
O
ascenso dos processos nacionalistas revolucionários do Peru e Equador e a
necessidade dos órgãos de classe e independente
26 de novembro de 1973 J. Posadas
As
recentes mobilizações vitoriosas contra as privatizações em Arequipa nos
chamam à atenção para o nível de consciência das massas peruanas alicerçados
no período nacionalista de Velasco Alvarado, e sobreviventes aos últimos anos
da brutal opressão neo-liberal capitalista. Este texto destaca a função das
estatizações
(abandonadas por algumas direções de esquerda) nas transformações
sociais. A Venezuela, por exemplo, não tem outro caminho a seguir, senão
estatizando e planificando a economia, como fez Cuba. É fundamental tirar lições
de governos nacionalistas e populares como a de Alvarado no Peru, de Torres na
Bolivia e Allende no Chile, para construir direções que logrem unir o programa
das transformações sociais, da defesa das estatizações, da reforma agrária
com a plena participação e poder da classe trabalhadora, para impedir qualquer
tentativa de golpe em processos como o venezuelano e em todos os outros que
surgirão em toda a América Latina. Pode-se ir ao governo, mas não ao poder
sem um Partido de Massas e a independência dos sindicatos e dos organismos
populares
O
governo peruano quer avançar no rumo do nacionalismo através da “propriedade
social”. É uma forma de buscar desenvolver a economia, associando o interesse
da classe trabalhadora; de impedir que o capitalismo se reforce e a burguesia se
reproduza como classe, consolidando o movimento operário. É preciso escrever
e analisar os problemas da propriedade privada, da Comunidade Industrial, da
propriedade social e estatizada. A função e a importância histórica dessas
formas de propriedade e os resultados concretos.
(...)
As formas de propriedade são fundamentais para a produção. Com a
“propriedade social” – como antes com a “Comunidade Industrial”
– podem melhorar a produção de
uma determinada fábrica, impedir o roubo, o desperdício. Porém, mesmo que
intervenham os operários, a única vantagem é a de que o custo de produção
será um pouco inferior; no resto, de toda forma tem
que competir com os demais; portanto, a apropriação é no interesse
dessa fábrica para a qual não importa como vão as demais. Não lhes interessa
como se coordena a matéria prima, a venda, a necessidade, o uso, a acumulação
do capital, a rentabilidade, mas sim como vai cada empresa. O desperdício é
generalizado, sem acumulação do capital porque cada empresa faz o que ela
quer. Cada um vai querer tirar a melhor vantagem à custa do outro. Como se
trata de um país que tem que competir no mundo, não tem a força, a matéria
prima como base para desenvolver a economia, é fundamental a estatização e a
planificação da economia. Planifica-se de acordo à capacidade, à necessidade,
à força que tem, e não de acordo à acumulação de uma ou outra fábrica
onde cada um trabalha sem se importar da outra. A planificação da produção não
é para ser realizar a equidade, a igualdade, mas é a forma necessária para
que a produção geral avance, bem como todo o país.
O
problema geral a ser resolvido é qual a forma de propriedade para fazer um
“Peru grande”. Grande significa que produz para toda a população, tendo em
conta que é um país eminentemente camponês e com um mercado consumidor muito
restrito. Para ser um grande mercado consumidor, necessita de uma grande produção
industrial. Mas, não há prazos para se fazer isso, nem os meios e as condições
com esta forma de propriedade. Em troca, expropriando e estatizando, o Estado,
tem tudo nas mãos para poder planificar a produção. Através da propriedade
social poderia planificar também, mas então, já ultrapassaria o grau de
propriedade social, e seria propriedade estatizada. Já não tem em conta o que
interessa a uma ou outra fábrica; já não são o pessoal, os administradores
da fábrica que decidem, mas o Estado centralizado.
