Declaração ao Forum Social Mundial 2002:

 

A guerra imperialista no Afeganistão e as perspectivas do movimento anti-globalização capitalista

 

Há um ano apresentamos documento no Fórum Social Mundial de Porto Alegre que começava com as seguintes palavras:

 “O FSM – dentro do eixo temático “Poder político e ética na nova sociedade” busca responder, entre outras, à seguinte pergunta: como mediar os conflitos e construir a paz? Talvez seja este tema um dos mais importantes da reunião. A conjuntura política internacional está mostrando que há uma prioridade nas ações do imperialismo norte-americano destinadas à preparação de uma guerra contra a humanidade. Neste sentido, levar os participantes do FSM a acreditar na possibilidade de uma convivência pacífica com o imperialismo é desconhecer a própria essência do capitalismo. É canalizar as várias iniciativas e esforços, como esta importantíssima reunião, para uma falsa perspectiva. “

 Os fatos ocorridos após o FSM de 2001 confirmaram de maneira trágica e eloqüente esta análise.  

A começar pela trajetória dos movimentos anti-globalização, a sua agenda repleta de iniciativas, quase todas cobertas de sangue pela repressão promovida pelas grandes potências e seus representantes. Já na repressão da manifestação de Gênova na Itália, pelas suas características brutais e absolutamente inadmissíveis pelos padrões até então observados na “democracia” européia, se via o curso que conduziria à atual guerra imperialista no Afeganistão. A ruptura dos mentores do G-8 mesmo com as mais moderadas tendências críticas ao capitalismo mostrou-se total. Naquele momento falava-se mesmo de uma “cooptação” do movimento anti-globalização, na criação de canais de diálogo e talvez formas de incorporação da crítica para “aperfeiçoar” o sistema e corrigir seus desvios. A realidade desmentiu estas pias ilusões, e por várias razões. 

Primeiro porque no próprio âmbito do G-8 não surgiu qualquer idéia ou proposta, mínima que fosse, que respondesse às reivindicações não só do movimento mas da maioria da humanidade oprimida. Segundo porque o próprio sistema capitalista continuava sua trajetória de crise recessiva brutal, o que negava qualquer possibilidade de respiro aos projetos reformistas e intermediários, docificantes da globalização. O resultado foi que a única “providência” dos máximos representantes do sistema foi a de promover reuniões menos numerosas, menos rumorosas e possivelmente em lugares inacessíveis para qualquer manifestante.  

Os indicadores econômicos da super-potência USA continuaram a cair, caracterizando a plena recessão que assola aquela economia e o sistema capitalista no seu conjunto. Mais de um milhão e meio de postos de trabalho foram perdidos em 2001 naquele país, o que é um pequeno reflexo das consequências desta crise nos outros países dependentes. Não tardou em surgir a resposta, lógica e natural neste sistema, de relançar a economia da guerra, para dar uma saída para a crise dos mercados “civís”.

O terrorismo, os atentados de setembro nos Estados Unidos, como já analisamos oportunamente, qualquer que tenha sido o mecanismo acionado para que fossem efetuados, responde de cheio à esta lógica de um sistema encurralado, sem saídas nem perspectivas e a sua tentativa de sair da crise por meio da militarização e expansão imperialista.  

Muito se teorizou na última década do século que passou sobre a hegemonia dos EUA, Japão e Europa, sobre o mundo “unipolar” que teoricamente dava carta branca para a expansão capitalista. A derrota do “inimigo socialista” teria dado ao capitalismo um poder de fogo tal que sua vitória deveria ser avassaladora. No pior sentido da palavra sim, a devastação social, ambiental e política promovida por este sistema teve efeitos globais assustadores, reduzindo países outrora ricos em miseráveis, e os já miseráveis em excluídos da vida, como a maior parte dos países africanos e grande parte dos ex-países socialistas. Com reflexos ativos no “ocidente” civilizado e no ceifamento das conquistas sociais na Europa.

 Mas a esta “obra prima civilizatória” deveria ter correspondido algum tipo de elemento de compensação, progresso nos indicadores econômicos, científicos, culturais, na riqueza global, ou em algo que justificasse tão amarga hegemonia. Ou quanto menos uma capacidade de expansão tal do sistema, que pudesse manter os milhões de marginalizados na ilusão de algum dia poder participar do banquete, esquema que normalmente funcionava para algumas nações emergentes da periferia capitalista.

