
Silvio
Rodrigues, poeta e compositor cubano
vota pela Pátria Socialista
Discurso
do Deputado Silvio Rodrigues, poeta e compositor cubano,
perante
o Parlamento do seu país
(Publicado
na imprensa cubana em 26 de junho de 2002)
Comandante
Fidel,
General Raúl,
Presidente Alarcón,
membros da Assembléia,
convidados,
seres
que me escutam:
Compreendo a responsabilidade histórica de manifestar-me
hoje aqui nesta Assembléia Extraordinária e me impressiona a beleza do
ato.
Ao
confirmar princípios que deram sentido às nossas vidas é como se quiséssemos
registrá-los no enredo do tempo. A intenção não é petrificar este instante,
porque as petrificações significam morte, mas sim anunciá-los hoje e amanhã,
como sonham os enamorados ao esculpir sobre as árvores e os muros. Estamos
escrevendo nossos nomes num tronco, na parede do tempo e todas nossas histórias,
as coletivas e as pessoais se fundem em uma só, que clama pelo que a nossa Cuba
está clamando desde que teve consciência de si mesma: pela liberdade, pela
soberania e pela justiça.
Neste
empenho, há tantos nomes entrelaçados que não creio que seja possível enumerá-los
exatamente. Uns são recolhidos pela história e outros não. Como diria Brecht:
“Para onde foram os pedreiros na noite que terminaram a Muralha da China?”
Os pequenos acontecimentos são parte da matéria que conforma a história.
Somos feitos de todo tipo de fragmentos e cada partícula, por minúscula e
modesta que pareça, ajuda a desenhar o grande mosaico deste ato. E quem duvide,
que passe a lista para recolher os diferentes ofícios, as histórias que aqui
se reúnem, fragmentos de aspectos e espaços precisos em uma fusão nacional.
Raramente
não me perguntam em entrevistas
sobre a minha condição de Deputado, às vezes com admiração, outras com
reprovação, mas sempre com curiosidade. Eu, que sou cubano, acostumado com a
Revolução, não me surpreendo ao ver que o filho de duas famílias pobres
esteja formando parte da Assembléia, mas como nunca tive vocação para político,
sempre me embaraço com o privilégio de falar em nome de muitos.
Não
obstante, existe uma famosa enciclopédia, editada neste ano, o 2002, que diz: Rodrigues
Silvio: sua
influência sobre toda uma geração, junto a seus companheiros da “nova trova
cubana” foi reconhecida em todo o mundo, inclusive pelos que não estão de
acordo com suas idéias políticas.
Eu
confesso que antes de tudo eu tive idéias e, depois (na realidade muito depois)
me perguntei o significado da palavra política. Além disso, primeiro soltei as
rédeas da minha vocação de fazer canções e depois me perguntei por quê e
de que forma as estava fazendo.
Portanto,
não sei a que pouco aconselháveis políticas se refere esta enciclopédia. Não
sei se se refere a que a minha primeira canção que poderia ser considerada
“política”, foi escrita quando era recruta, num acampamento militar em Manágua,
pelos anos 1964 ou 1965, e tratava da discriminação racial. Não sei se se
referem a quando, em fevereiro de 1968, Haydée Santamaria nos convidou a
cantar no Centro da Canção de Protesto da Casa das Américas. Suponho que não,
porque entre os três trovadores não reuníamos a quantidade suficiente de
canções “políticas” como para fazer um concerto.
De
quê vocês protestam? Isso é o que costumavam perguntar-nos alguns
companheiros que tinham mais idade que nós, aqueles que nos consideravam jovens
meio estranhos e desviados.
Eu
pensei que todas as ocupações e preocupações humanas cabem na poesia e na
arte, e logicamente na canção. É dever da nossa sociedade socialista lutar
para que assim seja, porque nestes testemunhos se imprimirá parte da nossa memória
histórica como povo, além de parte da nossa capacidade criativa. Creio que as
artes não somente têm o direito, mas o dever de expressar-se, porque isso,
junto com os dados que trazem a imprensa e outras manifestações, contribui a
deixar um registro histórico suficientemente variado como para que o amanhã
compreenda todas as nossas características e possa aprender de nós.
Por
exemplo, acreditando na poesia e na arte, aos 20 anos cheguei à conclusão de
que a Revolução não era propriedade privada de ninguém, que a Revolução
era de todos os que fossem capazes de realizá-la e defendê-la. Por isso, lhes
disse aos burocratas que pensavam que eram os administradores dos sonhos:
Das
pobres pessoas que dispõem
da
vida pelos obscuros corredores;
o
que se fará?
E
as que vendem a palavra,
as
que riem, ou as que não falam;
quem
as vai despedir?
