
A
guerra e a eliminação mundial do sistema capitalista
J.
Posadas
6 de dezembro de 1979
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Apresentação Republicamos
este texto de J. Posadas pela consistência científica de suas análises
e pela previsão de um processo inexorável – comprovado a olhos vistos
nos últimos acontecimentos nos Estados Unidos, e antes, na Iugoslávia e
no Iraque – de preparação de guerra por parte do imperialismo contra a
humanidade e contra o que resta das estruturas dos países socialistas.
Embora os acontecimentos desde 1991, quando da queda da Urss, tenham
estabelecido uma mudança nas relações de forças mundiais, seja do
ponto de vista estrutural como do ponto de vista da política ofensiva da
direção soviética e de outros países socialistas do Leste Europeu, o
capitalismo não tem podido deter o seu processo de crise econômica e
social, de recessão, de perda de base social, desenvolvendo no seu seio
os germens da sua destruição, a rebelião das forças produtivas, já
previstas por Marx, confluindo numa monstruosa corrida aos armamentos à
guerra contra a humanidade.
J. Posadas havia caracterizado a natureza da guerra na próxima
etapa, não mais como uma guerra de concorrência inter-capitalista
simplesmente, mas de sistema contra sistema, determinada pela existência
da Urss e vários países socialistas. Esse quadro mudou fundamentalmente
devido à desorganização daquilo que ele chamava sistema dos países
socialistas, permitindo ao imperialismo ações agressivas e mais
contundentes. Mas, apesar desse retrocesso os recentes acordos militares
entre a Rússia e a China, demonstram que a guerra contra o que resta de
socialismo nestes países
não está vencida, e que há algo permanentemente vivo nas
estruturas dos mesmos. O capitalismo não pode festejar sobre as destruições
dos bombardeios da Iugoslávia, e necessita continuar freneticamente sua
escalada militar,
porque, por outro lado, existe uma Cuba que não somente resiste,
como lança da tribuna do Fórum de Porto Alegre um chamado à
Internacional Comunista de Massas e a uma Frente Antiimperialista Mundial.
Estes são fatores importantes que estimulam o renascimento das lutas das
massas em todo o mundo e que dão um centro para enfrentar com um programa
anticapitalista todos as manobras e preparativos da guerra imperialista. Este texto é também um chamado à reflexão de muitas direções que se consideram revolucionárias que ao abandonar o programa das transformações sociais e reduzi-lo à contemplação da política do mal menor, da ilusão num capitalismo sorridente, desarmam politicamente as massas, permitindo que o capitalismo faça mais danos e ganhe prazos. Opor-se à guerra imperialista significa antes de tudo acabar com a ilusão da possibilidades de reformar o capitalismo, e abrir os olhos para a natureza guerreira inerente a ele e preparar-se de conseqüência com políticas de transformações sociais profundas, através de organismos de participação e decisão direta das massas, para que elas não se encontrem manietadas diante da guerra diária e a guerra final que o capitalismo já iniciou. |
Este é
um processo de inevitável preparação de guerra por parte do imperialismo, que
requer tempo, mas que pode eclodir a qualquer momento, porque a guerra não
depende da sua preparação militar, mas do desenvolvimento da crise social
mundial anticapitalista. E esta crise, de todo ponto de vista, vai derrotar o
capitalismo. O capitalismo entrará na guerra, prepara a guerra, em plena revolução.
Os
Partidos comunistas dos países capitalistas não discutem sobre isto. Os
Estados operários, têm parcialmente noção destes problemas. A guerra será
muito curta e a revolução, a explosão revolucionária mundial muito rápida.
Terminará com toda a Europa, a Ásia, a América Latina e parte da África
transformadas em Estado operário. Será todo um processo mundial de
desenvolvimento da revolução, ainda que não seja imediato.
O
imperialismo vê isto. Prepara a guerra não só pela crise econômica, mas
porque vê este processo. Ainda que não tivesse a crise econômica prepararia a
guerra da mesma forma. Está desencadeando-se um processo que derruba as
estruturas sociais do capitalismo. Os Partidos comunistas não estão
acostumados a pensar nisto. Tinham um pensamento idílico de persuadir os
capitalistas, de substitui-los ou anulá-los. Esse era o pensamento deles e
desenvolveram uma camada de conciliadores. A história não suporta isto porque
não pode avançar assim e o Estado operário ainda não tem a direção genuína;
sua direção é burocrática, mas se aproxima à necessidade (ainda que não a
expresse) e tenderá a se aproximar cada vez mais da necessidade, eliminando
aqueles que são um estorvo e uma perturbação a uma integração maior da
população com o Estado operário. Esse é o sentido da crítica de Breznev a vários
ministros soviéticos. Não é a crítica a um ladrão, mas a crítica a
elementos que separam a população dos planos do Estado operário, e das
conclusões que surgem destes planos.
