
suplemento especial
para a 54ª
REUNIÃO ANUAL DA
SBPC
Rádio, ciência,
técnica e sociedade
Discurso
pronunciado por Leon Trotski em 1926, no I Congresso dos Amigos do Rádio quando
ainda era membro do governo soviético.
Contribuição
inédita do grande dirigente revolucionário bolchevique sobre o desenvolvimento
da arte, da cultura e da ciência como parte da pensamento marxista dialético e
da construção do socialismo.
Camaradas,
Estou
retornando das festas do Jubileu do Turcomenistão. Esta república irmã da Ásia
Central comemora hoje o aniversário da sua fundação. Pode parecer que o tema
do Turcomenistão encontre-se afastado da técnica da radiodifusão e da
Sociedade dos Amigos do Rádio mas, na realidade, existem relações estreitas
entre eles. É justamente porque o Turcomenistão é um país longínquo
que ele deve estar próximo aos
participantes deste congresso. Em razão da imensidão do nosso país federativo
que inclui o Turcomenistão – território de seiscentas mil verstas, maior
que a Alemanha, maior que a França, maior que qualquer dos estados europeus, país
cuja população está dispersa no oásis e onde não existem estradas –,
dadas estas condições, as telecomunicações poderiam ter sido inventadas para
o Turcomenistão, afim de ligá-lo a nós. Nós somos um país atrasado sobre o
plano técnico e, no entanto, não temos direito algum de persistir neste atraso
porque estamos construindo o socialismo e o socialismo pressupõe e exige um
alto nível técnico. Enquanto traçamos estradas através do país, que as
melhoramos e nelas lançamos pontes (e temos uma terrível necessidade de mais
pontes!), somos obrigados, ao mesmo tempo, de nos medir contra os estados mais
avançados quanto às últimas explorações científicas e técnicas – em
primeiro lugar das quais, entre tantas outras, encontra-se a técnica do rádio.
A invenção do telégrafo sem fio e da radiofonia têm com o que convencer os
mais céticos e pessimistas dentre nós a respeito das possibilidades ilimitadas
da ciência e da técnica, com o que demonstrar que todas as pesquisas da ciência
depois do seu início não são mais que uma breve introdução daquilo que o
futuro nos reserva.
Tomemos, por
exemplo, os últimos vinte e cinco anos – exatamente um quarto de século –
e evoquemos as conquistas que a técnica humana obteve diante dos nossos olhos,
diante daqueles dos da geração mais velha à qual pertenço. Lembro-me – e
provavelmente, não sou o único entre os presentes, ainda que a juventude seja
aqui uma maioria –, lembro-me do tempo em que os automóveis eram ainda
raridades. Do mesmo modo, não se falava em aviões ao final do século passado.
No mundo inteiro, não havia, creio 5 mil automóveis, enquanto que, agora,
existem cerca de 20 milhões entre os quais 18 milhões apenas na América, 15
milhões de carros de passeio e 3 milhões de caminhões. O automóvel
tornou-se, sob os nossos olhos, um meio de transporte de primeira importância.
Posso, ainda,
lembrar-me dos sons confusos e os rangidos que ouvi enquanto escutava pela
primeira vez um fonógrafo. Estava, então, no primeiro ano dos meus estudos
secundários. Um homem empreendedor, que percorria as cidades da Rússia
meridional com um fonógrafo, chegara a Odessa e mostrava o seu funcionamento.
E, hoje, o gramofone, neto do fonógrafo, é um dos utensílios mais difundidos
da vida doméstica.
E o avião? Em
1902, há 23 anos, o escritor inglês Wells (muitos de vocês conhecem seus
romances de ficção científica) publicou um livro no qual escreveu que, em sua
opinião (e ele mesmo se tinha por uma imaginação audaciosa e aventureira em
matéria de técnica), perto da metade do século XX teria sido não apenas
inventada, mas aperfeiçoada até certo ponto uma máquina mais pesada que o ar
que poderia ter uma utilização militar. Este livro foi escrito em 1902.
