
A
reunião do G-8 e a contra manifestação do Gênova Social Forum
300
mil manifestantes representando a vontade de luta contra a globalização
encurralam os “poderosos da terra”
Durante cinco dias a cidade de Gênova na Itália se transformou num importante centro político, não pela presença da gang dos governantes dos países mais ricos da terra, mas pela concentração da criatividade, da cultura, da ciência e da vontade de mudança que mais de 300 mil pessoas trouxeram de várias parte do mundo. Participaram representações da América Latina, da África, da Ásia, delegações de todos os partidos comunistas da Europa, do MST e do PT do Brasil, dos principais sindicatos italianos como o COBAS do setor público, diversas representações locais da CGIL, da FIOM (Federação Italiana dos Operários Metalúrgicos). Uma característica importante dos acontecimentos de Gênova foi a enorme participação da juventude, inspirando o renascer de um novo 68 combinada com uma predominante participação organizativa do partido da Refundação Comunista.
A reação violenta da policia italiana que atuou em coordenação com a cúpula repressiva do resto da Europa e com os serviços secretos da OTAN e da CIA, tratou de intimidar e impedir que o movimento desse um novo salto de crescimento desde Seatle a agora. Golpearam de todos os modos, seja através da campanha através da midia tratando de caracterizar falsamente o movimento do Global Forum como violento, seja concretamente através da repressão dos bastões e das armas de fogo que levaram ao assassinato do jovem Carlos Giuliani. Apesar dos chamados posteriores do presidente da República Ciampi para ¨parar a violência¨, seguida pela cúpula do DS (Democráticos de Esquerda, força política principal do ex-governo) para suspender a mobilização, muitos militantes de base e os manifestantes de todo o país não se intimidaram e vieram em massa no último dia programado. Não foi somente uma demonstração de rebeldia e coragem da juventude, mas da saturação de uma necessidade de lutas que se acumulam e amadurecem desde Seatle, Praga, Porto Alegre, Nice, Gotemburgo a Gênova, de resistir à dinâmica destrutiva da globalização da exploração capitalista, da política de concentração do poder econômico que disfarçado de ¨livre comércio¨, saqueia e esparge com o câncer neoliberal das privatizações apagões não só da energia elétrica, mas da energia vital de milhões de vidas humanas.
Nos primórdios de Seatle, prevalecia ainda uma relação com parte da burguesia mundial, onde até Clinton dizia de dar-lhe ouvidos. Em Porto Alegre, o movimento aprofundou a discussão e as propostas adquiriram um perfil mais anticapitalista, abertas a uma influência da presença de Cuba, do MST, dos partidos comunistas y parte de setores da esquerda mais combativos do mundo. Não há que olvidar a presença do argelino Ben Bella chamando a derrubar o capitalismo e do ministro cubano Alarcon propondo uma Internacional antiimperialista de massas como o nível mais importante alcançado no interior desse movimento. Gênova deu a possibilidade de pô-lo em contato com a tradição comunista da Itália, apesar da capitulação de boa parte das direções dos velhos partidos comunistas no processo posterior à crise na Urss. Um elemento muito importante em Gênova foi a função organizativa do partido da Refundação Comunista com a proposta lançada dois meses atrás de Bertinotti: ¨é essencial por em contato este movimento contra a globalização com o movimento operário¨. O papel dos quadros políticos, sindicais e da juventude comunista da Refundação Comunista foi fundamental para tratar de impulsionar uma perspectiva de classe e anticapitalista nos debates e nas mobilizações. Foi muito importante também a ativa participação do sindicato através da FIOM, que está em luta pela renovação do contrato nacional. Uma participação discutida e decidida em várias assembléias de base, com a participação dos dirigentes do Gênova Social Forum em todas as manifestações dos metalúrgicos durante a greve geral de 9 de julho. Esta representou um grande êxito organizativo e no qual afiaram as suas primeiras armas uma vanguarda operária juvenil muito decidida sindical e politicamente.
