
A Conferência da ONU em Durban e a natureza racista do imperialismo
Os
resultados da Conferência da ONU em Durban na África do Sul não devem ser
medidos pelo tipo de compromisso semântico encontrado para a sua Declaração
Final. Esta reunião deve ser inserida num contexto que é de crescimento do
movimento Anti-globalização, e representou um novo assédio aos potentes da
Terra, uma nova ocasião de encontro de forças progressistas das mais variadas
origens, que levantam a cabeça em todo o mundo contra a opressão racial, étnica,
cultural.
Não
há dúvida alguma que toda a energia empregada por milhares de representantes
de movimentos anti-racistas e das etnias ou grupos sociais discriminados ou
injustiçados no mundo, é um valor em si e está inserida no contexto destas
manifestações que contestam a globalização capitalista. É o valor real
desta reunião, e não o dos documentos formais produzidos, a serem inseridos
nos anais formais da ONU e pontualmente ignorados.
Ao
mesmo tempo mostrou-se com evidência que o instrumento de solução para os
problemas apontados pelos participantes, e sobretudo pelos fóruns paralelos e
manifestações que se sucederam, não é nem poderá ser jamais as Nações
Unidas. Pelo contrário, esta mostrou toda a sua impotência, e ser um palco
esvaziado de qualquer instrumento de ação e condicionamento dos verdadeiros
responsáveis por todo tipo de discriminação racial no mundo. A
razão única de tal fracasso reside na própria natureza do imperialismo, da
essência do sistema capitalista em todas as suas expressões.
A
própria África do Sul é o símbolo vivo da decrepitude deste sistema, onde
todas as tentativa de reformá-lo, de humanizá-lo, numa situação em que se
conquistaram os direitos democráticos e constitucionais formais mais avançados
possíveis neste regime, deram lugar a uma perfeita continuidade com os mais
nefastos efeitos sociais e raciais que estavam na base da pirâmide do
Apartheid: as manifestações realizadas durante a Conferência da ONU o
mostraram de maneira eloqüente: a situação da população negra e das outras
minorias raciais na “progressista” África do Sul continua sendo de
discriminação, opressão e miséria. Formou-se uma burguesia negra,
nutrindo-se dos acordos políticos, da escalada aos órgãos do Estado, e das
migalhas concedidas pelo capitalismo internacional e pela burguesia branca para
conter os alcances das mobilizações das massas do período da luta contra o
Apartheid e do inevitável processo revolucionário.
A
transição “pacífica”, as divisões no CNA, no contexto do desaparecimento
da Urss, e em parte a ilusão da própria CNA com a “boa-vontade” dos países
imperialistas demonstrada no período do boicote, o ilusório pacifismo e o
abandono gradual do programa socialista sustentado até então pelo Partido
Comunista e pelos sindicatos, tudo isso levou a prevalecer a visão de uma
passagem gradual, pacífica, para um certo tipo de desenvolvimento. É uma
experiência notável, para os “nossos” pacifistas que querem hoje -
frente a uma possibilidade de vitória eleitoral das oposições no Brasil -
entrar pelo caminho das reformas graduais e consensuais para resolver os
problemas do atraso social e também porque não, do racismo no Brasil.
Além
deste fato, por si evidente da impossibilidade de resolver os problemas raciais
no capitalismo, porque da discriminação da pele passa-se à discriminação
social, resolvendo-se formalmente a questão “racista”, como no Brasil onde
a população negra, índia e mestiça ocupa os últimos lugares da sociedade.
Neste gueto, não há “racismo”, há só excluídos. O exemplo do Zimbabwe,
ex-Rodésia, é outra prova material, onde os brancos sempre mantiveram as
principais riquezas sob controle, apesar de 20 anos de poder formalmente
progressista e representante da maioria negra, e agora se encontra à beira da
guerra civil porque a população de pele negra justamente pede os direitos
sociais que lhe foram negados por todos estes anos e invade as enormes
propriedades dos brancos.
A
fuga vergonhosa do imperialismo USA e dos seus cães de guarda de Israel da própria
Conferência mostra, como se fosse preciso, que o imperialismo não somente
jamais irá resolver os problemas do racismo, mas que estava já se preparando
para o que está promovendo hoje: a guerra contra a humanidade, a começar pelas
populações árabes. Toda as questões do pedido de “compensações” pelo
escravagismo no período do colonialismo, e o fato de se acusar o Estado de
Israel de praticar racismo contra os palestinos - que evidência maior poderia
existir? - que motivaram a retirada são pretextos ridículos que frente à
humanidade são provas gritantes das intenções sinistras do imperialismo.
Já
o Imperialismo USA havia abandonado a Conferência de Kioto sobre o
efeito-estufa e ignorado abertamente as suas recomendações precedentes. Isto
por si representava uma declaração de guerra ao ambiente e ao resto da
humanidade. Com esta nova medida de Durban explica-se perfeitamente a atual
preparação da guerra, para quem ainda tivesse dúvidas. Se um regime prepara a
guerra total, que consideração pode ter pela ecologia, pelas minorias raciais
ou étnicas? Para não se falar das precedentes conferências do ambiente no
Rio, da Fome em Roma e a da Mulher em Beijing, cujos resultados foram ignorados
e para os quais não aparece qualquer solução ao horizonte e que pelo contrário,
se agravaram com a globalização capitalista.
É preciso sustentar a enorme mobilização moral, social e política de milhares de delegados de todos os países do mundo, representantes das mais variadas etnias e minorias discriminadas que percebem perfeitamente esta situação, que formam um exército com uma crescente capacidade de reação contra a barbárie e que criam um outro tipo de “globalização” dos valores, das propostas, da vontade de lutar contra o regime que gera todos estes horrores, o imperialismo e o capitalismo: a partir do Fórum de Porto Alegre, criar as bases para uma nova Internacional Comunista de Massas, recolocar na ordem do dia a idéia do Socialismo, esta é a única resposta para o fracasso da ONU e para a guerra contra a humanidade já declarada pelo Imperialismo.