
Carta aberta ao Fórum Social Mundial
A política de guerra do imperialismo norte-americano contra a
humanidade e a retomada da luta pelo socialismo, única via para
evitar a barbárie.
O Fórum Social Mundial FSM, dentro do eixo temático
"Poder político e ética na nova sociedade", busca
responder, entre outras, a seguinte pergunta: como mediar os
conflitos e construir a paz? Talvez seja este tema um dos mais
importantes da reunião. A conjuntura política internacional
está mostrando que há uma prioridade nas ações do
imperialismo norte-americano destinadas à preparação de uma
guerra contra a humanidade. Neste sentido, levar os participantes
do FSM a acreditar na possibilidade de uma convivência pacífica
com o imperialismo é desconhecer a própria essência do
capitalismo. É canalizar as várias iniciativas e esforços,
como esta importantíssima reunião, para uma falsa perspectiva.
O Fórum, ao receber a adesão de movimentos representativos de
vários países, conta com experiência acumulada e elementos
para constatar que é o próprio mecanismo de exploração
capitalista o responsável pela criação de uma verdadeira
guerra social permanente contra a vida dos povos. A violência
social provocada pela marginalidade, pela pobreza crescente, já
tem o alcance uma guerra civil desordenada, caótica e
completamente fora de controle. O número de mortos em chacinas
apenas na cidade de São Paulo supera os mortos na guerra do
Kossovo. Este estado de putrefação social não pode ser
enfrentado com soluções rotineiras abstratas dentro do
funcionamento normal do sistema capitalista, sendo exigidas
amplas e profundas medidas de transformação social que
reconheçam e garantam o direito à vida, ao trabalho, à casa,
à educação, não mais assegurados pelo capitalismo. Faz parte
fundamental desta lógica de funcionamento criminoso do
capitalismo internacionalmente, os exemplos contundentes da
ação violenta dos latifundiários e do governo brasileiro
contra os sem-terras, da ocupação militar colonialista de
Israel contra os palestinos, do genocídio imposto pelas
"democracias liberais" no Timor Leste, a repressão da
burguesia equatoriana contra os indígenas, o banho de sangue na
Colômbia, sem contar experiências históricas não tão
distantes, como as ditaduras da América Latina e tantas outras
que já demonstraram a natureza intrisecamente violenta do
capitalismo.
Como a confirmar esta característica, antes mesmo de tomar posse
na presidência dos EUA, Bush já faz ameaças claras ao conjunto
da humanidade ao sustentar que utilizará as forças militares
sempre que necessário para defender os interesses
norte-americanos em qualquer parte do mundo. Tanto sob o governo
"democrático" de Clinton, como sob governos
republicanos, a prioridade orçamentária, econômica e política
às ações de guerra foram e são uma expressão da própria
natureza imperialista dos EUA, indicando que acumulou
contradições de tal magnitude que a intensificação do
belicismo é uma "solução", um desdobramento normal
das contradições capitalistas.
São estas mesmas contradições que explicam em parte o
escândalo da contaminação de soldados da Otan face ao uso de
munições feitas com urânio empobrecido (radioativo) usadas na
guerra do Iraque, na Iugoslávia e muito provavelmente contra as
massas palestinas. Isso prova que por trás da hipócrita causa
da "guerra humanitária", apoiada até mesmo por
partidos comunistas, socialistas, social-democratas e ecologistas
europeus, estava a verdadeira limpeza étnica do imperialismo
contra todo o povo iugoslavo, inclusive os kossovares, indicando
que o capitalismo não tem o menor escrúpulo: mata até seus
próprios soldados para defender os interesses econômicos de
poder dos EUA e do grande capital mundial. Na realidade, já
existe uma guerra atômica em marcha, de modo ainda localizado.
Caem por terra muitas das justificações pacifistas que ainda
davam certo crédito ao argumento do poder nuclear dissuasório e
de que o imperialismo nunca usaria seus arsenais macabros para
não colocar em risco o planeta. É uma pequena cúpula
oligárquica irracional e insensível que domina a economia e a
sociedade, e que não hesitará em recorrer a todos os meios
criminosos para defender seus repugnantes privilégios erigidos
sobre a miséria mundial crescente!!!
