
O
caráter burguês do processo eleitoral e a guerra social em curso tornam
imprescindível e urgente a organização independente da população explorada
e oprimida
O triste espetáculo das “convenções” dos partidos
burgueses, Psdb e Pmdb, com as multidões de pobres-diabos, cabos eleitorais,
dos profissionais da “política” com “p” minúscula, mas sapientemente
orquestrados pelos que, estes sim, sabem
os que querem, os que comandam, os que representam os fortes interesses, esta
triste cenografia onde não há lugar algum para a inteligência, a
criatividade, e menos que nada, para a discussão de soluções para os graves
problemas da economia, da sociedade, da civilização humana, tudo isto compõe
de maneira significativa o que é o quadro da “democracia burguesa”. A
aberta intervenção do STE em favor da ala governista do Pmdb
– a imagem do presidente
do Tribunal despachando de pijama, de madrugada, é a imagem de um judiciário
prostrado diante do grande capital –
e as manobras contra o PT manipulando a crise de Santo André e a espionagem
ilegal da polícia federal contra Lula, coroam este quadro de maquinações.
Não bastasse esta pantomima, intervêm os outros
protagonistas, bem mais potentes e arrogantes, os especuladores internacionais,
as empresas de “consultoria”, os “magos” das finanças internacionais
e as grandes instituições e o estado-maior dos países do “primeiro
mundo”, especulando abertamente sobre a sorte de toda uma nação, apostando
milhões de dólares contra ou a favor de alguns candidatos, como numa corrida
de cavalos, ou investindo no “dopping” daquele que jamais teria chance de
ganhar, para assegurar, por todos os meios e mesmo os mais truculentos, a
continuidade, a conservação, ou seja, a vassalagem dominante que conduz uma
grande nação, das mais ricas em recursos do Planeta Terra, à mendicância e
à miséria, à alta posição nos “rankings” mundiais de desigualdades
sociais, desemprego e pobreza.
Mas por outro lado o imperialismo mostra todo o seu
descontrole, na própria sede, com os escândalos financeiros sucessivos,
primeiro da Enron, e agora da WorldCom e da Xerox: não são acidentes, são o
reflexo profundo da bomba-relógio derivada da financeirização da economia, e
da debilidade estrutural da economia capitalista a nível global, que nenhuma
farsa de “terrorismo” pode cobrir. Todos sabiam da falsificação dos balanços,
mas o próprio sistema necessitava deles para mostrar ao mundo estabilidade e
solidez. Na economia, isso não dura eternamente. A supremacia político-militar
dos EUA, a chantagem derivada do “terrorismo”, e as iniciativas guerreiras
constantes não conseguem cobrir este quadro.
Todos falam dos perigos da “argentinização”, esvaziando
esta expressão do seu real significado. Não foi a “má aplicação” das lições
do neoliberalismo, nem muito menos a “incompetência” dos seus políticos, o
que levou a Argentina ao desastre. Foi justamente a aplicação pontual, precisa
e obediente das receitas do FMI que conduziu, anos após ano, o país à condição
de colônia onde a crônica dos nossos dias já fala em pobres obrigados a comer
ratos. E no Brasil? Considerando a “massa crítica” bem superior dos
recursos naturais e do parque industrial, tais receitas tiveram seus efeitos
atenuados. Os “retoques” ao modelo suicida como o câmbio mais flexível,
apenas atenuaram o processo, mas não há que esquecer que o povo brasileiro tem
lutado, resistido a este modelo, talvez em melhores condições que o argentino.
Não foi com certeza mérito do bando Malan, FHC & Cia,
mas de uma certa resistência interna à colonização, inclusive de parte de
alguns setores empresariais e das chamadas “classes médias”, espantadas com
o empobrecimento inerente ao modelo da globalização capitalista. E também da
evidência gritante do fracasso do capitalismo na Argentina. Os movimentos
populares no Brasil, neste contexto, não estão derrotados, há um certo
ativismo sindical, há o MST com suas iniciativas constantes, há uma vitalidade
política e social ainda incólumes, apesar de toda a máquina de propaganda
conformista.
