A agudização da guerra imperialista

e a resistência na Palestina

  

A agressão criminosa de Sharon a Arafat e ao povo palestino em Gaza e Cisjordânia são uma demonstração de que saltaram todos os espaços para acordos ou coexistências pacíficas na crise do Oriente Médio. O capitalismo entra de maneira bestial no terreno da guerra total não somente porque busca os interesses econômicos que o nutrem, mas porque se estão esgotando todas as soluções das contradições que se acumulam: da Argentina, Venezuela, Colômbia à África e às potentes manifestações anti-globalização no mundo, sustenta­dos por uma Cuba que resiste, pela China e Russia que marcam ainda presença, o Oriente Médio é um barril social explosivo onde as massas ameaçam a ruptura de to­dos os acordos que façam as direções reacionárias de seus países.

É preciso homenagear a heróica resistência da Intifada e das massas palestinas que em todas as suas ações concentram a decisão de luta de toda a humanidade contra a barbárie colonialista de Israel e a ação guerreira imperialista de Bush. Os atentados de 11 de setembro foram utilizados para promulgar uma terrível mentira: a repartição do mundo em terroristas e não terroristas e abafar o enorme abismo entre o mundo dos ricos e dos pobres. Em nome da luta ao chamado “terrorismo” invadiram o Afeganistão, armaram Sharon para lançar o massacre na Palestina, fizeram a intentona na Venezuela e se preparam para invadir o Iraque. Mas, a Intifada não se deixou intimidar pela comparação infame com o terrorismo. É absurdo atribuir a palavra terrorismo às ações heróicas de jovens, homens e mulheres-bombas  que não encontram outras armas, além das pedras  e do próprio corpo para reagir à prepotência e ao verdadeiro terrorismo dos tanques e mísseis israelenses. E não são suicidas “kamikases” porque estes homens-bombas sacrificam suas vidas para dar esperanças de vida aos seus filhos, irmãos, e porque não tem nada mais a perder que anos de prisão e repressão nos campos ocupados. O suicida é passivo, se entrega à morte, aos mísseis que caem sobre a cabeça e as casas, não reage e transmite mensagem de morte. O que não quer dizer que transformar o corpo em arma seja a solução, mas é uma interpretação justa que deve honrar o sentimento revolu­cionário de um inteiro povo. Segundo um jornalista aí presente, as crianças palestinas expressam vitalidade, alegria, cordialidade, comunicação, inteligência que asseguram a sua saúde psíquica. Atrás de cada pedra que atiram existe um gesto de libertação e um programa de luta anti-colonialista e por transformações sociais.

Esta ação dos israelenses vai ser um “boomerang” desastroso para o interior do seu país e também para o imperialismo. Por isso, existem alguns setores do imperialismo que buscam conter com a ida de Powel para pressionar a direita de Israel e negociar com Arafat e Sharon. Israel não tem um peso econômico, nem social, apenas militar; é um capataz do imperialismo que por sua vez teme perder o controle da situação, não somente porque quer ser protagonista da situação, por cima da própria ONU, mas porque a situação no Oriente Médio pode fugir-lhe do controle, com o exacerbar do nacionalismo revolucionário árabe onde as direções burguesas podem ser superadas. Além de grandes manifestações das massas árabes, a reaproximação Síria-Iraque, e a reação ofensiva de Sadan Hussein que sob a mira do próximo ataque de guerra dos ianques, se lança a acudir o povo palestino com o lançamento do corte das exportações de petróleo. A Líbia e o Irã são aliados em potencial que ameaçam estabelecer esta grande frente antimperialista contra a qual combatem as mesmas forças contra-revolucionárias que intentaram o golpe contra Chávez na Venezuela. A Arábia Saudita se negou a ceder seu território para atacar o Iraque; os russos já romperam o embargo restabelecendo voos com Bagdá, junto com a França.  Assad declarou que não há possibilidades de acordo com Israel e moveu tropas para a fronteira . Kadafi na frente de uma grande mobilização em Trípoli anuncia que há voluntários líbicos dispostos a lutar junto aos palestinos. No Marrocos, houve manifestações permanentes, sem repressão, culminando até em 500 mil pessoas. No Irã houve manifestação de milhões. Se somam a isso as dezenas de manifestações em todas as capitais da Europa em solidariedade aos palestinos, os 2 milhões nas ruas de Roma, dando continuidade à onda das lutas anteriores contra a globalização capitalista, pesando na indecisão que move um setor do imperialismo para lançar a guerra total.

A luta do povo palestino está movendo forças revolucionárias em todo o mundo e atraindo ao exercício de uma frente-única contra a guerra e a brutalidade capitalista. Em caravanas e delegações, jovens europeus viajam constantemente aos territórios ocupados, interpondo-se entre os soldados israelenses e a população, vigiando os check-point e lutando para passar feridos, doentes, mulheres grávidas. Aí participam jovens belgas, alemães, franceses e italianos. Existem exemplos comoventes como o de Morgantini, deputada italiana comunista do parlamento europeu, colocando-se em primeira linha diante dos soldados israelenses, fazendo-se de escudo humano.