As recentes eleições nos EUA revelam o modo de pensar desta
cúpula. Cai a máscara dos que se autodefiniam "campeões
da democracia", pois o próprio sistema eleitoral está
organizado para evitar que população decida, sobretudo a
população negra, hispânica, os trabalhadores e os milhões de
pobres que existem nos EUA. O voto indireto favorece os estados
ricos do norte, um "grande representante" de um estado
do norte, se elege com 150.000 votos; em troca, um "grande
representante" de um estado do sul, onde a população negra
e pobre tem mais peso, se elege com mais de 500.000 votos. Por
isto, mais da metade dos eleitores nem vota, nem se interessa por
política. A campanha eleitoral sequer discute os evidentes
planejamentos de guerra feitos pelo Pentágono, a serem cumpridos
qualquer que o presidente escolhido pelos altos círculos
financeiros, os que realmente "votam" nestas
"eleições".
O capitalismo mundial opera de um modo que conduz à guerra.
Amplia suas ações bélicas , mas não consegue aterrorizar os
povos em luta. Apesar da crise dos ex- Estados operários
socialistas, apesar do uso de armas radioativas, aí está o
exemplo da Intifada Palestina , particularmente das crianças e
dos jovens palestinos que enfrentam com pedras nas mãos um dos
mais bem armados exércitos do mundo, e, com sua vontade de luta,
são um exemplo que estimula a luta das massas de todo o mundo e
uma representação da dignidade humana. A humanidade já está
atravessando uma espécie de "charco atômico". A
degradação das condições de vida imposta pelo capitalismo
corresponde a uma guerra intermitente disfarçada em doses
reguladas e limitadas. Suas consequências atingem o planeta
inteiro: alimentos envenenados, contaminação ambiental,
populações pobres exterminadas por enfermidades perfeitamente
evitáveis, continentes inteiros (África) condenados à
destruição sob a forma de um genocídio planejado pelo
FMI/Banco Mundial . Mais de 2 bilhões de humanos vivem com menos
de 2 dólares/dia, metade da humanidade nunca usou telefone,
apenas 4 por cento têm internet e 80 por cento destes
concentram-se nos poucos países ricos. As dimensões do
"charco atômico", deste charco capitalista e suas
consequências para a humanidade não podem ser evitadas a
depender de maior ou menor convencimento do capitalismo para
corrigir-se, reformar-se, ou sendo convencido de que este
processo conduz também ao seu próprio desaparecimento.
O outro lado perverso deste processo é a financeirização da
economia. Nos últimos anos, os EUA emitiu o dólar sem lastro,
chegando à situação absurda, prevista apenas pelos economistas
marxistas, de existirem hoje no mundo cerca de 77 trilhões de
dólares em circulação enquanto o volume total estimado de bens
e produtos não supera os 26 trilhões de dólares. Ou seja o
capital especulativo se reproduz frenética e artificialmente,
sem qualquer correspondência com a produção. Enquanto a
acumulação do capital é estratosférica, bilhões de seres
humanos estão sendo excluídos do mercado de consumo de bens
essenciais, uma contradição insanável para o capitalismo. A
contrapartida da redução do mercado de consumo é o aumento dos
gastos na indústria de guerra.
Nunca a humanidade foi tão espoliada por um único país e os
EUA são o país com o maior déficit comercial do mundo. Depois
de provocar crises em países da Ásia, da América Latina, da
África, da Europa, a crise volta-se contra a grande potência.
Os indicadores já estão demonstrando o aprofundamento desta
crise. Quanto maior a crise, mais se gasta com a indústria
bélica e menos com medicamentos, água potável ou educação.
Os EUA persistem nos projetos do "escudo espacial" e a
pobreza aumenta em seu próprio território. As relativas
reduções de bases e tropas de infantaria são abundantemente
compensadas por investimentos em profissionalização militar e
alta tecnologia. Os países do Leste Europeu
"brindados" com a integração na OTAN têm que
investir porcentagens altíssimas do próprio PIB em compra de
armas ocidentais. Retoma-se com grande intensidade a chamada
"corrida armamentista".
As consequências desastrosas da desestruturação da URSS
A Revolução Russa de 1917 provou ao mundo que um país pode
sair dos níveis mais profundos de atraso sócio-econômico e
através da estatização dos setores chaves da economia, do
planejamento, do monopólio do comércio exterior, da
socialização da saúde e da educação, da reforma agrária, e
da participação das massas através de sovietes (mais tarde
deformados e abortados pelo estalinismo) , alcançar níveis dos
mais elevados no desenvolvimento técnico-científico, social ,
desportivo e cultural, num espaço de tempo histórico
relativamente curto. Mesmo sem ter podido desenvolver plenamente
as formas democráticas socialistas de participação e gestão
na economia, razão fundamental que tornou possível o retrocesso
e a desorganização da União Soviética no início dos anos 90.