A menor reação dos movimentos sociais na Argentina na década
passada deve-se provavelmente à geração dizimada pela ditadura, à natureza
contraditória do peronismo que deu falsas esperanças e num certo sentido
atrelou os trabalhadores e boa parte da opinião pública progressista daquele
país ao carro dos aventureiros e piratas do tipo Domingos Cavallo e Menem, que
terminaram por exterminar o que este movimento ainda simbolicamente ou
socialmente possuía de progressista.
E o nosso “peronismo”? Até onde pode atrelar os
movimentos em nome de ideais de igualdade e justiça social, para provavelmente
deixá-los pelo caminho frente às primeiras dificuldades promovidas pelos
grandes capitalistas, pela oligarquia agrária ou aquela financeira? Este
provavelmente seja o maior desafio.
Sem dúvida na América Latina ocorrem fenômenos novos, a
começar da própria Argentina, com a constante mobilização dos mais variados
setores sociais, que conduzirão num determinado momento a um nível de organização
política: é difícil imaginar um estado de estagnação ou conformismo, frente
ao agravar-se da crise do capitalismo, no seu aspecto mais brutal que é o
desemprego e a miséria de grandes massas. Na Bolívia e no Paraguai tem havido
constantes mobilizações; no Chile, no Uruguai, não há nenhuma paz social. No
Perú o governo de Toledo foi derrotado nos seus projetos de privatização; na
Venezuela a contra-revolução foi transitoriamente derrotada pelas massas que
restituíram o governo a Chavez. No Paraguai, uma enorme mobilização de
massas, puxada por decididos
movimentos camponeses, fez o governo recuar e suspender seu projeto de privatizações
entreguistas.
O que surpreende é que estas condições existentes,
inclusive o crescimento em escala mundial do movimento anti-globalização,
anti-neoliberalismo, portanto, favoráveis aos ventos das políticas
oposicionistas ao fracasso neoliberal, ao invés de estimularem
o PT a afirmar um programa de transformações sociais,
tem levado Lula a um rebaixamento de seu discurso que o faz aproximar-se
dos discursos dos demais. Todos concordam que irão manter os contratos, os
acordos da dívida externa, o superávit primário o que significa dizer que os
indecentes privilégios do capital
financeiro, dos banqueiros e especuladores serão deixados intactos. Os
dirigentes petistas tentam convencer-se de que este discurso moderado de Lula é
apenas uma tática para chegar ao poder. Apesar das concessões tão
importantes, a burguesia não as considera suficientes a nível de decidir-se
pela cooptação da candidatura do Lula. A hostilidade que se prepara contra a
candidatura de Lula já pode ser percebida. Nem Fiesp, nem a CNI, nem a CNA,
muito menos a UDR, ou o especulador George Soros (que apóia alguns petistas
como Cristóvam Buarque), se deixaram levar pela moderação do discurso de
Lula. E por outro lado, no campo popular, as pesquisas que são escondidas da
sociedade, revelam que a grande maioria ainda não tem candidato,
indicando que esta liderança de Lula nas pesquisas refere-se a um setor
minoritário da população que já fez sua opção.
A campanha eleitoral na tv ainda não começou, a direita ainda não se
organizou o suficiente para impor sua artilharia pesada e sua derrama de
dinheiro para comprar o voto do povo pobre e desorganizado, que está fora do
alcance do PT e dos sindicatos que já não têm mais a mobilização como
prioridade.
Ainda há tempo o suficiente para mudar o rumo da política do
PT. Um exemplo é a repercussão positiva que um programa da prefeitura de São
Paulo já está causando, pelo
simples anúncio da distribuição de uniformes, material escolar, merenda e até
transporte que atingirá 1 milhão de estudantes das escolas públicas
paulistanas. Trata-se programa baseado em ação do poder público (de cunho
estatizante), contrariando concepções políticas mercadológicas e avessas à
estatização que estão ganhando espaço no PT hoje.