Neste processo é preciso considerar que a saída para a questão palestina não é um Estado palestino, mas uma Federação Revolucionária dos Países do Médio Oriente, que unifique a luta do conjunto das massas árabes contra a direção burguesa de Israel e também dos países árabes. Isso não significa desconsiderar a tradição burguesa nacionalista, desde Nasser no Egito às correntes existentes na Arábia Saudita e no Kuwait. Mas, é preciso impulsionar uma direção que inclua os palestinos, a esquerda libanesa, a esquerda dos partidos baatistas da Síria, as correntes antimperialistas iranianas, os comunistas e a esquerda israelense, os Estados revolucionários como a Líbia e o Iraque por uma solução única: a Federação revolucionária, socia­lista, na perspectiva de um Estado operário, com a auto­determinação de nacionalidades, religiões, mas sob uma centralização produtiva, econômica e social. A intenção de liquidar a Arafat, mostra o esgotamento da coexistência pacífica e também a superação da perspectiva de uma Estado palestino, da luta pela simples demarcação de território, sem ir até as últimas consequências na luta anti-capitalista, contra Israel, os sheiks e magnatas do petróleo. Reiteramos aqui uma análise feita por J. Posadas sobre o Estado Palestino. “Não existe possibilidade para um desen­volvimento, nem da Palestina, nem da Jordânia, nem da Líbia, nem da Síria, nenhuma possililidade nem como países independentes. É preciso desenvolver análises e textos levando à conclusão sobre a etapa na qual se dá este processo, porque senão termina-se apoiando em senti­mentos patrióticos, religiosos, nacionalistas árabes e a coisa morre aí. Não somos contra o Estado palestino, mas é preciso explicar a que deve servir. Se é para fazer uma “grande pátria”, já não tem sentido; sobretudo, esperar isso de um grande deserto, do qual lhe darão as piores terras. Pode-se, mesmo assim, utilizar a reinvidicação como um meio de desenvolver um centro de unidade de luta das massas árabes, para buscar a unificação com as massas israelenses contra o sistema capitalista. Isso não pode ser feito através do Estado Palestino, tem que contar com outros países árabes. Isso deve ser claro. Haverá uma resistência porque alguns dirigentes o propõem com um sentimento patriótico completamente sem sentido, desacompanhado de um programa para resolver o problema do baixo nível de vida das massas, como se a pátria fosse resolver tudo. A pátria não lhes dá nada, lhes dá uma “Arizona”.”

Dentro desta ótica é preciso dar importância à luta das massas dentro de Israel. Houve um crescimento enorme de soldados rasos e reservistas que se recusam a servir nos territórios ocupados. Há muitas greves, manifestações, blocos de estrada. Entre movi­mentos pacifistas israelenses tem-se manifestado o chamado Novo Perfil dirigido por Jeff Halper e a Aliança Nacional Democrática por Hazmi Bishar que propõem uma frente entre os palestinos dos territórios ocupados e os do Estado de Israel. “A repressão sangrenta no ano passado contra os árabes estabe­lecidos no Norte e os nomades beduínos do Sul, com 13 manifestantes mortos na Galiléia, junto à resposta da Intifada estreitou os laços entre os cidadãos de segunda categoria árabes de Israel e os palestinos de Gaza e Cisjordania. E o que é importante é que reforçaram-se também a ligação política e de cooperação entre os palestinos do interior dos territórios ocupados e os refugiados no Líbano, leigos e islâmicos, e com os Hezbollah, vitoriosos sobre as forças de ocupação israelense e que os governos da Síria, Líbano e até da União Europeia se recusaram a incluir na lista das organizações terroristas que os EUA queriam.” (Revista Ernesto, Italia)

Vale citar alguns comentários de Fulvio Grimaldi, jornalista comunista italiano, sobre a crise econômica de Israel que demonstra o gigante de pés de barro que se esconde por trás deste Golias que é Israel. “A falência evidente se documenta através da redução da metade do fluxo turístico (principal fonte de entradas da economia israeliana), do boicote em muitos países dos produtos israelenses, da fuga de 20% dos colonos dos assentamentos e do grande número de casas novas que permanecem vazias, da redução de 25% da imigração, do colapso da construção civil desprovida dos seus 250.000 operários palestinos, da fuga de capital e dos investimentos caídos à metade. Tudo isto determinou um verdadeiro efeito bomba sobre a economia israelense e portanto a coesão da sociedade num sinal de racismo anti-palestino. Israel passa pela primeira recessão desde 1953. Pela primeira vez o crescimento caiu, chegando abaixo de zero: 1,4% em relação a 2000 (o PIB a menos de 0,5% em 2002, mas também menos 5,3% na segunda metade do ano). A bolsa de Tel Aviv perdeu 9,3% num ano. Uma situação definida “desastrosa”  pelo ex-ministro da fazenda Avraham Shochat com riscos de empeoramento nos próximos meses. A produção industrial decaiu de 2,1% (10,5% para os setores hightech e da construção), enquanto os serviços e comércio desceram de 1,4% em relação a um aumento de 19,4% antes da Intifada.. E para coroar esta pior crise desde a guerra do canal do Suez, estão os dados sobre o desemprego; 7,6% em 1997, 9% em 2001. A publicação destes dados provocou um fato inédito no parlamento israelense: a não aprovação do orçamento, adoção de medida provisória, sinal de uma infeliz gestão de um Estado ao borde do colapso devido às privatizações e despesas militares, apesar de toda a injeção anual de 3 bilhões de dólares do FMI. A militarização de Israel dá medo: generais ou oficiais dirigem as instituições, o governo, os maiores partidos, a mais importante empresa, o sistema escolar.”

