróleo da Venezuela, do México, na riqueza mineral do Peru, do café no Brasil, Colombia e a do trigo e carne na Argentina. E para a população, houve algum progresso? É preciso comparar com Cuba e os Estados operários e ver como estes países partiram de piores condições econômicas e promoveram um progresso social, econômico e científico infinitamente maior.
O desenvolvimento do Peru ou da Bolivia com os altos fornos realizados com a ajuda da Urss, é enorme, mas muito limitado. A economia destes países está submetida ao sistema capitalista mundial, ao contrário de Cuba onde não se vê o mesmo atraso do resto da América Latina porque não está submetida ao mercado capitalista mundial. Nenhum destes países da América Latina pode ter um desenvolvimento industrial porque não podem competir com os grandes países capitalistas; dependem deles. Os que dirigem os países da América Latina não têm interesse num programa de desenvolvimento econômico social destes países, mas em desenvolver o que a eles lhes convém. Por isso, a economia dos países da América Latina se baseia no café, no açúcar ou no trigo, na fruta, no estanho, no chumbo ou no cobre; não há exemplos de países que tenham baseado a sua economia somente nisso e que tenham tido um grande desenvolvimento.
As intenções de militares como - Velasco Alvarado, F. Maldonado - no Peru, mesmo querendo ir longe em certas medidas socialistas, ficaram limitadas porque não afetaram o sistema capitalista; deixaram-no intacto. Não bastava a boa intenção destes militares que buscavam o progresso social; ao deixar intacto o sistema capitalista, não puderam avançar. Eles acreditaram que podiam impor às relações capitalistas, formas superiores de relações econômicas. Isso não é possível. Todas as formas de propriedade que eles inventaram, como a comunidade industrial, a propriedade social, demonstraram que fracassaram.
A propriedade ou é privada ou é estatizada. Se é privada, depende do interesse capitalista e este segue as normas e o curso do mercado mundial; a propriedade estatizada permite planificar a produção. Não há dúvidas de que expropria a dez, cinquenta capitalistas, mas beneficia a milhões e desenvolve o país, econômica, científica e sanitariamente como fizeram em Cuba e nos demais Estados operários. Para sair do atraso é necessário a propriedade estatizada e para isso é preciso expropriar o capitalismo.
Neste momento não se coloca estritamente esta luta, mas sim a de levar uma luta pelas reivindicações democráticas burguesas, pelos direitos sindicais e políticos da classe operária, para ir avançando, criando as correntes, as tendências que tenham a compreensão da necessidade de um programa para transformar a sociedade. É preciso fazer as alianças que sejam necessárias com a pequeno-burguesia com este objetivo, por um programa de direitos democráticos e de desenvolvimento do país e com a independência dos sindicatos e da classe operária.
O processo da América Latina forma parte do processo mundial. Assim como depende econômicamente do mercado mundial, também é ajudado e sustentado pela relação mundial de forças favoráveis à luta pela libertação do imperialismo. A relação de forças mundiais significa que os Estados operários se desenvolvem com uma potencia cada vez maior. A luta do movimento operário, das massas do mundo, dos partidos socialistas, comunistas, movimentos nacionalistas, grupos esquerdistas revolucionários, é a que determina o curso da história. Nesta relação de forças, o capitalismo não pode intervir como antes e esmagar, como não pôde fazer isso em Cuba. Quis intervir em Cuba, mas não teve a força histórica para fazer isso porque estava sujeito ao enfrentamento com os Estados operários, dirigidos pela Urss. Estas são relações de forças mundiais que impedem ao imperialismo intervir militarmente, como antes, mas ainda podem intervir. Intervém através de Pinochet, mesmo que limitadamente. Não são problemas que se resolvem militarmente, mas através do desenvolvimento da economia. Por isso Pinochet fracassou.
A intervenção dos Estados operários é uma medida para a humanidade ver como a economia pode se desenvolver sob esta forma de estado, enquanto Pinochet representa o debacle da economia. Pinochet não triunfou por ser o mais capaz, mas por falta de uma política adequada das direções no Chile. O heroismo de Allende não foi suficiente para parar as medidas reacionárias e contra-revolucionárias de Pinochet. Faltava a intervenção das massas em órgãos para dirigir e controlar a economia, a policia e a ruptura com a estrutura do exército. É preciso tirar esta experiência, como no Peru e com a experiência de Peron.
A derrota sofrida pelos movimentos revolucionários não é responsabilidade deles, mas da ausência de direções políticas aptas para uma política anticapitalista. São os sindicatos, junto aos partidos operários, os centros que podem dirigir este processo. E com a experiência que estão tirando da etapa anterior, poderão e deverão avançar na compreensão programática de uma luta anti-capitalista, mesmo fazendo frente com setores burgueses, mas compreendendo que a única maneira de avançar é através de um programa de luta anti-capitalista. 
Todas as ditaduras da América Latina fracassaram. Não há nenhum país que sob a ditadura tenha desenvolvido a economia. Mesmo no Brasil, com o tal do grande "boom" que houve, somente se desenvolveu uma camada burguesa. Enquanto isso, Cuba desenvolveu a economia. Estas comparações não são apreciadas pela burguesia, mas sim pela pequeno-burguesia, pelos intelectuais, pelos professores, pelas direções operárias. É preciso basear-se nisso para o progresso da América Latina.
Este é o caminho para tirar a América Latina do atraso.


J. Posadas
11 de março de 1979