O Estado operário, necessariamente, tem que preparar o
antagonismo histórico com o capitalismo. Isso surge naturalmente, a população
no Estado operário se educa no antagonismo com o sistema capitalista. Não com
as pessoas que vivem nos países capitalistas, mas com o sistema capitalista.
E foi assim mesmo na época de Stalin, com todas as suas limitações, apesar de
Stalin haver triturado o pensamento marxista e qualquer pensamento, ainda que
empiricamente dialético. Mas quem terminou triturada foi a burocracia soviética,
e o stalinismo, que é o aspecto assassino da burocracia. Enquanto que a
burocracia de hoje tem que impulsionar a revolução.
Hoje, a
União Soviética é o aliado natural do progresso, não um aliado
circunstancial simplesmente. Sua raiz e seu objetivo histórico determinam que
seja assim. Ainda não tem a compreensão, nem os interesses sociais necessários,
mas nem sequer opostos. Isso se verifica na nova Constituição soviética(1).
Os
Partidos comunistas não discutem nada disto, quando teria que ser uma preocupação
fundamental. Enquanto eles não discutem, a mãe de Carter declara que é
preciso matar Khomeini. E Breznev está dizendo aos ministros que eles estão
trabalhando para si mesmos enquanto a população necessita dispor de serviços
elementares.
Neste
processo tem uma importância muito grande a avaliação do significado da
classe operária representada pelos Estados operários, que são a forma de
expressão superior da classe operária. O Estado operário representa os
interesses históricos do futuro. O proletariado dos países capitalistas, sendo
importante, não os representa. O proletariado do Estado operário sim, porque
ele já tem o Estado operário. É ele que estimula a revolução mundial. Não
há discussão sobre isso nem nos Estados operários, nem nos Partido
comunistas.
De toda
forma, o proletariado dos países capitalistas é importante, porque é o centro
para impulsionar as lutas sociais destes países e para a preparar a derrubada
do capitalismo quando este lance a guerra.
Nós não
confiamos na força de um ou outro Partido comunista dos países capitalistas
– embora confiemos em que tem que se desenvolver uma reação como a que já
se inicia nos Partidos comunistas italiano – mas na força do proletariado dos
Estados operários, que é quem tem a autoridade frente ao mundo e não o alemão,
o italiano ou o francês. Sendo importante a função do proletariado destes países,
é o Estado operário, os Estados operários como tais, que incluem o
proletariado e toda a população, os que têm influência. A humanidade vê
neles uma direção, vê o proletariado na sua forma de direção mundial através
do Estado operário.
O
capitalismo não tem possibilidade de fazer retroceder a história e muito menos
a burocracia, porque já existe a inteligência; já existe a estrutura mundial
do conhecimento, das relações humanas, o conhecimento e a estrutura científica
e técnica. Podem destruir tudo o que existe de material, mas o conhecimento e a
segurança adquiridos, a organização, a homogeneidade e a coesão adquiridas
pela humanidade não podem ser destruidas.
O maio
de 1968 foi a expressão, numa etapa sem direção e com a resistência e a
oposição dos Partidos comunistas e socialistas, de uma enorme quantidade de
pessoas que se tornaram revolucionárias fora dos partidos comunistas e
socialista, e que ao não terem uma resposta programática nem uma direção política
para progredir se diluíram. Não foram vencidos, nem esmagados, nem obrigados a
retroceder, nem dissuadidos ou dissolvidos pela repressão capitalista, mas
limitados pela falta de direção política, de programa e de objetivos.
Não é
verdade que o Maio tenha terminado. O processo atual é um novo Maio e isto
significa que uma quantidade enorme de setores
não organizados em partidos operários, nem nos sindicatos, saem a lutar. Parte
deles são os ecologistas. A sociedade está madura para mudar. Parte deles são
os ecologistas. A sociedade está madura para mudar. Daí a urgência do
capitalismo para preparar a guerra. A sociedade está disposta a mudanças,
mudanças e mudanças.
O
imperialismo prepara a guerra nessas condições, encontrando resistência em
alguns países capitalistas, não ao uso da arma atômica em si contra os
Estados operários e o proletariado, mas por seu enfraquecimento como países
capitalistas na sua concorrência com os ianques, porque sentem que se debilitam
nesta concorrência. Estas são as contradições do sistema capitalista que não
existem nos Estados operários.