Passados 10 anos da desestruturação da ex-URSS e da queda do
Muro de Berlim, povos e dirigentes de vários países do mundo
começam a tirar conclusões: ao contrário de dinamizar a
economia, fortalecer a concorrência, elevar os padrões de
consumo e desenvolver a sociedade, a privatização imposta pelo
FMI e as tentativas de reintrodução do capitalismo no Leste
Europeu mergulharam aquelas sociedades num processo de barbárie.
Hoje, 40 por cento dos russos vivem abaixo da linha da pobreza.
Máfias controlam os bancos, a comunicação, o tráfico de armas
e as grandes indústrias. A privatização apenas transferiu
riquezas colossais para camarilhas ligadas ao imperialismo, e
alguns de seus integrantes estão presos por atos ilícitos, como
o magnata da mídia russa. A produção econômica decaiu, os
serviços públicos de saúde, seguridade social, educação,
transportes, foram desmantelados cedendo lugar a uma lei do cão,
abandonando aposentados e trabalhadores á sua própria sorte,
depois de terem vivido mais de 70 anos com níveis crescentes de
proteção social, apesar das deformações burocráticas
stalinistas. Da URSS que foi a responsável fundamental pela
derrota do nazismo, que apoiou os movimentos de liberação
nacional, o Vietnã, Cuba, que lançou o Sputnik, passa-se hoje,
depois de 10 anos das reformas neoliberais, a uma Rússia do
arrocho salarial, do desemprego generalizado, da sucateamento da
indústria, do incremento da prostituição, da deliquência e do
crime organizado. Eis aí a modernidade neoliberal!
A guerra da Iugoslávia é um marco para que nos círculos
militares da antiga URSS e seguramente nos demais ex-estados
operários, consolide-se a constatação de que o desaparecimento
da função antes desempenhada pela ex-União Soviética fez o
mundo tornar-se mais injusto, submetido à prepotência do
imperialismo norte-americano e esmagado por uma política
econômica neoliberal que conduz a maior parte da humanidade à
barbárie social. Hoje, para grande parte da opinião pública
mundial fica cada vez mais evidente que a chamada "guerra
humanitária", organizada pela Otan, na realidade tinha como
objetivo destruir as estruturas do que restou do Estado operário
Iugoslavo conquistado pelas massas daquele país, sob a
liderança de Tito, através da vitória revolucionária contra
os nazistas na Segunda Guerra. Após a "guerra
humanitária", 300 mil sérvios e ciganos foram expulsos do
Kossovo (aumentando o número de refugiados sérvios para 2
milhões), todo o território Iugoslavo está contaminado por
radiações de urânio e a sua economia destruída, e sob o
predomínio de milícias e máfias "albanesas" a
serviço da Otan e da instabilidade política por esta fomentada,
que já preparam a próxima guerra. E mais: a OTAN agora ocupa
militarmente os Balcãs e coloniza o Kossovo.
O Produto Interno Bruto dos países ex-socialistas nos últimos
dez anos, de 1989 a 1999, baixou, na Bulgária em 14%, na Hungria
5%, na Letônia 41%, na Romênia 24%, na Lituânia 35%. Houve uma
"distribuição" de riquezas invertida, o que era
público passa às mãos de uma camarilha rica e corrupta,
desmantelando progressivamente uma estrutura estatal que , mesmo
sob deformações burocráticas, assegurou um nível de vida para
a população muito superior ao registrado na maioria dos países
do mundo e com um grau razoável de justiça social.
Todos os processos de desmantelamento político, social e
econômico dos ex-países socialistas foram precedidos ou
acompanhados por uma forte ingerência do Banco Mundial, do FMI e
de outras instituições do tipo, que com o acordo das camarilhas
governantes, procederam rapidamente o desmantelamento das
economias de tipo socialista, condição primária para qualquer
"ajuda" ocidental. Aqueles que ousaram opor-se
terminaram sob as bombas de urânio ou bárbaros embargos. O
resultado está sob os olhos de todos. A ingerência financeira
hoje, mais que em qualquer época, precede os bombardeios reais,
Opor-se ao FMI e à OMC, portanto, não é uma atitude
determinada por preconceito, mas pela visão clara sobre onde
conduz esta famigerada ingerência: liquidado o inimigo
"socialista", as chamadas "tempestades"
financeiras (provocadas e manipuladas) fizeram naufragar países
e quase continentes, mesmo do lado "ocidental". Falar
de guerra neste contexto não é nenhum exagero.
