Editorial

 

O bilionário circo eleitoral

e a ausência de debate sobre um programa para tirar o Brasil do atraso

 

A campanha eleitoral vai tomando corpo no País apresentando como marca mais forte a ausência de propostas de transformações sociais de fundo que poderiam dar um outro rumo – de Justiça Social – a um Brasil que caminha para o mesmo abismo social onde já se encontra a Argentina.

A advertência da CNBB de que “O povo vai ser enganado nas eleições” vai se com­provando aos poucos na barafunda eleitoral que mostra um indecente conluio entre “Juízes” e o governo federal que representa o grande capital. Através desta operação vão se produzindo mudanças nas regras eleitorais de tal modo a eliminar surpresas que ponham em risco a vitória eleitoral dos grandes capitalistas que mais ganharam e que querem continuar acumulando com a manutenção das políticas neoliberais, qualquer que seja o vencedor.

Esse casuísmo da legislação eleitoral é apenas a outra face da relação promíscua entre os grupos de mídia e institutos de pesquisas – verdadeiros laboratórios da mentira – e o grande poder econômico. A soberania do voto popular vai reduzindo-se a pó e a eleição deixa de ser um instrumento seguro para que o povo exercite cons­cientemente a escolha do rumo que quer para o País. As pesquisas de opinião roubam a cena, são repetidas exaustivamente pela mídia, usadas como forma de tampar e impedir o verdadeiro debate de temas, propostas para o País, substituídas pelos artifícios dos marqueteiros em milionárias peças de publicidade eleitoral, que agora ganham prioridade sobre as mobilizações de massa e da militância. Nada se diz, por exemplo, de que inúmeras pesquisas apontam que 78% dos eleitores entrevistados não têm candidato e não se identificam com ne­nhum dos postulantes. Essa informação é escondida, ignorada, porque frustra os planos do circo do comércio eleitoral que se prepara para organizar a mais bilionária eleição da história do País. Vale registrar que as pesquisas na França apontavam o candidato socialista Jospin no segundo turno, mas o que ocorreu é que ao rebaixar seu programa aos níveis do programa de Chirac, uma enorme abstenção derrotou a linha social-liberal dos socialistas, como antes havia ocorrido na Itália: os governos de esquerda com políticas liberais apenas prepararam a vitória da direita de Berlusconi.

E cada vez vai ficando mais claro que nenhum dos candidatos quer apresentar-se com um programa de ruptura com as políticas neoliberais, sustentando transformações sociais, a reconstrução do Estado, a realização Reforma Agrária e a solução soberana para o gritante processo de endividamento externo e desnacionalização da Economia. A assessoria de Lula vem revelando grande id­entidade pro­gra­mática com várias das teses do governo FHC. A ten­tativa demagógica de Serra de aparecer como um crítico de algumas das políticas de FHC ter­mina por acentuar a pequena distância da linha eleitoral de Lula em relação a ele.

Na verdade, o acordo que a cúpula do PT fez com os magnatas da mídia, resultando num insustentável voto da bancada parlamentar petista na emenda constitucional que abre a mídia brasileira ao controle dos oligopólios internacionais, ajuda a compreender que parte da campanha de Lula se constrói sobre bases falsas. A manipulação pela mesma mídia das declarações de Lula sobre o aumento de Imposto de Renda para os grandes rendimentos, mostram bem que os tiranos da informação não vão se comover com o espírito de colaboração que o PT expressou e que não perderão um milí­metro sequer da hostilidade e do desejo de demonizar Lula. É sua natureza de classe. Falta pouco para começar a artilharia pesada, talvez apenas os acertos finais para o que vem sendo chamado de “o PROER da mídia”. Aliás, a recente notícia, dada em tom sensacionalista, da recomendação dos Bancos americanos de reduzir investimentos no Brasil, indica que os ataques já começaram.