Entre a
China e a União Soviética não existe antagonismo nem contradição. O
problema é outro: a direção política. No sistema capitalista, ao invés, se
trata da estrutura de cada país que se choca com a outra. No Estado operário
é a direção, não a estrutura do país.
Apenas
comece, será muito rápida a mudança da direção chinesa. Na China se
produziram constantes mudanças de direção, passando pela época das “cem
flores” (2) e pelos enormes exageros da direção com respeito à colheita de
trigo que se havia realmente obtido. Ocorreram mudanças totais de direção por
falta de funcionamento e de estrutura como Partido. Tudo isso, porém, resultado
da burocracia soviética, não é resultado dos chineses; não é um mal chinês,
é um resultado da burocracia soviética, do estrangulamento, da pressão e da
imposição que a burocracia soviética fez sobre a China. A China dependia dela
para o fornecimento de armas, para a direção militar e tudo o que necessitava.
A
guerra vai ser um ato desesperado do capitalismo, que ainda tem os meios de lançá-la
devido aos erros dos Estados operários, aos interesses burocráticos de suas
direções, que não criaram a corrente comunista necessária. Os Partidos
comunistas dos países capitalistas, com suas limitações, são um resultado da
burocracia soviética, do stalinismo. Porém a guerra é o fim do capitalismo e
é preciso destacar isso para educar a pequeno burguesia, para ganhá-la e
preparar a classe operária, os Partidos comunistas, os cientistas, os técnicos
para a etapa da guerra e torná-la o mais curta e permitir a reanimação no
prazo mais breve possível.
Diferentemente
do que sucedeu em outras guerras, nas quais a revolução ocorria nas etapas
finais, esta agora vai se desenvolver imediatamente, porque os soviéticos vão
promovê-la e apóia-la. As condições não serão as que o imperialismo quer.
Por isso este busca fazer uma guerra relâmpago, percebe que não pode
manter-se. A guerra não vai ter o caráter que imaginam muitos dirigentes
comunistas, de desastre, na realidade vai significar a revolução rapidamente.
A revolução não vai demorar quatro anos como na guerra anterior, será muito
rápida. E além disso, o exército soviético e os Estados operários têm,
como parte de sua estratégia, o apoio das massas. E o proletariado dos Estados
Unidos não está submetido. O proletariado russo também parecia submetido e
tomou o poder. O proletariado norte-americano lê. Não tem vida política nem
sindical, mas está aprendendo.
O
capitalismo prepara a guerra, porém o mundo capitalista não pode determinar as
conseqüências da guerra. Ao contrário, são os Estados operários que estão
preparados. A guerra vai ser muito curta e
vai significar a destruição dos principais centros do sistema capitalista,
porque o capitalismo não terá força para reorganizar-se, enquanto que o
Estado operário fará isso naturalmente. Se na guerra anterior, sobe o impulso
da influência soviética metade da Europa se fez comunista, desta vez será
muito mais profundo. E na China esta direção será liquidada.
A
guerra de 1870 trouxe a Comuna de Paris; a de 1914 trouxe a União Soviética; a
guerra de 1939 trouxe vinte Estados operários; a guerra da Indochina trouxe três
Estados operários; e a guerra que o imperialismo prepara trará o fim do
capitalismo e da burocracia. Isso não é automático, mas esse é o programa da
história.
Por isso, o imperialismo que fazer algo fulminante, onde
intervenha todo o mundo. Percebe que não pode entrar numa guerra na qual sejam
vencedores os seus rivais capitalistas. Para o imperialismo não se trata
somente da União Soviética, mas também da Alemanha, do Japão e dos outros países
capitalistas. O que prevalece é o interesse de classe de enfrentar a União
Soviética, mas também existe a concorrência com os outros países
capitalistas.
Os mísseis
que os ianques querem instalar na Europa não modificam muito a situação.
Modificam, mas não muito. Os países europeus já têm mísseis que não alcançam
a URSS, mas alcançam os outros Estados operários. Agora vão instalar mísseis
que atingem a URSS. E vão obrigar a União Soviética a liquidar todos estes países
europeu o que é fácil porque já possuem mísseis para isso. O interesse do
imperialismo é de fazer com que os países capitalistas europeus paguem o custo
destes preparativos de guerra. Por isso a resistência dos europeus, como a
Alemanha que sentem que podem agüentar sem essas armas. Mas é limitado o que
podem agüentar impedindo o armamento, porque por sua vez sentem que como
capitalistas têm que enfrentar de toda forma os Estados operários. Isso vai
agudizar uma tendência no capitalismo europeu favorável a um maior
endurecimento das lutas contra os sindicatos, contra os partidos comunistas,
para ir preparando o aparato para a guerra.
