
O significado da rebelião da
população nas prisões e o avanço das lutas sociais
_Quando ocorre uma rebelião
perfeitamente coordenada, cronometrada e unânime em 29 prisões
espalhadas por todo o Estado de São Paulo, envolvendo toda a
população no cárcere mais os seus familiares, que na maior
parte dos casos permaneceu nos presídios voluntariamente e não
na condição de "reféns" como divulgou a imprensa,
não se pode relegar este fenômeno à análise habitual de
manipulação por parte da criminalidade organizada.
_Ao contrário, há que rever até mesmo a terminologia: falar de
"marginais", "bandidos", torna-se inadequado
frente a um movimento organizado que afirma lutar por
"liberdade, justiça e paz", que protesta pelo
assassinato dos 111 presos do Carandirú no dia 2/10/92,
"massacre que jamais será esquecido na consciência da
sociedade brasileira", que afirma que vai "sacudir o
sistema e fazer estas autoridades mudarem a prática carcerária,
desumana, cheia de injustiça, opressão, torturas e massacres
nas prisões", e "revolucionar o país dentro das
prisões" e que "o seu braço armado será o terror dos
poderosos, opressores e tiranos
"; um movimento que nos
seus documentos cita o Chê Guevara, que exige o cumprimento da
lei (que prevê a reabilitação e não o massacre e
animalização dos prisioneiros), que faz reivindicações
sociais e dos próprios direitos humanos.
_"Bandidos", em primeiro lugar, são aqueles que
mantêm tantos homens e mulheres em condições carcerárias
medievais. Mas, muito mais grave que isso, são aqueles que
mantêm milhões e milhões de pessoas na área da exclusão e da
marginalidade, começando pelas crianças e adolescentes, pela
população favelada, oprimida e abandonada. Não se trata de
"atraso nas reformas do regime carcerário", tem razão
os presos de apontar para o simples, elementar e gritante
não-cumprimento das leis existentes, que prevêem,
retoricamente, a "reabilitação" do preso, qualquer
que seja o crime cometido. Então como medir quem é
"bandido"? O colarinho branco, o político que desvia
bilhões de reais para os próprios interesses, ou o empresário
que extorque do Estado para a própria acumulação, fundos que
terminam retirados dos investimentos na área social, como devem
ser qualificados? Tais políticas, tais medidas reais e
concretas, geram milhões de pobres e excluídos, alimentam o
modelo de acumulação e consumismo mais brutal e cínico, frente
aos olhos da população excluída. Como não esperar que isto se
transforme em foco de criminalidade, conflito e violência
generalizadas?
_A mídia mentiu, espetacularizou a violência e escondeu que
quem matou a maior parte dos 19 prisioneiros foi a própria PM.
Execuções desta natureza em qualquer país civil seriam
consideradas graves crimes. Nada será apurado. O
"tratamento" reservado aos prisioneiros rebeldes está
sob os olhos de todos, mas também aos seus familiares, vítimas
também estes da violência policial. As "autoridades",
o governo estadual e o governo federal devem responder por isso.
_A esquerda, os setores mais progressistas, deveriam tirar disto
uma lição: se setores da sociedade tão "atrasados",
colocados em condições tão bárbaras e oprimentes, são
capazes de organizar-se para uma ação tão clamorosa e formular
um esboço de programa de reivindicações políticas e sociais,
como não será no resto da sociedade, entre os trabalhadores, no
campo, nas cidades, nas universidades? A reação dos setores de
esquerda, dos sindicatos, foi tímida ou inexistente. Melhor
reagiram a igreja progressista, alguns intelectuais corajosos,
alguns jornalistas. No fundo, esta rebelião desvela a
profundidade da luta de classes, a sua dureza, e o nível de
pressão insuportável a que vai chegando frente à impunidade
dos crimes cometidos pelas políticas neoliberais, de
privatizações selvagens, de acumulação incomensurável de
riquezas nas mãos de poucos.
_Quase que se pede a esta população, a esta parte consistente e
crescente de cidadãos que habitam permanentemente e
irremediavelmente no cárcere, de ser "educada e
paciente", esperando sabe lá qual "reforma" no
regime carcerário, e que a justiça seja menos "lenta"
(como se a sua "aceleração" removesse as causas do
surgimento e expansão da criminalidade). Ou talvez, as próximas
eleições. Algumas "mentes iluminadas" do regime falam
da eficiência, e até mesmo da necessidade de privatizar o
sistema, ou seja, fazer dele uma nova fonte de lucro. O exemplo
clamoroso são os Estados Unidos, onde os presos tem até mesmo
que pagar pela "hospedagem". Acaso os seus mais de 2
milhões de prisioneiros, dos quais 70% são negros ou latinos,
tem por isso maior dignidade? Queremos "regulamentar" o
existente, e os números serão sempre crescentes neste regime
capitalista decrépito, ou queremos que haja MENOS pessoas
obrigadas a cometer delitos para sobreviver ou simplesmente por
perseguir um modelo de consumismo aberrante? A
"reforma" que interessa é aquela que elimina as causas
da criminalidade, não as suas conseqüências.
_Estas são as entranhas da sociedade que se agitam, e não há
remédio senão a transformação revolucionária e em sentido
socialista da sociedade. Melhor dar a esta gente desesperada e
corajosa ao mesmo tempo, uma perspectiva de redenção.
Isolá-la, ignorá-la ou desprezá-la não é só um crime contra
milhares de seres humanos, é alimentar a barbárie e a
opressão. É deixá-la nas mãos do narcotrafico que
instrumentaliza um protesto legitimo. Se a esquerda não retoma
uma perspectiva de luta revolucionária, de massas e
anticapitalista outros PCCs que vão surgir, dentro e fora das
prisões. Neste caso, mesmo indo ao governo, como esta esquerda
vai encarar este problema, se hoje não busca o consenso dessa
massa de vítimas do capitalismo? É melhor tirar as lições
enquanto há tempo.