Sabemos que o avião desempenhou um papel preciso na guerra imperialista
e nós ainda temos 25 anos para a metade deste século!
E o cinema? Não
é, ele também, uma questão menor. Há pouco tempo ele não existia – muitos
de vocês recordam-se desta época. Hoje, no entanto, seria impossível imaginar
nossa vida cultural sem o cinema.
Todas estas
inovações ingressaram em nossa existência no último quarto de século,
durante o qual os homens realizaram também algumas ninharias, tais como as
guerras imperialistas onde cidades e países inteiros foram devastados e milhões
de pessoas exterminadas. No espaço de um quarto de século, mais de uma revolução
ocorreu, ainda que sobre uma escala menor que a nossa, em toda uma série de países.
Em vinte e cinco anos, a vida foi invadida pelo automóvel, pelo avião, pelo
gramofone, o cinema, a telegrafia sem fio e a radiofonia. Se vocês lembrarem-se
somente do fato que, segundo os cálculos hipotéticos dos sábios, não foram
necessários menos de 250 mil anos ao homem para passar do simples gênero de
vida de caçador àquela de criador de gado, este pequeno fragmento de tempo –
estes vinte e cinco anos – parecem um simples nada. Qual é a lição que
devemos tirar deste período? Que a técnica entrou em uma fase nova, que seu
ritmo de desenvolvimento cresce cada vez mais.
Os sábios
liberais – não existem mais – pintaram frequentemente o conjunto da história
humana como uma sequência linear e contínua de progresso. Isto é falso. A
marcha do progresso não é retilínea, mas uma curva irregular, ziguezagueante.
Ora a cultura progride, ora a cultura declina. Houve a cultura da Ásia antiga,
houve a cultura da antiguidade, da Grécia e de Roma, depois a cultura européia
começa a se desenvolver e hoje a cultura americana nasce nos arranha-céus. O
que foi preservado das culturas do passado? O que foi acumulado como resultado
do progresso histórico? Os progressos técnicos, os métodos de pesquisa. O
pensamento científico e técnico avança com interrupções e desfalecimentos.
Mesmo se meditarmos sobre estes dias distantes quando o sol deixará de brilhar
e quando toda a vida se extinguirá da face da terra, resta, contudo, uma abundância
de tempo diante de nós. Penso que, nos séculos imediatamente futuros, o
pensamento científico e técnico, em mãos de uma sociedade organizada de um
modo socialista, progredirá sem zig-zags, rupturas ou desfalecimentos. Ela
amadureceu com tal amplitude, tornou-se suficientemente independente e se mantém
solidamente sobre as suas bases que irá adiante por uma via planejada e segura,
paralela ao crescimento das forças produtivas com as quais está ligada do modo
mais estreito.
É a tarefa da
ciência e da técnica de submeter a matéria ao homem, assim como o espaço e o
tempo, que são inseparáveis da matéria. A bem dizer, existem certos escritos
idealistas – não religiosos, mas filosóficos – onde podemos ler que o
tempo e o espaço são categorias saídas do nosso espírito, que são o
resultado das exigências do nosso pensamento. No entanto, é difícil entrar
nestas visões. Se algum filósofo idealista, em lugar de chegar a tempo para
tomar o trem das nove, deixasse passar dois minutos de atraso, ele não veria
senão a traseira do seu trem e seria, pelos seus próprios olhos, convencido
que o tempo e o espaço são inseparáveis da realidade material. Nossa tarefa
é a de reduzir este espaço, de vencê-lo, de economizar o tempo, de prolongar
a vida humana, de registrar o tempo passado, elevar a vida humana a um nível
mais alto e enriquecê-la. É a razão da nossa luta contra o espaço e o tempo,
na base da qual encontra-se a luta para submeter a matéria ao homem – matéria
que constitui o fundamento, não apenas de todas as coisas que realmente
existem, mas também de todo pensamento.