 Nada disso foi ofertado. Ao contrário, o sistema, confirmando as mais clássicas previsões de Carlos Marx, debate-se numa colossal crise de superprodução e redução de mercados. Os mais sofisticados mecanismos de auto-controle financeiro, a grande potência destes colossais meios derivados da financeirização  não foram capazes de neutralizar esta verdade elementar: o sistema não se expande, mas ao contrário se retrai, cai sobre si mesmo. Vive num balão de oxigênio, pronto a explodir.  

Este é o tema ao qual chamamos o Fórum Social de 2002 a debater com ênfase: a globalização, enquanto instrumento de expansão do capitalismo e do imperialismo, não pode ter outra “face”. A única globalização benéfica possível é a planificação dos recursos da humanidade em função do seu progresso, e isto só se pode obter pela via do socialismo. 

 Há centenas de exemplos que indicam este caminho. Os países que, de fato, romperam com as políticas ditadas pelo imperialismo - ou sempre a ela resistiram - como a China e a Rússia, Cuba ou outros, foram os únicos que obtiveram algum indicador de crescimento e expansão econômica ou social. A idéia do socialismo nestes países evidentemente é ofuscada por reformas de tipo capitalista, e pela absoluta ausência de direções ou governos com a intenção de retomar declaradamente a experiência socialista. Tais países simplesmente resistiram à assimilação do capitalismo ou restringiram o seu raio de ação. Por isso volta a crescer a importância do Estado, da planificação, da racionalidade na economia. No caso da China, a evidência crescente de que a via capitalista conduz a desastres sempre estimulou a defesa preponderande de elementos de socialismo na economia e na sociedade. Cuba é um baluarte à parte, e consegue, dentro da sua pequenez econômica, manter com vida um exemplo evidente dos benefícios sociais que o socialismo pode propiciar. Nem mesmo o ingresso da China e da Rússia na OMC mudam este quadro: a diplomacia destes dois países procura tirar proveito das dificuldades do sistema de mercado no seu conjunto. Quem vai condicionar quem? Depende das relações de forças. A Rússia pôde decretar um calote para o FMI porque tinha uma base militar e econômica notáveis. E uma crise social interna que poderia ter representado um grande perigo para o capitalismo, devido à conclusão generalizada em todos os ex-países socialistas de que “antes se estava melhor”. O capitalismo num dado momento apontou para a colonização e o esmagamento da ex-Urss mas isto, ao contrário do esperado, fez com que nestes países a crítica ao capitalismo e ao “mercado” aumentasse.

 Chamamos todos os participantes ao FSM-2002 a debater estes temas, analisar pacatamente estas experiências.

 É verdade que na ex-Urss a experiência socialista ainda parece soterrada sob os escombros. Ainda comandam camarilhas privadas, máfias e burocracias estatais potentes, e o capitalismo ocidental tem canais de penetração muito profundos na economia, nos negócios, nas forças militares, na cultura, na comunicação, na gestão dos poderes locais. Mas em aspectos essenciais a Rússia e seus aliados tem apresentado iniciativas diferenciadas do imperialismo. O “idílio” entre Putin e Bush é só aparente e não muito diferente daquele entre os governantes dos EUA na época da URSS. As armas atômicas continuam reciprocamente apontadas, e eventualmente se deslocam da Rússia para a China, as armas convencionais continuam sendo aperfeiçoadas, produzidas e vendidas aos respectivos aliados.

 Porque ocorre isto? Porque o problema não é somente militar nem econômico, há um poderoso condicionante que é a consciência humana, do que o próprio FSM é um reflexo importante. A humanidade, na desgraça da revanche do capitalismo contra as conquistas sociais que ainda continua (basta recordar a tentativa em curso de apagar do mapa a CLT no Brasil, mas tantos e inúmeros exemplos), reage, cria momentos de reflexão e crítica, mas não só, retoma com força as lutas, a resistência, o embate social.