Dissolvem-se no Leste europeu as ilusões sobre suposta
colaboração com o imperialismo, substituídas pela consciência
de que a expansão militar é objetivo de todas estas ações
organizadas ou apoiadas pelo imperialismo, seja nos Balcãs ou na
Chechênia. E há ações concretas que demonstram uma mudança
de avaliação política no ex-estados operários quando as
tropas russas anteciparam-se e posicionaram-se no aeroporto de
Pristina, na Yugoslávia, frustrando uma investida da Otan contra
o exército sérvio que praticamente pode retirar-se intacto da
região. Naquele momento, o comandante das tropas da Otan,
general Clark, descontrolado, chegou a propor o uso de armas
nucleares contra os russos e foi demitido, demonstrando que a
alternativa nuclear está sempre presente nos círculos de
decisão da OTAN. Outro sinal importante de que no leste e na
Ásia há clareza das movimentações agressivas do imperialismo,
está no acordo militar firmado por Rússia, China, Cazaquistão,
Tagikistão e Uzbekistão, que estabelece uma reação conjunta
caso qualquer um deles seja agredido. Também sinalizam esta
mudança a decisão da Rússia de restabelecer uma ponte aérea
para o Iraque, enviando aviões com alimentos e remédios,
rompendo o bloqueio aéreo da Otan, bem como a visita de Putin a
Cuba, acompanhado de sete ministros, restabelecendo importantes
acordos econômicos rompidos na era Yeltsin. No caso o mais
importante é o significado político desta reaproximação
Rússia-Cuba e o que ela sinaliza para os EUA, já que do ponto
de vista econômico Cuba não possui tanta importância na esfera
internacional.
Neste contexto, o resgate simbólico do hino e da bandeira
soviética, por parte do governo e do exército russo tem um
significado importante, embora indireto e enviesado.
Aparentemente, isto não significa nada. Mas umas das medidas na
época da desestruturação da ex-URSS, por parte de Yeltsin, foi
a destruição dos seus símbolos. Símbolos que são resgatados
num momento importante. Num momento, em que as Forças Armadas
estão inconformadas com as versões do "acidente" do
submarino Kursk, sendo admitidas a ocorrência de um choque com
um submarino da Otan ou algum tipo de agressão.
A INVIABILIDADE DAS PROPOSTAS DE "DEMOCRATIZAÇÃO DA
GLOBALIZAÇÃO"
Todos estes fatos e acontecimentos são importantes para
desmistificar a política neoliberal e as estúpidas ilusões dos
que acreditavam no progresso via neoliberalismo, na panacéia da
solução dos problemas através do mercado, e reafirmam a
necessidade da defesa da estatização - abandonada por parte da
esquerda - da planificação, do monopólio do comércio
exterior, o controle operário da economia para dirigi-la ao
atendimento das necessidades das maiorias. Também é importante
que sejam discutidas as ilusões mesmo de correntes de esquerda
que apostam todas suas fichas exclusivamente na via parlamentar,
abandonando a tarefa da organização de massas e acreditando que
eleitoralmente poderão realizar as transformações de fundo. A
vergonhosa experiência da esquerda européia que mesmo tendo
postos nos governos terminou apoiando o criminoso massacre da
Otan na Iugoslávia serve de advertência veemente para os
partidos de esquerda que ensaiam a ida ao governo sem entretanto
uma ruptura com os inflexíveis limites da política neoliberal,
terminando por administrar o caos e oferecer mais fôlego ao
neoliberalismo, confundindo, dispersando e desorientando o
movimento de massas.
