Editorial 

A continuidade das privatizações, a defesa das estatizações e a necessidade de uma frente única antiimperialista 

A truculência policial contra a legítima ação de populares que tentavam impedir a privatização da Copel ( Cia Paranaense de Eletricidade) - empresa altamente lucrativa - indica claramente a obsessão do governo FHC de seguir na linha de entregar os patrimônios públicos ao capital estrangeiro. Não têm outra política a seguir. Mesmo com os resultados negativos visíveis da privatização para o país, inclusive no setor elétrico, obrigando ao um país que é uma potência energética ao absurdo de racionar energia, além de penalizar as massas com tarifas cada vez mais elevadas.

Este episódio no Paraná também serve para demonstrar aos setores da esquerda que têm ilusões quanto à democracia parlamentar, quais são os seus estreitos limites. Apesar da projeto de lei de iniciativa popular, como milhares de assinaturas, com a ocupação da Assembléia Legislativa por sem-terras, estudantes, sindicalistas e populares, o governo ignorou tudo e seguiu a sua determinação entreguista. Se na década de oitenta, gigantescas manifestações populares jogaram a pá de cal no regime ditatorial, condições políticas muito superiores existem agora para ações de massa visando conter o entreguismo desvairado do governo. Pesquisas indicam forte rejeição popular à onda de privatizações.

A ausência de Lula nestas manifestações é contraditória com suas declarações à imprensa de que não vai aceitar que FHC privatize em fim de mandato. Há uma orientação na direção petista de evitar enfrentamentos, quando até mesmo Itamar Franco, que não é de esquerda, mostrou que há condições para fazer frente à sanha entreguista do governo federal. Itamar retomou o controle acionário da estatal Cemig, que estava a caminho da privatização sob controle de acionistas norte-americanos, e o fez através até mesmo com a mobilização de tropas da PM mineira nas instalações hidrelétricas de Furnas, com o que enviou clara mensagem para FHC, no que foi apoiado pela população. O PT poderia Ter tido maior empenho. Junto com a falta de uma mobilização contundente e de um chamado ás massas contra a privatização da Copel, se verifica a contradição nas declarações de Lula de que não vai permitir a privatização de Furnas, mas ao mesmo tempo de que não vai reestatizar nada do que já foi privatizado, apesar das privatizações terem sido repletas de irregularidades e muitas delas a preços negativos, como é o caso da Cia Vale do Rio Doce. As contraditórias declarações Lula , juntamente com os desmentidos da direção nacional petista, indicam que não se pretende encarar de frente a questão fundamental, o golpe das privatizações, da desnacionalização da economia brasileira, assim como se pode perceber das declarações de vários líderes petistas de que não haverá ruptura com o FMI ou que esta entidade, que é uma ferramenta do capitalismo internacional, poderia até ser sócia e útil ao Brasil. Que país se desenvolveu com o apoio do FMI? Todos os que seguiram seus planos estão encalacrados e afundando em crises, como é o caso da Argentina, ou do Equador que já dolarizou sua moeda e já tem a presença de uma base militar norte-americana em seu território! Estes são os planos do imperialismo também para o Brasil, contando com as ações criminosas do FMI, cujas políticas têm efeito devastador sobre as condições de vida da população.

Enquanto isso a economia brasileira, depois de Ter privatizado 75 por cento de suas empresas estatais, de já estar sendo controlada em 70 por cento do PIB por capitalistas estrangeiros, dá sinais de caminhar para uma fase maior de recessão, especialmente como resultado da recessão do capitalismo mundial e sua deliberada opção para fabricar situações de guerra e movimentar a indústria de armamentos, para o que faz uso dos atentados nos EUA, cuja envergadura sugere a participação de setores do próprio imperialismo interessados na economia de guerra. (ver artigo específico). O desmantelamento da economia argentina afeta ainda mais a economia brasileira, diminuindo as vendas, e faz parte da política do imperialismo provocar uma rendição para a implantação da ALCA, que tem o apoio da maioria dos grandes empresários brasileiros, o que será nada mais que a anexação da economia brasileira à economia dos EUA. A elevação dos preços dos alimentos, em particular do pão e do macarrão, da gasolina, remédios, tarifas públicas, transportes, é nada mais que a impiedosa punição do capitalismo sobre as massas brasileiras, também penalizadas pelo desemprego crescente, redução dos serviços públicos, e aumento descontrolado da criminalidade e da violência.

O saque que moradores do Rio de Janeiro fizeram a um trem carregado de açúcar e cimento, assim como o desesperado saque das massas ao que sobrou de um incêndio na Ceasa, mesmo sendo alimentos carbonizados, impróprios para o consumo, dão a medida da guerra social que as massas travam contra o capitalismo na tentativa de sobreviver e escapar da fome. Frente a fatos como este, que podem ser observados diariamente em várias partes do país, os setores da esquerda desenvolvem um linha política de insensibilidade para com o social. Deputados petistas de Minas Gerais foram descobertos recebendo irregularmente mais de 1 milhão de reais por ano sem que a direção do PT tome qualquer providência. Outro deputado petista, Fernando Gabeira, escreve artigo em que compactua com o turismo sexual de adolescentes no Nordeste, e a direção do PT até agora ignora solenemente o fato. O posicionamento público de dirigentes como Cristóvam Buarque e Tarso Genro indica que uma parte da esquerda tem ações conjuntas com o sistema financeiro internacional, inclusive com especuladores criminosos como George Soros, que financia o exército de mercenários de Jonas Savimbi em Angola. Provavelmente, a intervenção das altas finanças em programa como Bolsa-Escola, farão delas uma espécie de cavalo-de-tróia que preparam o terreno para intervenções mais sinistras do imperialismo no Brasil. Se em Angola já petróleo e diamantes em abundância, o Brasil possui todo tipo de riqueza mineral e de biodiversidade, sem contar a imensa potencialidade energética, todos estes fatores de vida ou morte para as potências imperialistas, em fase de escassez energética e com sua indústria farmacêutica e de biotecnologia que cobiçam descaradamente a rica e subpovoada região amazônica. A ambiguidade da política petista frente a estas questões centrais para o imperialismo está sendo contabilizada pelo imperialismo. Assim como a invenção de provocações que “justifiquem” a presença armada do imperialismo na região, também está em seus cálculos.