A comemoração da mídia brasileira ao golpe que derrubou o presidente Hugo Chavez deveria servir como alerta aos setores que cultivam uma crença de boas relações com a mesma mídia. E é sempre bom frisar que Chavez foi eleito derrotando um verdadeiro cerco dos meios de comunicação e agora, recolocado no poder pelas massas, enfrenta nova­mente esta mídia que se prepara para novas ações golpistas. Aqui, como na Venezuela, este é o verdadeiro partido político do grande capital e atuará com todo o seu arsenal de mentiras nas eleições, revelando o gigantesco erro do PT ao apoiar uma maior oligopolização e internacionalização de um sistema de comunicação intrinsecamente anti­democrático quando deveria defender junto à sociedade um novo modelo público de comunicação, fora do controle do grande capital. Como criticar agora a manipulação da informação se a esquerda apoiou a oligopolização?

Também fica clara uma maior passividade do PT diante dos escandalosos golpes de rapinagem do grande capital contra a população. Depois do Proer, que transferiu uma montanha de recursos públicos para os banqueiros, a resposta dos bancos é uma acintosa sonegação de impostos e a cobrança de taxas extorsivas enquanto exibem lucros anuais que são verdadeiros “casos de polícia”. A resposta do PT diante disso reduz-se a uma dúzia de inúteis discursos sem qualquer intenção de organizar uma ação política de massas.

Depois das corrompidas privatizações do setor de tele­comunicações, com a justificativa (falsa) de que trariam investimentos, concorrência e em­prego, aí está o novo golpe das teles em marcha com um novo assalto aos cofres públicos, quando já é evidente a tendência de oligopolização privada do setor. Junte-se a esse o golpe da taxa do setor elétrico, a ajuda escandalosa ao setor das ferrovias privatizadas. Qual a reação do PT e dos sindicatos a essa rapina aos cofres públicos? Discursos em profusão, bater às portas dos tribunais sintonizados com o Executivo, uma ou outra ação judicial e, no fim, ações desmoralizadas pelo indefensável apoio petista ao “aporte de capitais” do BNDES para a Globo Cabo que já é sustentada majoritariamente por recursos públicos.

Somando-se a esta sucessão de maracutaias, temos a grande mentira da Reforma Agrária, onde a manipulação dos números em peças publicitárias que consomem milhões em recursos públicos, levou FHC ao ridículo de afirmar tratar-se da maior Reforma Agrária do mundo, como se não tivesse havido a Revolução Chinesa ou a Revolução Russa. Mais surpreendente, entretanto, é a reação passiva do PT a essa mons­truosidade, paralela à sua insis­tência de afastar-se do MST e em condenar de público o que chama de “excessos”, quando o governo atua como um criminoso, mente, engana a opinião pública e brinca com a desgraça de milhares de famílias que vivem há anos debaixo das lonas pretas e de quem se exige equilíbrio e moderação.

Se todo esses novos contornos do comportamento da direção petista indicam uma linha de não questionar de modo algum as bases do modelo econômico neo-liberal que conduz o País à barbárie, esta é a grande interrogação que farão a si mesmos integrantes do Movimento Operário, Camponês, Social, seg­mentos do clero progressista, intelectuais e artistas, cada dia mais ressabiados diante da despolitização temática da candidatura de esquerda.

O que a Argentina nos deixa como dramática lição é que pouca relevância histórica tem a ida da oposição ao governo quando desprovida da decisão de aplicar um programa de defesa dos interesses da ampla maioria do povo e de enfrentar os privilégios das classes dominantes. A enorme pressão imperialista para destruir a Argentina visa também destruir o Mercosul e viabilizar a  implantação da ALCA. Não há como enfrentar esta pressão sem recuperar o poder do estado, estatizan­do os bancos, os setores chaves da economia, realizando a Reforma Agrária, enfrentando a espiral de desnacionalização/dominação via dívida externa, agora agravada com a proposta da ALCA. Se estas pautas pro­gramáticas sequer são discutidas centralmente numa campanha eleitoral, revela-se que este processo eleitoral pode estar limitado simplesmente a escolher o novo administrador da crise capitalista, que vai se agravar, e não uma alternativa à sua superação. Deste modo, nenhum outro mundo será possível para a grande maioria do explorado e humilhado povo brasileiro.

28 de abril de 2002