Esta discussão se faz ainda mais necessária à medida que se
percebe que nos movimentos sociais que compõe o Fórum
predominam setores avançados da pequena-burguesia que
radicalizam contra o neoliberalismo, sem entretanto desenvolver
uma relação política com a classe operária e com programas e
propostas anticapitalistas. Surgem assim inúmeras propostas
intermediárias para serem aplicadas no interior do capitalismo
mais desenvolvido, sejam as sustentadas pela corrente do Terceiro
Setor, dos que defendem os Bancos Éticos ou o Comércio
Ecosolidário que, apesar de bem intencionadas e de buscar o
rompimento parcial com o funcionamento capitalista, terminam
limitadas e absorvidas pelas leis do mercado controlado por
oligopólios. Isso sem mencionar que são formas alternativas de
produção que contam com mão de obra voluntária, sendo
portanto muito mais caras do que o expresso no preço, não
possuindo qualquer possibilidade de crescimento e de
competição, limitando-se ao abastecimento de pequenos nichos
sociais. Ora, essas alternativas são simplesmente descabidas e
inaplicáveis para a maioria dos países do terceiro mundo, onde
concentram-se a miséria e o desemprego crescentes. Nestes
países, é imperiosa uma ação transformadora baseada no
Estado, capaz de realizar a reforma agrária, de investir na
expansão da produção de bens essenciais à elevação das
condições de vida das massas excluídas, expandindo a
infra-estrutura e produzindo alimentos, roupas, móveis,
moradias, saneamento básico, sapatos, ou seja os bens
indispensáveis que o capitalismo sonega cada vez mais a grande
parte da humanidade. Esse objetivo não pode ser alcançado com
medidas alternativas que funcionam transitoria e parcialmente e
apenas no capitalismo desenvolvido. Mesmo assim porque não
ameaçam o seu funcionamento normal. No Terceiro Mundo há
enormes contingentes de famintos que não têm terra nem água
potável, comem com menos regularidade que os animais, não têm
eletricidade, estradas, moradias nem roupas ou meios de higiene
pessoal, etc. Sem um mercado interno desenvolvido e com o
desmonte do estado, a tendência será o agravamento da crise de
um modelo econômico funcionando para uma pequena minoria.
Internet, telefones celulares, carros, sempre para poucos! Nem
mesmo o cooperativismo de esquerda - já tentado na Europa na
década de 70 - pode representar uma alternativa numa realidade
econômica de extrema concentração, oligopolização,
endividamento crônico externo e interno, determinando a
retração produtiva. Produzir para quem?
Além da necessidade de uma relação mais organizada com o
movimento operário, camponês, o sindicalismo, as correntes que
integram o Fórum também devem considerar e buscar entendimento
com processos políticos que enfrentam o neoliberalismo, como é
o caso do Governo Hugo Chaves, na Venezuela. O governo Chaves é
o resultado de sucessivas insurreições das massas venezuelanas
após décadas de governos que dissiparam as enormes riquezas do
país na corrupção e no enriquecimento de camarilhas. Mostra
também o amadurecimento de correntes militares que vêem que o
imperialismo anula toda e qualquer perspectiva de desenvolvimento
nos padrões capitalistas. O governo Chavez reafirma a função
do Estado, mantém a defesa das estatizações, eleva
investimentos em educação e promove uma aliança de correntes
militares progressistas com os setores sociais mais penalizados
pelo capitalismo. Desenvolve também uma aliança
importantíssima com Cuba, selando acordos pelos quais fornece
petróleo à ilha caribenha a preços preferenciais que é pago
com o fornecimento de medicamentos, de profissionais de saúde,
professores e desportistas. Além disso, centenas de enfermos
pobres da Venezuela estão recebendo tratamento nos centros de
saúde cubanos gratuitamente. Hugo Chavez também propõe a
criação da Federação dos Países da América Latina, de uma
Agência Latino-americana de Comunicação e Informação para
enfrentar a ocupação audiovisual americana, propondo ainda a
integração econômica, de transportes, de produção
energética, cultural e política, para fazer frente à proposta
de dolarização e de rendição que o neoliberalismo prescreve
para todos estes países, a exemplo do que já ocorre no Equador.