A luta que
travamos pelos nossos trabalhos científicos é em si mesma um sistema muito
complexo de reflexos, vale dizer de fenômenos, de ordem fisiológica que se
desenvolveram sobre uma base anatômica ela própria saída do mundo inorgânico
da química e da física. Cada ciência é um acúmulo de conhecimentos fundados
sobre uma experiência relativa à matéria e às suas propriedades, sobre uma
compreensão generalizada dos meios de submeter esta matéria aos interesses e
às necessidades do homem.
No entanto, mais
a ciência nos ensina sobre a matéria, mais ela descobre propriedades
“inesperadas” e mais o pensamento filosófico decadente da burguesia procura
com zelo utilizar estas novas propriedades ou manifestações da matéria para
demonstrar que a matéria não é a matéria. Paralelamente ao progresso das ciências
da natureza no domínio da matéria efetua-se uma luta filosófica contra o
materialismo. Certos filósofos e mesmo certos sábios procuraram utilizar o fenômeno
da radiotividade na luta contra o materialismo: chegou-se ao átomos, elementos
de base da matéria e do pensamento materialista, mas agora, este átomo cai em
pedaços entre nossas mãos, é quebrado em elétrons e, ao começo da
popularização da teoria eletrônica, uma controvérsia eclodiu mesmo em nosso
partido sobre a questão: os elétrons testemunham a favor
ou contra o materialismo? Qualquer um
que esteja interessado nestas questões lerá com grande proveito a obra de
Vladimir Iliitch, Materialismo e empiriocriticismo.
Na realidade, nem o “misterioso” fenômeno da radioatividade, nem o não
menos “misterioso” fenômeno da propagação sem fio das ondas eletromagnéticas
causam qualquer dano ao materialismo.
O fenômeno da
radioatividade, que conduziu à necessidade de conceber o átomo como um sistema
complexo de partículas ainda completamente “impensáveis”, não pode servir
de argumento a não ser contra um espécime desesperado de materialismo vulgar
que não reconhece como matéria que pode sentir entre as mãos nuas. Isto, porém,
é sensualismo e não materialismo. Um e outro, a molécula, última partícula
química, e o átomo, última partícula física, são inacessíveis à nossa
vista e ao nosso tato. Nossos órgãos, que são nossos primeiros instrumentos
de conhecimento, não são porém tudo, falta muito, os últimos recursos do
nosso conhecimento. O olho e o ouvido humanos são aparelhos muito primitivos,
desadaptados para a percepção dos elementos de base dos fenômenos físicos e
químicos. Enquanto que, em nossa concepção da realidade, nos deixamos guiar
pelas descobertas cotidianas dos nossos órgãos de sentidos, nos é difícil
imaginar que o átomo seja um sistema complexo, que ele tem um núcleo, que ao
redor deste núcleo deslocam-se elétrons e que disto resulta o fenômeno da
radioatividade. Nossa imaginação, em geral, não se acostuma a não ser com
dificuldade às novas conquistas do conhecimento. Quando Copérnico, no século
XVI, descobriu que não era o sol que girava em torno da terra, mas a terra em
torno do sol, aquilo parecia fantástico e, depois deste dia, a imaginação
conservadora ainda tem dificuldade para se acomodar a este fato. É o que
observamos entre as pessoas iletradas e em cada nova geração de estudantes. No
entanto, nós que temos uma certa educação, a despeito do fato de que nos
parece, também a nós, que o sol gira em torno da terra, nós não colocamos em
dúvida que as coisas, na realidade passam-se diferentemente, pois isto é
confirmado pela observação de conjunto dos fenômenos astronômicos. O cérebro
humano é um produto do desenvolvimento da matéria e é, ao mesmo tempo, um
instrumento de conhecimento da matéria; pouco a pouco, ele se adapta à sua função,
tenta ultrapassar suas próprias limitações, cria métodos científicos sempre
novos, imagina instrumentos sempre mais complexos e mais precisos, controla sem
cessar sua obra, penetra passo a passo nas profundidades anteriormente
desconhecidas, muda nossa concepção da matéria, sem no entanto, jamais se
desligar dela, desta base de tudo o que existe.