Porém,
o capitalismo na sua insensatez, não vê a diferença: uma coisa é a guerra
entre os capitalistas e outra coisa é a guerra contra o Estado operário, na
qual, ainda que tomem medidas de repressão, não terão nenhum apoio e se
produzirão levantes muito mais rapidamente, porque o invadido se unirá ao
invasor. Na guerra, a União Soviética necessita como parte de sua estratégia,
unir-se às massas do país em que vai entrar. Já o fizeram antes com os alemães
e agora farão de forma muito superior.
As
burguesias européias querem os mísseis ianques para a defesa do seu interesse
como sistema capitalista alemão, italiano e dos outros países e não porque
queiram prestar um serviço aos ianques. As bases ianques na Europa existem não
só pelo interesse ianque, mas para defender o sistema capitalista europeu.
Os mísseis
na Europa vão ser controlados pelos ianques. Mas para controlar todo este
sistema, desde Nápoles até a Bélgica, necessitam de um instrumento com uma
coordenação que só é possível quando há confiança no regime. Não é uma
coordenação que possa ser conseguida só com a estrutura militar: requer a
confiança de que o que se faz está certo. Mas entre os ianques não existe
isso; a metade dos indivíduos que compõem o aparato desertarão. Não têm
nenhuma segurança, nem confiança. É gente que está aí por dinheiro, por
interesses, mas que tem o medo que lhe dá o interesse e a consciência que lhe
dá o medo. Enquanto que nos Estados operários isso não existe. Ceaucescu,
apesar de suas posições, teve que declarar no Congresso do Partido comunista
romeno que se atacam o Pacto de Varsóvia, a Romênia estará com ele. Tito também
terá que fazer a mesma coisa.
Muitos
dirigentes comunistas europeus sentem-se satisfeitos de que passaram “trinta
anos sem guerra”; e pensam que isto se deve à habilidade dos Partidos
comunistas. Mas não falam que igualmente houve guerras, aonde morreram milhões,
nem falam dos que morreram como conseqüência dos danos provocados pelo sistema
capitalista. Eles dizem isso porque na Europa não houve guerras, porque eles não
sofreram as conseqüências das guerras que ocorreram em outros lados. Estes
dirigentes acreditam que as pessoas têm medo da guerra. Mas é o imperialismo
que em primeiro lugar tem medo da guerra.
Estes
companheiros acreditam que foram eles que conseguiram evitar a guerra até
agora. Na realidade, são os Estados operários que impedem a guerra. O
capitalismo agüentou até hoje sem guerras, mas já não pode mais porque a
crise se aprofunda. E agora, junto com os preparativos de guerra, na Itália se
reduz o pagamento do auxílio-desemprego. Isto significa que o capitalismo se
prepara para defender-se do desemprego. Sente que se preparam grandes lutas e
prepara a guerra. Esse é o plano combinado do capitalismo: instalar os mísseis
e não pagar mais aos operários. A culpa pelo desemprego é do capitalismo, não
dos operários. Os operários não deixam de trabalhar porque queiram, mas
porque não lhes dão trabalho. Isso vai generalizar-se e na França esse
processo já se iniciou também; aí já começam a liquidar os operários
estrangeiros. Quando tomam tal medida, que em última instância lhes provoca
uma perda de votos, é porque preparam outra coisa: a guerra. Na cabeça dos
capitalistas existe esta conclusão. Como não podem lançá-la quando queiram,
nem como querem e sobretudo como sentem que é o seu fim, surgem temores, hesitação,
dúvidas e lentidão para dirigir este processo. Do contrário já teriam feito
a tempo este plano de armamentos.
O
capitalismo trata de buscar um equilíbrio na economia para se preparar para a
guerra. Sua crise avança, avança e aumenta a profundidade do processo
revolucionário. O imperialismo entra na guerra nas piores condições. Não tem
aliados no mundo. Em cada país capitalista aliado, o povo não é seu aliado.
(1) A propósito da Constituição soviética, aprovada
em maio de 1977, Posadas escreveu um trabalho intitulado “El progreso de las
luchas en el mundo y la constitución soviética”, de 3-6-77, publicado en
lingua espanhola.