Enquanto isso, no interior dos territórios ocupados a resistência palestina conta com uma organização de 14 grupos políticos na direção da Intifada junto a associações, entes locais, comites contra a demolição e sindicatos. A agressividade desesperada de Sharon é porque não pode permitir que aí se desenvolvam tendências revolucionárias sobre as quais Arafat com sua política de conciliação perdeu totalmente o controle.

Neste processo é preciso analisar a participação da Russia. Apesar dos grandes retrocessos neste país após a investida de forças contra-revolucionárias pós-91, a sua estrutura social e econômica não foi destruída, e reage, de toda maneira, contra os objetivos que persegue o imperialismo ianque. Por isso a sua ruptura com o embargo ao Iraque, ao lado da China que recebe e dá apoio a Tarik Azis. Os acordos alcançados para atacar o Afeganistão são acordos com as direções políticas reacionárias, em base a con­cessões, créditos e espaços no mercado mundial, combinando com a disputa de território e a defesa das fronteiras russas. Mas, direções políticas como as de Putin são transitórias já que, por um lado o mercado mundial se concentra e assim reduz o que eles podem aproveitar aí e, por outro lado, a estrutura de seus próprios países, mesmo sem ser a do Estado operário como na época da Urss, não reproduz este tipo de direções, mas as do tipo mais próximas da necessidade de programar a economia e de enfrentar o imperialismo e o capitalismo mundial. Os ianques pactuam com chineses e russos, mas ao mesmo tempo projetam bases militares ao redor de suas fronteiras no Afeganistão, na Georgia, no Uzbekistan e continuam a armar os provo­cadores da Chechenia. Mas os russos levam uma luta contra Schevernadze que apoia a instalação das bases americanas na Georgia, e disputam com os ianques as bases militares e a distribuição das medalhas nas olimpíadas invernais realizadas nos EUA. A grande “coalisão global” em meio a este processo contraditório, não tem perspectiva e tende a explodir acirrada pela definição como sistema que lhes impõe a guerra imperialista e desesperada da sobrevivência capitalista: “Socialismo ou barbárie”, é o que se coloca na ordem dos acontecimentos; ou se está de uma parte, ou de outra. Mas, historicamente a humanidade só pode avançar ao socialismo, como já previu Marx.

É preciso fazer um chamado a que Cuba, China e Russia intervenham não somente para que Israel obedeça às resoluções da Onu, que aceitem tropas dos capacetes azuis, que responda às reivindicações da nova Carta da Intifada, que segundo Mustafa e Marwan Barghutti a Ramallah, máximos dirigentes da Intifada: fim da ocupação dos territórios conquistados em 1967, desman­telamento dos assentamentos, criação de um Estado soberano, Jerusalém, capital conjunta dos dois Estados, direito ao retorno ou indenização dos refugiados; mas que vá mais além, que impulsione a frente dos países árabes como o Iraque, Irã, Líbia e Síria junto à Venezuela no boicote às exportações de petróleo aos países capitalistas e que seja a base para estruturar a unificação das massas árabes na luta por uma Federação Revolucionária dos Países do Oriente Médio. A guerra sem quartel de Sharon contra os palestinos, desobedecendo os tímidos chamados da Onu, demonstra que o capitalismo não pode propor nenhum outro cenário que o da guerra atômica final entre capitalismo e socialismo, em todas as formas em que este se expresse. Os chamados países socialistas já sofreram um grande embate que foi a guerra na Iugoslávia. Não se pode iludir que a guerra ao Afeganistão, como na Palestina e ao Iraque se reduzam somente às questões locais, religiosas ou ao petróleo. O objetivo histórico é a destruição de todas as conquistas do que resta dos estados operários. E no olhar das crianças da palestinas, dos jovens e mulheres que se dispõem a morrer para viver, se resume a segurança histórica de toda a humanidade e um apelo à consciência e às  direções revolucionárias de todo o mundo de que um novo mundo é possível, mas que é preciso transformar, erradicar energicamente o capitalismo e construir o socialismo, sem o que não haverá paz.

 15 de Abril de 2002