É
preciso recorrer às experiências. Mesmo com todos os erros da União Soviética,
mesmo com a era stalinista, mesmo a China com todos os erros e a falta de
democracia soviética, é preciso recordar que a China passou em 24 anos de ser
um país oprimido pela fome, seca, inundações, matanças, e falta de alimento,
a exportar maquinarias e energia atômica. Nada mais que em 24 anos de
propriedade estatizada. A União Soviética, em 58 anos passou de ser o país
mais atrasado da Europa capitalista ao país mais adiantado do mundo depois dos
EUA. Em muitos aspectos, superiores aos EUA que é o país capitalista mais
desenvolvido. Apesar destes erros, destas limitações, da anulação da
democracia soviética, foi a propriedade estatizada, a planificação da produção
que levou a isto. O que é preciso melhorar então, é a planificação
centralizada e a intervenção democrática das massas.
O
problema da estatização, da planificação e da intervenção democrática das
massas são as três partes insubstituíveis do progresso da produção. A
democracia soviética compreende: o direito, a liberdade de discussão, a
planificação, a discussão pública de todos os problemas, inclusive a limitação
dos salários. Mesmo que se mantenha a diferença de salários, é preciso
limitar a brecha existente entre os salários mais altos e os mais baixos. Isto
desenvolve na população o sentimento de justiça, de compreensão, de resolução;
cria através da economia as bases para criar o sentimento de justiça, de
coletividade, que é a forma mais completa da chamada comunidade. Caso contrário,
existirá sempre esta diferença interior entre o operário que ganha mais, o
administrador, o planificador que tem interesse em produzir de maneira que ele
ganhe mais. O operário em geral não tem esse interesse, mas não decide. Então,
os que decidem, os planificadores que determinam a vida da fábrica o fazem de
acordo com o que lhes dê maior resultado: a forma de produzir, o quê produzir,
a forma de vender, a materialização do preço, tudo de acordo com o que lhes
convém. Não são todas as pessoas que podem decidir, porque elas não tem a
possibilidade de pesar e decidir. Não é necessário depender dos
administradores e dos planificadores. É verdade que é necessário planificar e
administrar com a participação de toda a fábrica. Portanto, é preciso
desenvolver na população os elementos de conhecimento cultural, político,
social e econômico para que intervenham e pesem os sindicatos, os operários,
os camponeses e os estudantes. É preciso elevar a função dos sindicatos, a
discussão nos sindicatos de todos estes problemas.
É
preciso fazer com que o exército intervenha como parte deste processo.
Atualmente isso não ocorre porque o exército tem uma ala reacionária que
espera para golpear. É necessário estruturar os sindicatos camponeses e operários
para esta finalidade; que o poder esteja nas mãos da população, seja através
do governo, seja através dos órgãos que apoiam o governo. É preciso que eles
exerçam a função de controle para impedir seja faltas, atentados, sabotagens
ou oposições a estes planos de desenvolvimento da economia.
A
necessidade do Partido de Massas e
da independência sindical,
de classe e revolucionária
O
problema difícil para os militares é que se vêem na necessidade de criar
um partido baseado nas massas, quando eles não têm nenhuma noção disso; têm
que apoiar-se no exército e tem uma ala do exército que está esperando para
golpear. Então, é preciso organizar os camponeses, e uma intensa atividade
cultural, revolucionária dos camponeses, dos operários, dos estudantes,
levando este programa. Enfrentar a todas as alas reacionárias do APRA que estão
esperando golpear o governo com o conto das greves, como as que fizeram no
Chile, com a greve da SUTEP (Sindicato dos professores) que é uma greve reacionária.
Apesar de que tenham reivindicações atendíveis, como o aumento de salários,
a finalidade é contra-revolucionária. É um tentativa de encontrar um motivo
para golpear o governo. Chamamos ao governo a responder a isso, dando plena
democracia aos operários, chamando os operários das fábricas, das minas, e os
camponeses que façam comícios e dêem a sua opinião. É preciso plena
democracia sindical. Se o governo não o fez ainda é porque não se sente com a
força e porque seu programa é ainda limitado. Nós o chamamos a que não
persista nesse erro, porque senão se limitará o desenvolvimento da economia.
Os Estados operários estão ajudando muito, mas podem ajudar muito mais.