Serão como aquele inseto,
morrendo
só, sem depois.
Morrer
assim é não viver
Morrer
assim é desaparecer para sempre.
Acreditando
na poesia e na arte fui ao mar com a Frota Cubana de Pesca de onde regressei
intacto com estas interrogações:
Companheiros
de história,
considerando
o implacável
que
deve ser a verdade, quisera perguntar
(me
urge tanto):
Que
devo dizer, que fronteiras devo respeitar?
Se
alguém rouba comida
e
depois dá a vida, que fazer?
Até
onde devemos praticar as verdades?
Até
onde sabemos?
Obsesso
da poesia e arte, pedi a devolução de 11 pescadores frente ao Escritório de
Interesses dos Eua. Nesses dias, alguns apostavam por bloquear-nos e, ao mesmo
tempo, o povo nos nomeava seus representantes em um festival. Também naquela
época, fui, junto ao Grupo de Experimentação Sonora, um dos compositores do
“Granma”, obra que celebrava o 200
aniversário
desse barco chegando às nossas costas.
O
quê saberá minha criança sobre as doze ondas
que
não pousaram junto à areia.
O
quê saberá minha criança sobre as doze ondas
que
faziam caminho ao fazer vereda,
O
quê saberá minha criança sobre as doze ondas
que
não arrebentaram no penhasco.
O
quê saberá minha criança sobre as doze ondas
que
voaram ao empurrar o seu barco.
Em
um dia inesperado chega uma carta de Camaguey, pedindo uma canção sobre
Agramonte. E crente da poesia e da arte mambisas (dos
que lutavam contra o colonialismo
espanhol) cometo aquela aproximação à estatura do El Mayor:
O
homem sempre se fez
de
todo material:
de
vilas senhoriais
ou
bairro marginal.
Toda
época foi peça
de
um quebra-cabeças
para
subir a costa
do
grande reino animal,
com
uma mão negra
e
outra branca mortal.
Fiéis
à poesia e às artes, muitos artistas aterrizamos em Angola, em plena guerra.
Alguns chegamos em fevereiro de 1976 e passamos meses percorrendo Cabinda até
Cunene, conhecendo heróis (alguns deles estão nesta sala), às vezes dando
boas noites aos companheiros que na manhã seguinte eram matéria de canções.
Entre eles Arides e Ciro Berrios, pelos quais sempre valerão a pena aqueles
sentimentos que diziam:
Se
eu caio no caminho
Façam
cantar o meu fuzil
e
transcender o seu destino
porque
ele não deve morrer.
Pode
ser que vivências e canções como estas tenham dado lugar às afirmações da
enciclopédia do que falei e também a essas misteriosas idéias políticas que
nunca se aclararam e se supõe que professo. Pode ser que expressões como eu me
morro como vivi não pareçam suficientemente apreciadas pela poesia e pela
arte, e que tenha incomodado a alguns. Este estigma mal velado que querem nos
endossar, quanto menos significa uma leitura medíocre da relação que temos
tido com os povos. Porque dizer que as pessoas nos querem apesar de nossas idéias
políticas é querer meter uma veste que ninguém que tenha estado em um nosso
concerto pode engolir.
Da
minha parte eu teria a dizer a estas ilustres personalidades que, desde que fui
eleito deputado em virtude da democracia (como nós a entendemos), penso que sou
um sinal vivente da pluralidade desta Assembléia, já que fui um homem
questionado por conflitante, por criterioso, por charlatão , ou quanto menos
por imprevisível (como pode que estejam demonstrando estas palavras).
Não
obstante, estou aqui como parte do meu povo, da minha história, da minha Revolução
e do meu amigo e irmão Fidel, fazendo-me partícula desta aventura, desta
expedição realista e surrealista que dirigimos e protagonizamos todos junto a
ele, para dizer que voto pela minha Pátria Socialista em construção; para
dizer que cerro fileiras como quando era um miliciano de quatorze anos,
molhando-se de noite com um Máuser velho, esperando a bomba atômica que o
tocava pela manhã.
E
porque isto acontece, eu já não sou senão o filho de Dagoberto e Argélia, um
enamorado a mais escrevendo no tempo (e apesar do tempo) num largo ramo que nos
chega desde as gloriosas profundidades, onde muitos conhecidos e desconhecidos
construtores e filhos deste povo, gravaram belezas de todos os tamanhos e
significados.
Companheiros,
permitam-me um cantinho onde deixar estes mínimos versos;
Pode
ser que algum machado
se
enrede na madeira;
pode
ser que algumas noites
as
estrelas não queiram sair;
pode
ser que com os braços
tenha
que abrir a selva,
mas
apesar dos pesares,
seja
como for, Cuba vai!