As dificuldades para a constituição de uma aliança entre as forças de esquerda e nacionalistas podem dar nova vitória ao neoliberalismo do governo. A intervenção de FHC na convenção do PMDB visa obstruir uma candidatura nacionalista e estatizante, que em aliança com as esquerdas, pode concretamente proporcionar uma vitória eleitoral e desencadear um processo de cancelamento das privatizações e a apuração de toda sorte de irregularidades nelas cometidas. Várias pesquisas e estudos revelam forte crítica da população à onda de privatizações feitas por FHC. É a direção petista que não quer tratar do tema, imaginando que isto viabiliza a vitória eleitoral, quando é justamente o contrário. A argumentação de que é impossível reestatizar porque não há dinheiro para isto é insustentável: e os volumosos recursos públicos usados como verdadeira doação para “ajudar” o grande capital internacional a rapinar o riquíssimo patrimônio estatal brasileiro? Estas privatizações e a desnacionalização econômica causada, praticamente impedem que o Brasil assuma e aplique plenamente um projeto nacional de desenvolvimento econômico independente capaz de atender as urgentes demandas da população por justiça social, pela superação da miséria. São ou não estas questões os problemas fundamentais do Brasil? Durante a ditadura a reivindicação por eleições diretas para presidente da república argumentava que só assim as grandes questões nacionais poderiam ser debatidas e resolvidas com a participação da população. O que leva uma parte da direção de esquerda a esquecer-se disto?

O brutal assassinato do prefeito de Campinas mostra bem que nem toda a conciliação do mundo garante um curso estável de vitória eleitoral oposicionista. Este assassinato possui contornos políticos, mesmo se ficar comprovado que foram setores ligados ao narcotráfico os executores. O narcotráfico pode entrar em conflito diretamente com muitas políticas públicas, como também pode ser utilizado como ferramenta para eliminar obstáculos a meios ilícitos de acumulação de capital em vários setores da administração pública. Lamentavelmente, como no assassinato da prefeita petista Dorcelina Forlador, a reação da direção petista a fatos tão monstruosos é tímida, não ultrapassa muito a rotineira cobrança pela apuração dos fatos, evitando a mobilização popular, a discussão política profunda sobre as causas dos assassinatos de militantes, sindicalistas, sem-terras que avolumam-se no País.

É importante que a aliança em torno de um programa de estatizações dos setores chaves da economia e de medidas para o atendimento imediato das massas empobrecidas seja o centro das discussões na esquerda, nos sindicatos, no movimento estudantil, e nos setores progressistas das igrejas, dos movimentos sociais e nos nacionalistas, militares ou não. A postura de Hugo Chavez na Venezuela, enfrentando o imperialismo e contando com o apoio das massas pobres, provoca uma discussão entre os militares preocupados com o entreguismo, com as políticas agressivas do imperialismo, com sua intervenção na Colômbia, sua cobiça pela Amazônia. E também a postura de Cuba e sua recuperação econômica, ampliando a licença maternidade de 6 meses para um ano, revelam que os países que não se submetem ao FMI são os que apontam para uma alternativa de crescimento e progresso social. Também é o caso da China, a economia que mais cresceu na década do neoliberalismo, e que ainda mantém o fundamental da economia nas mãos do estado, apesar de toda conciliação de parte de sua direção com o capitalismo. É por isto que a China está na mira dos mísseis do imperialismo.

Esta é uma discussão a ser feita na esquerda, inclusive tomando o exemplo do MST, que apesar de todo o cerco, os assassinatos, a guerra da mídia contra ele e a ação organizada do governo para isolá-lo, segue tomando iniciativas de mobilização, com a preocupação importantíssima de educar e politizar as massas pobres, em ações embasadas em propostas programáticas, e que tem sintonia com o crescente movimento anti-globalização no plano internacional, buscando, corretamente, uma comunicação política com o conjunto da sociedade e as massas exploradas urbanas.

Apesar de sua crise de desmoralização, o governo ainda pode fazer uma derrama de dinheiro para organizar uma candidatura para continuar a política de privatizar e entregar o que resta da economia brasileira. A falta de uma frente antiimperialista , envolvendo a esquerda, os nacionalistas, os intelectuais, o MST , os sindicatos e demais movimentos sociais, pode criar as condições para uma vitória da direita. Ao mesmo tempo, as condições sociais, a radicalização de setores do movimento de massas, o crescimento do número de greves, indicam que há condições concretas para uma vitória eleitoral da oposição, desde que a tática correta seja aplicada e com um programa que envolva os mais amplos setores explorados da sociedade, que precisam Ter a noção clara de que a oposição não vai vacilar em tocar nos privilégios dos banqueiros, dos oligarcas e do imperialismo. Na Venezuela, Hugo Chavez enfrentou estes setores poderosos, foi demonizado pela mídia inteira, mas, mesmo assim recebeu amplo apoio da massas, que se identificaram com ele. Eis aí uma lição a ser tirada.

15.09.2001