 No mundo não há paz social. Há movimentos, das mais diversas características e composição social, que crescentemente se opõem ao capitalismo, ao mercado, à injustiça social, aos danos ambientais, ao retrocesso da cultura, do conhecimento, que resistem contra a falácia do “mercado” e às iniquidades sociais e discriminações de mil maneiras. No seio do próprio movimento No-Global aumenta a convicção que não existem meias-medidas e que o embate deve ser frontal contra o capitalismo. Se há na memória humana recente um exemplo de racionalidade e progresso social, esta é a experiência socialista, do início do século passado até os nossos dias. Somente a formação aristocrática de uma parte da intelectualidade anti-globalização e a composição heterogênea deste movimento explicam as resistências a debater sobre o socialismo.  

Mas somente as lutas sociais verdadeiras, como as que ocorrem em todos os países, as rebeliões populares na Argentina, Bolívia, Equador, Peru, em vários países da Europa, do Leste Europeu, nos países árabes - onde o conflito social aparece unido a questões de libertação nacional e aos focos de guerra mantidos pelo imperialismo, na África e na Ásia enfim, em todo o mundo onde a luta de classes prossegue e aumenta, somente estas lutas podem inspirar e guiar a intelectualidade, os sindicatos, os movimentos políticos e populares, e o próprio FSM a adotar uma postura mais programática e científica, no sentido de, estabelecida uma plataforma pelas transformações sociais, lutar para construir uma ferramenta, uma nova Internacional Comunista de massas que possa guiar e unificar os povos mundo de maneira efetiva, orgânica, imbatível – única hipótese racional de enfrentamento contra a barbárie capitalista em curso. Esta foi a proposta forte apresentada pelo representante cubano na reunião do FSM de 2001, e foi abertamente ignorada pelos diversos comitês que o mantiveram em vida até o presente. Pois a História está a mostrar que esta proposta é imprescindível.

 Os atentados aos EUA e a guerra imperialista  no Afeganistão

 Muitos movimentos e setores intelectuais importantes como Noan Chomsky, corroboraram a nossa convicção que os atos terroristas nas torres gêmeas de Nova Iorque contra o Pentágono fossem auto-atentados. e com argumentações brilhantes. A situação de recessão, o perigo de uma queda de consenso, a necessidade de revitalizar o complexo militar (do qual o governo Bush é expressão orgânica), e de dar uma saída a qualquer custo para a economia decadente, e ao mesmo tempo de prevenir-se contra a perda da hegemonia no cenário internacional do ponto de vista militar, petrolífero, de mercados, etc., um complexo de causas aos quais nós agregamos com ênfase o perigo potencial - para o capitalismo - de uma retomada da luta pelo socialismo, todo este conjunto conduz à lógica do auto-atentado.  

Os ataques de Pearl Harbour, e o chamado incidente do Golfo de Tonquim, precederam as intervenções dos EUA na 2a. Guerra Mundial e no Vietnã. Quando a guerra para o sistema torna-se uma necessidade imperativa, encontra-se o pretexto, o motivo forte, o impacto de opinião pública que a justifique. A autoria “árabe” do atentado, ainda por se demonstrar, não altera o seu mecanismo interno, dado o volume de cumplicidades necessário para efetuar semelhante ação no território USA. A sucessiva histeria em torno do Anthrax e a comprovada origem interna dos atentados indica com mais força este caminho de análise. Muito foi dito e escrito sobre isto: um punhado de fanáticos não é capaz de realizar operações tão profundas e bem coordenadas. E mesmo que o fossem, houve forças e interesses nos aparelhos de segurança dos EUA que os permitiram atuar. 

Não fossem os sintomas que precederam a crise, nos bastariam simplesmente as evidências pós-atentados: a rapidez e eficácia com as quais se pôs em marcha a máquina bélica, se injetaram recursos no complexo industrial-militar, se produziram leis e regulamentos restritivos às liberdades democráticas, e se fez tábula rasa da legalidade internacional atropelando tudo e todos, para se chegar ao campo de batalha “globalizado” tudo isso mostra que tudo formava parte de um cenário já previsto quase em seus mínimos detalhes.