Posições políticas como a de Genoíno ,
favorecendo os oligopólios que produzem sementes transgênicas, ou
afirmando que convocará a oligarquia para definir uma “reforma agrária viável”
, contrariam até mesmos as várias pesquisas que indicam ser uma grande maioria
da população contrária ao uso de alimentos transgênicos e favoráveis à
reforma agrária, sem contar que trata-se de uma bandeira histórica, sem a qual
nenhum país pode resolver seus problemas de miséria, fome e desemprego.
A predominância
das posições moderadas na campanha do PT e a imposição da aliança com o PL
provavelmente provocará o afastamento da militância que é sempre o grande
diferencial do PT e da esquerda em relação às demais candidaturas sustentadas
pelo poder econômico. E pode provocar também um aumento do número de votos
nulos, em branco e da abstenção, tal como tem ocorrido em vários países onde
a esquerda rebaixa seu programa político aos níveis aceitáveis pelo modelo
vigente. É preciso refletir sobre o significado crítico da abstenção que
cresceu na França, superando os votos na direita; a esquerda foi a que mais
perdeu. Na Argentina, a oposição ganhou eleitoralmente e foi varrida do poder
porque simplesmente o modelo neoliberal é ingovernável, a não ser pelo
rebaixamento do país ao nível de uma colônia, inclusive com a entrega de
território, como já pleiteia o imperialismo.
A esses dois exemplos o PT tem como alternativa o exemplo de
Hugo Chavez que não tinha sequer partido, e derrotou o imperialismo, as
oligarquias locais, a mídia, os partidos tradicionais, mobilizando o povo em
torno de um programa e uma política de transformações, de justiça social, de
defesa dos interesses da maioria explorada. Graças a isto, as massas pobres se
mobilizaram por conta própria e derrotaram o golpe imperialista que em Abril
tentou derrubar o governo eleito democraticamente.
Nas eleições anteriores, mesmo na de 1989, a candidatura
Lula não conseguiu transpor o cerco e comunicar-se com as massas exploradas,
sem partido, sem sindicato, sem emprego, sem carteira assinada, sem direitos.
Infelizmente, Collor, sim, chegou até uma parte delas com seu populismo.
E são elas sempre o fator decisivo para ganhar uma eleição. De que
modo será possível sensibilizá-las defendendo o superávit primário, a
manutenção dos contratos e da regra do jogo, a não prioridade no
fortalecimento da ação do estado, da reestatização
ou a secundarização da reforma agrária se essas massas pobres são
exatamente as principais vítimas destas políticas?
Como ganhá-las sem uma militância aguerrida, convicta e sem um programa
de comunicação direta contendo propostas que mudem a regra do jogo de exploração
e miséria, que quebrem os contratos que as mantêm no desemprego, no
analfabetismo, nas favelas e as empurram para o desespero e para a
criminalidade?
A iniciativa de correntes da esquerda católica, junto com o
MST e intelectuais ligados às lutas populares para lançar um jornal nacional de massas indica uma lacuna
deixada pelo PT e CUT que até hoje não se decidiram por uma imprensa popular.
Indica ainda a necessidade de uma organização política independente das
massas e que setores importantes da esquerda estão aprendendo com o mundo,
tirando lições sobre a diluição da esquerda exatamente quando o
neoliberalismo exibe seu fracasso.
Lula é o candidato que tem história e autoridade para rechaçar
com toda a veemência e indignação a ingerência aberta e descarada do poder
econômico-financeiro internacional nas eleições brasileiras. Querem
substituir e anular o direito de voto dos brasileiros.
Se as eleições nacionais não são o momento para dar um novo grito de
independência, que só será verdadeiro se vier acompanhado de um programa de
transformações sociais para tirar o Brasil do atraso, quando será?