A jaula dentro da qual se reuniram os do G8, o cordão policial e militar com o qual se protegeram demonstram as condições de pressão social muito desfavoráveis nas quais a grande burguesia tem que governar; sem contar a sua desmoralização completa, como representantes de um regime que com toda exuberância do aparato não tem nada mais que oferecer que uma proposta sobre o AIDS. O único projeto que os conduz adiante e em unanimidade é a preparação da guerra: aumentam suas inversões em novas armas e preparam criminosos para serem utilizados, como os infiltrados provocadores pseudo-anarquistas do chamado Bloco Negro, aos personagens macabros que desencadearam repressões e torturas violentas. Bush não pode renunciar ao seu programa do escudo espacial anti-mísseis, nem Berlusconi não tem nada mais a oferecer que a repressão. As ações violentas da repressão às greves e às manifestações contra o apagão em Brasília e no Paraná são parte da mesma conduta de classe. É verdade que os grandes potentes do mundo se reuniram em clandestinidade e na defensiva, mas Gênova demonstra também o caráter de classe feroz da burguesia mundial, e que não há vias pacíficas para uma transformação social anticapitalista. É o fim também da ilusão dos que esperaram de uma política defensiva do mal-menor, do que ¨é possível¨, de que alguns governos europeus chamados de centro-esquerda fossem realmente social-democráticos e que oferecessem alguma garantia, quando na realidade tiraram do povo, o que a forças mais conservadoras queriam tirar, abrindo-lhes o terreno para uma vitória eleitoral e para uma instalação oficial, de fato, com todos seus bastões. Da mesma forma, que o lamento demagógico de Dalema contra um estado de golpe à chilena feita por Berlusconi nos acontecimentos de Gênova não se justifica senão através de uma reflexão e crítica profunda contra o neo-liberismo que abriu a porta a essa dura repressão: participar com a Otan nos bombardeios da Iugoslávia, privatizar ramos da saúde, privilegiar os setores privados da educação, golpes à aposentadoria, submeter-se aos ditames do FMI e Banca Mundial, etc.. Allende fez um governo que estatizou, golpeou os interesses vitais das multinacionais, deu voz e contou com os comunistas e perdeu milhares de combatentes que defendiam estas conquistas. Não se pode renunciar à manifestação e depois dizer que Gênova foi um ¨Missing¨. Vale também uma reflexão para alguns dirigentes do PT quando declaram como Tarso Genro em Gênova de que ¨o FMI pode ser condicionado¨. As experiências não bem sucedidas dos governos chamados de esquerda da Europa, onde a burguesia teria mais poder para condicionar, demonstram onde leva essa ilusão.
Chamamos a uma campanha mundial em toda Europa de apoio à luta dos metalúrgicos italianos, como ponto de encontro com um movimento que questiona a centralização do mercado, da especulação financeira, da flexibilidade no sistema de contratação, como motores da economia. A unificação entre o movimento operário, a luta dos desempregados, dos emigrados, dos ecologistas e dos movimentos contra a guerra da Otan dentro de uma perspectiva que aponte a transformação anticapitalista é o único caminho para um ¨outro mundo possível¨. Há uma série de propostas programáticas e experiências que podem unificar as várias forças componentes neste movimento anti-globalização: a oposição à Otan e pela redução dos gastos em armas e ao escudo espacial, a Tobin tax, a cancelação das dívidas dos países pobres, contra a contaminação do planeta e as epidemias, pela eliminação dos royalties, e a favor das distintas formas de economia social (como o comércio equo e solidário, o Banco Ético). Mas, é preciso criar dentro leque de movimento, uma corrente de idéias que conduza a lutas e à perspectiva que foge às possibilidades e às intenções do capitalismo globalmente, junto a uma planificação econômica em função do bem estar de toda a população e o seu pleno controle da produção. Discutir os elementos que conduziram à crise na Urss e nos países socialistas, os seus erros burocráticos e não estruturais da economia, a falta de um Partido de massas plenamente ativo, centralizado e democrático ao mesmo tempo; e discutir Cuba, que resiste e se mantém a si e a tantas populações dos países pobres do mundo, com vacinas, médicos, educadores, demonstrando a solidez da organização econômica e social dos países socialistas. China e Vietnã também estão presentes.
O movimento anti-globalização não deve
reduzir-se somente às manifestações, mas a encontros para debate, discussão
de todos estes temas. Não se pode reduzir a construção do movimento ao debate
sobre ¨violência¨ ou ¨não violência¨. É preciso discutir um programa de
lutas que unifique todas as forças dentro de uma Frente única antiimperialista
e organize independentemente uma Internacional Comunista e antiimperialista de
massas. Essa é a base para discutir um novo mundo possível. E que ele não
é tão novo, já tem suas raízes numa experiência feita pela humanidade a
partir de 1917, e deixou frutos como Cuba que tem a segurança de representá-lo
e contribuir para impulsionar uma articulação mundial de todas as forças do
mundo. De Seatle, Gênova ao 2o. Forum de Porto Alegre é preciso continuar
discutindo todas estas experiências e elevar este movimento dentro de uma
perspectiva anticapitalista que é a única via para continuá-lo e evitar
que se disperse entre o seguidismo e o sectarismo.