 Tudo conduz a uma sequências de ações que seriam “diabólicas” em termos literários mas são espantosamente “racionais” na crise capitalista deste início de século. Bin Laden e os Talibã, subprodutos da própria máquina capitalista com indelével marca USA, super-especializada em guerras sujas, passam a ser protagonistas com jogo próprio.  Nada mais estranho. Fracassada a intervenção contra a Rússia via a Tchetchênia, fracassado o domínio via Talibãs, passa-se à ação direta: mãos livres às novas rotas do petróleo, largo às bases nas barbas da China, viva a pirataria internacional declarada (quem não é nosso amigo é nosso inimigo, reitera Bush, apontando o dedo para o Irã).  E se os eventuais aliados-fantoches locais não responderem aos ditames, serão bombardeados como o foram os próprios representantes da chamada Aliança do Norte, não muito contentes pelo apoio dos “libertadores” americanos. Já não estamos mais na época em que a diplomacia britânica favorecia uma casta local contra a outra, numa distribuição equitativa de canhonaços e benevolências de parte da Sua Majestade a Rainha. Naquela fase havia certo interesse na existência de governos, fantoches sempre, mas de qualquer modo organizações estatais estruturadas, que zelassem pelos interesses imperialistas na zona. Hoje o imperialismo já não pensa em “governos”, mas num comando direto, por isso tudo atropela e destrói, não lhe interessa a “sociologia” nem a composição étnica, nem muito menos uma aparência de desenvolvimento local. A rapidez dos negócios e da estratégia imperialista na era da globalização não o permite. Não há outra explicação para a destruição dos meios de sobrevivência civís como pontes, hospitais, depósitos de alimentos, escolas, monumentos, estações de tratamento de águas e esgotos, primeiro no Iraque, depois na Iugoslávia e agora no Afeganistão.

Somente os mais ingênuos podem ainda insistir na tese do “terrorismo” como justificação para uma ação militar indiscriminada deste tipo. O que se quer tapar é o verdadeiro fracasso do sistema em oferecer respostas de progresso à humanidade, e continuar a reduzir países inteiros à barbárie. Esta é a verdadeira finalidade da guerra atual. Ao agir assim, o imperialismo está gerando milhões de inimigos potenciais. Provavelmente este seja justamente o objetivo principal perseguido, e a casta dominante nos EUA tem consciência disso: envolver o “Ocidente” numa nova Cruzada contra a perspectiva de qualquer processo de libertação nacional ou social no mundo. Ou para o ajuste final de contas com a Rússia e com a China.

 Chamamos a que se discuta sobre este tema neste Forum Social, sem o que este não teria qualquer sentido: a guerra imperialista e os seus motivos. Chamamos a que se votem condenações e repúdios às ações dos EUA no mundo, que se rechace a este “direito” de matar a 4 mil pessoas num país já miserável por uma suposta “represália” de fatos que não foram nem demonstrados nem explicados.

 A repressão ao povo Palestino

 Da mesma maneira chamamos os participantes do FSM-2002 a condenar a repressão do Estado de Israel contra o povo palestino. O terror continua solto na Palestina, e é um terror de Estado, aplicado por Israel com o aval pleno do capitalismo internacional.  Este é o fascismo desta época, e o mundo capitalista cala e consente que se aniquile o já tão penoso acordo que submetia os palestinos à hegemonia e à escravidão sob o Estado de Israel, e que se queira reduzir um povo digno e altaneiro como o palestino à vegetar e à renunciar à própria existência.

Aqui não se trata de “terrorismo” do Hamas ou de qualquer outro movimento radical, a raiz de tudo são os direitos espoliados da maneira mais odiosa por parte do braço armado do imperialismo na região, que é o estado de Israel. Nem mais nem menos. Se um povo oprimido e massacrado reage e se surgem movimentos radicais ou suicidas, esta é sempre a consequência e jamais a causa ou o pretexto que seja da repressão. Basta ver a desproporção de meios entre as partes. Por isto entre os Palestinos se recrutam estas crianças e jovens, que cada vez em maior número querem ser heróis ou mártires: a causa da dignidade, da libertação nacional, se combina com uma aspiração de progresso inquestionável.  

O ciclo de provocações, desconhecimento dos acordos e repressão foi iniciado conscientemente por Israel e com o aval do imperialismo USA que está aplicando a mesma “receita” na guerra contra o Afeganistão e o seu povo, e que já anuncia a extensão do conflito ao Irã, ao Iraque, à Somália. Qualquer que seja o pretexto, o imperialismo necessita da guerra. Esta é a conclusão e deve ser um eixo da preocupação deste Fórum, pois tanta energia, tanta consciência dos problemas da globalização não podem ofuscar estas questões fundamentais, das quais dependem todas as outras.  