A
independência dos sindicatos é a base essencial para dar ao movimento o
progresso da revolução nacionalista, a forma mais elevada possível. Porque a
outra forma é limitar a intervenção das massas, o controle e a ação dos
sindicatos e de manter a propriedade privada. Então, mantém-se a acumulação
do capital, o reinvestimento, o jogo normal da mais-valia, do
investimento-mercadoria-capital. Os
operários vêem isso. Estão vendo que apesar de um relativo progresso, há
ainda um enraizamento de interesses capitalistas. Por isso a resistência das
massas e dos estudantes a essa atitude. O problema não é somente
explicar-lhes, mas mostrar-lhes que o governo quer progredir não em benefício
de um setor ou outro do capitalismo, mas do povo. Seja no Equador, como no Peru,
é preciso ir a formas de estatização mais completas. As massas se verão
respondidas no seu sentimento de justiça e na forma de eliminação das bases
que podem encontrar a SUTEP, o APRA e toda essa gente aliada do imperialismo.
É
preciso desenvolver muito mais a coletivização agrária. Passar da produção
de comunidades agrárias à planificação e coletivização da produção agrária.
Se não há meios técnicos, a planificação coletivizada se reduz e é mais
lenta. Mas, é preciso fazer algumas experiências importantes de coletivização,
acompanhadas com cooperativas, unificação de cooperativas, utilizando os
meios técnicos existentes e acompanhando com uma vasta atividade de planificação
educacional, de distribuição mais equitativa, de participação das
mulheres, das crianças, de discussão de todos, de fazer planos de trabalho; é
preciso desenvolver, mesmo com meios materiais e técnicos escassos por falta de
maquinaria, planos que possam acompanhar a produção para o consumo e para a
venda; o comércio para a produção, inclusive individual, fazendo uma espécie
de Comuna, como na China, onde se organize a força esparsa, de zonas camponesas
separadas, em territórios comunais com plena vida de democracia socialista para
discutir todos os problemas e planificar a produção.
Tudo
isso requer um partido, organizar direção, ter programa, objetivo para estas
conclusões. Não há dúvidas de que o governo e os setores militares não
sentem plena confiança nas mesmas, mas tampouco as rechaçam, demonstrando
compreensão e decisão de progresso. Uma das resoluções desta equipe de
militares é avançar na economia. São conscientes, e tem declarado que o
capitalismo não pode realizá-lo e que o imperialismo trata de succionar; e
buscam o apoio maior nos Estados operários. Portanto, é preciso ajudar esta
equipe militar a que compreenda que se requer a organização das massas, das
equipes de operários, camponeses e estudantes em organismos políticos de
discussão, de planificação, de experiência. Os militares não tem essa
experiência e sentem que serão sobrepassados. Não demonstraram temor diante
do progresso, mas sim cautela e desconfiança, e também temor à direita do exército
que está esperando para golpear, para levantar-se. É preciso mostrar que há
que mobilizar a população. Não somente na agitação política, mas nas
medidas efetivas de expropriação das fontes de poder da burguesia: a
propriedade da terra, o comércio e a imprensa. Expropriá-los! Para progredir
é preciso fazer isso. O capitalismo vai cair encima, mas também vai surgir o
apoio popular. No Chile, o imperialismo pode dar encima porque o governo não
expropriou.
(...)
Os sindicatos tem o papel essencial da intervenção porque objetivamente buscam
o desenvolvimento da produção e da sociedade. Não tem interesses
individuais. Os operários de Cerro de Pasco no Peru disseram: “se estatizam a
Cerro, trabalharemos doze horas por dia”, quando à Cerro de Pasco reinvidicavam
seis horas de trabalho. Os camponeses também diziam: “se é para o
desenvolvimento do Peru, estamos disposto a trabalhar; para o feudal, não”.
Isso demonstra que os operários não têm interesse de casta e de classe
opostos à necessidade do desenvolvimento do país. O interesse dos operários
coincide, é harmônico com o interesse de desenvolvimento do país.