A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA CUBANA
A Revolução Cubana segue o veio histórico da Revolução de
Outubro de 1917, o programa socialista, nacionalizando a terra,
estatizando a economia, planificando-a. Os resultados aí estão:
enquanto o Leste europeu vai retrocedendo em seus indicadores
sociais, Cuba obtém o reconhecimento mundial até mesmo de
organismos ligados a ONU que atestam o enorme progresso na
educação, na saúde, no esporte, na cultura, nas relações
humanas e nos indicadores de justiça social e distribuição de
renda. A comparação com qualquer país da América Latina,
mesmo os de economia de grande porte é fulminante. Cuba possui
uma das mais elevadas taxas de médicos por habitante, do mundo
enquanto que no Brasil há regiões inteiras que nunca se viu um
médico ou serviços de saúde. Enquanto que no Brasil - oitava
economia do mundo - milhões de crianças estão obrigatoriamente
no trabalho semi-escravo, outras vivem do lixo ou perambulando
nas ruas, outras exploradas na prostituição ou vendidas a
estrangeiros, em Cuba nenhuma criança trabalha, não há
crianças nas ruas ou nas prostituição, a mortalidade infantil
é inferior a de muitos países capitalistas desenvolvidos e
nenhuma escola ou posto de saúde foi fechado mesmo após o
desmantelamento da URSS. Enquanto no Brasil a diarréia e a
desnutrição crônica ainda são a pena de morte implacável e
de massa para as crianças; 250 mil nascem com hepatite B
anualmente, os indicadores sociais tendem à africanização,
Cuba oferece tratamento gratuito para centenas de crianças
contaminadas pelo desastre de Chernobyl, o país exporta vacinas,
médicos e professores para todo o Terceiro Mundo, inclusive para
o Brasil. Um país de modestos recursos naturais, mas que
rechaçou o receituário neoliberal e distribui com critérios
socialistas as conquistas de seu povo. Nesse sentido, Cuba é um
patrimônio da consciência revolucionária da humanidade!
Todo este elevado nível sócio-cultural só é possível num
país cercado pelo imperialismo, abandonado à sua sorte pela
ex-URSS e ainda tendo herdado o fardo de uma economia colonial e
não industrializada, porque foram mantidas as idéias
fundamentais de Che Guevara. Mais que uma figura lendária ou
mística, Guevara é sobretudo um exemplo moral e um programa
concreto de estatização, de planejamento da economia, de
monopólio do comércio exterior, de reforma agrária, de
internacionalismo proletário, compromissos inarredáveis de
Cuba, razão porque conta com o apoio esmagador de seu povo, que
não se furta ao desempenho de tarefas revolucionárias na
África, na América Latina ou onde for, sempre defendendo a
causa do socialismo! Esta é uma experiência fundamental a ser
discutida neste Fórum, pois prova que há sim alternativas ao
neoliberalismo, através do programa de transformações sociais
anticapitalistas!
O Fórum Social Mundial pode ser mais que um novo espaço
internacional de discussão de todos os que se contrapõem às
políticas neoliberais. Também é preciso que sejam examinadas e
adotadas ações organizativas a nível internacional que
permitam a generalização das experiências de luta de todos os
povos, que permitam a organização de ações decididas contra
os planos do imperialismo. É preciso que sejam organizadas
ações de solidariedade concreta à luta do povo palestino
contra a colonização militar israelense, ou em apoio à luta do
povo timorense para ter o direito de dispor de suas riquezas
naturais abundantes (petróleo/gás) livres dos bloqueios que
estão sendo erguidos pela ONU em nome de políticas neoliberais,
tendendo a transformar o Timor Leste em apenas mais uma colônia.
É preciso portanto a adoção de medidas para uma articulação
estável internacional, com instâncias organizadas, com a troca
regular de experiências e organização de ações de massa, É
preciso uma imprensa ou mecanismos de informação massivos que
desenvolvam a politização e o debate de propostas
anticapitalistas, chamando a participação das centrais
sindicais, dos movimentos camponeses, das correntes religiosas de
esquerda, dos intelectuais, artistas e pensadores, dos militares
nacionalistas que a cada dia percebem a expansão das operações
militares imperialistas pelo mundo e também dos países e
governos como de Cuba, Venezuela, Vietnã, Líbia, África do Sul
e dos partidos e movimentos progressistas de todo o mundo.
Pode-se utilizar todas as tribunas internacionais, os acordos
parlamentares, os fóruns, etc, mas é imprescindível a ação
organizada e revolucionária dos movimentos de massa com um
programa de transformações sociais. Sem jamais perder de vista
que "a história de todas as sociedades existentes até hoje
é a história da luta de classes" e que uma organização
em níveis superiores políticos e programáticos deste Fórum
provocará reações ainda mais perversas da parte do
imperialismo, para o que há que preparar-se a nível
internacional!
Jornal Revolução Socialista (posadista)
Porto Alegre, 25 de janeiro de 2001