Falar do “outro mundo possível” sem enfrentar estas questões é falar no vazio. Outro mundo é possível sim, se se derrota o imperialismo, se se criam instrumentos eficazes para parar a sua mão assassina, se se retoma a via do socialismo e das transformações sociais em favor das massas oprimidas. Agora mesmo, o imperialismo evidentemente prepara uma escalation de repressão na Colômbia, com os pretextos mais descarados, e o presidente já pediu “autorização” para usar as armas fornecidas “para combater o narcotráfico”, como se alguém um dia tivesse acreditado nisso. Significa que já chegou a hora do ajuste de contas com a América Latina.

O fracasso do capitalismo na Argentina e suas consequências na América Latina.

 Também a situação na Argentina aponta para um ajuste de contas, apesar de toda a confusão política e a desorganização das camadas populares, a falta de autênticas lideranças e com idéias claras. Neste caso foi o próprio capitalismo, tendo levado ao paroxismo a aplicação do “modelo” ultraliberal, que conseguiu reduzir à ruínas uma nação que gozava de uma certa prosperidade no contexto dos países em desenvolvimento, embora sempre na esfera capitalista.

Qualquer que seja a saída imediata para a Argentina, está aberta a discussão sobre o papel do Estado, sobre a necessidade da planificação econômica, sobre a necessidade do controle da população sobre todos os recursos nacionais, sobre a importância da soberania nacional, da participação social, das transformações sociais. Claro está que esta passará por toda a crítica histórica ao movimento peronista e as suas ramificações e degenerações, sobre o papel preponderantemente nefasto das velhas organizações sindicais, sobre o heroísmo de uma juventude que não se dobrou frente às repressões e que hoje se move para reconstruir o que parecia impossível, uma nova unidade de lutas populares, plataformas de lutas pela ruptura com o modelo neoliberal e de submissão ao imperialismo. E também uma discussão sobre a “nova” social-democracia do pós-Urss que na Europa, no Brasil, na Argentina, em todas as partes, sob o manto das idéias socialistas “não-ortodoxas” aplicou lealmente as políticas neoliberais da pior espécie. A Argentina e o fracasso do Governo De La Rua soterra definitivamente a hipótese de uma “terceira via” frente ao neoliberalismo.

 Dizemos isto porque no seio do FSM há uma forte corrente de “progressistas” desta espécie, que são os que mais resistem à abertura de uma discussão sobre o socialismo.

 Por exemplo, frente à Venezuela, sobre a qual apresentamos artigo específico no jornal Revolução Socialista,  muitos setores chamados progressistas ou de esquerdas expressam muitas ambiguidades. A Venezuela está sob o ataque do imperialismo, das oligarquias tradicionais, da burguesia urbana. Não há empresariado que queira aceitar o governo progressista, que afinal das contas ainda não expropriou nada das grandes fortunas, nem tomou medidas profundas de reforma agrária nem de justiça social profunda; os problemas foram enunciados, as leis foram feitas, os instrumentos existem mas nada foi feito, além do que é simbólico, mesmo que significativo como a relação com Cuba: o governo Chavez está no dilema de tomar medidas efetivas para reduzir as desigualdades sociais ou sucumbir. A conspiração imperialista está em plena marcha, e a máquina da mídia internacional não faz outra coisa que bombardeá-lo com munição pesada, inclusive a brasileira.  Isto por muito pouco, nada fez Chavez se comparado com Cuba. O perigo é potencial, mas que real. A verdade é que os povos de toda a América Latina estão buscando saídas, do Equador à Bolívia, da Argentina ao Brasil, tratando de construir legítimas lideranças, novos movimentos, novas plataformas que superem os impasses e traições do passado. E empurram para frente todo e qualquer movimento que se apresente disposto à luta, a enfrentar o neoliberalismo. Militar ou não militar, o governo de Chavez usa a retórica bolivariana e fala o que as massas querem ouvir. Mas somente Cuba tornou realidade as idéias de Bolívar, e as superou.

Unificar a América Latina, combater a idéia da ALCA, fortalecer a união entre os povos latino-americanos, eis uma das tarefas fundamentais deste Fórum Social Mundial.