A
radioatividade, que acabamos de mencionar, não constitui em caso algum uma ameaça
para o materialismo e é, ao mesmo tempo, um triunfo magnífico da dialética.
Até estes últimos tempos, os sábios supunham que havia no mundo 90 elementos
que escapavam a toda análise e não podiam se transformar uns nos outros –
por assim dizer um universo que seria uma tapeçaria tecida de 90 fios de cores
e qualidades diferentes. Uma noção tal contradiria a dialética materialista
que fala da unidade da matéria e o que é mais importante, da transmutabiliade
dos elementos da matéria. Nosso grande químico Mendeleiev, ao final da sua
vida, não queria reconciliar-se com a idéia de que um elemento pudesse ser
transmutado em outro; ele acreditava firmemente na estabilidade destas
“individualidades”, bem que o fenômeno da radioatividade fosse já do seu
conhecimento. Em nossos dias, nenhum sábio deixa de crer na mutabilidade dos
elementos. Utilizando este fenômeno da radioatividade, os químicos conseguiram
realizar a “execução” direta de 8 ou 9 elementos e, na mesma ocasião, a
execução dos últimos restos da metafísica no materialismo, pois hoje a
transmutabilidade de um elemento químico em outro foi provada
experimentalmente. O fenômeno da radioatividade conduziu deste modo ao triunfo
supremo do pensamento dialético.
Os fenômenos da
técnica radiofônica são fundados sobre a transmissão sem fio das ondas
eletromagnéticas. Sem fio não significa, de modo algum, transmissão não
material. A luz não brilha apenas das lâmpadas, mas também do sol, do qual
ela nos chega sem ajuda dos fios. Somos bastante habituados à transmissão sem
fio da luz por distâncias respeitáveis. E, no entanto, somos bem surpresos
quando começamos transmitir o som a distâncias bem mais curtas graças às
mesmas ondas eletromagnéticas, que representam o substrato da luz. Tudo isto é
a manifestação da matéria, processo material – ondas e turbilhões – no
espaço e no tempo. As novas descobertas e suas aplicações técnicas não
fazem mais que nos mostrar que a matéria é muito mais heterogênea e mais rica
de possibilidades do que havíamos pensado até o momento. Mas, como antes, nada
é criado do nada.
Os mais notáveis
dos nossos sábios dizem que a ciência e, particularmente, a física, chegou
nos últimos tempos, a um ponto de inflexão. Não há muito tempo, diziam que não
estávamos mais que nas abordagens “fenomenológicas” da matéria – vale
dizer, sob o ângulo da observação destas manifestações – mas hoje começamos
a penetrar mais profundamente que nunca no próprio interior da matéria, para
compreender sua estrutura, e poderemos, em breve, comandá-la “do interior”.
Um bom físico seria naturalmente capaz de falar destas coisas melhor que eu. Os
fenômenos da radioatividade nos conduzem ao problema da libertação da energia
intra-atômica. O átomo guarda em si mesmo uma poderosa energia escondida e a
tarefa mais grandiosa da física consiste em libertar esta energia fazendo
saltar a tampa, de modo que a energia oculta possa jorrar como de uma fonte. Então
será aberta a possibilidade de substituir carvão e petróleo pela energia atômica
que se tornará a força motriz de base. Não é, de modo algum, uma tarefa sem
esperança. E que perspectivas abrir-se-ão para nós! Este simples fato nos dá
o direito de declarar que o pensamento científico e técnico aproximam-se de
uma grande reviravolta, que a época revolucionária no desenvolvimento da
sociedade humana será acompanhada de uma época revolucionária na esfera do
conhecimento da matéria e do seu domínio. Possibilidades ilimitadas abrir-se-ão
diante da humanidade libertada.
Talvez, no
entanto, seja tempo de estreitar mais de perto as questões políticas e práticas.
Qual é a relação entre a radiotecnia e o sistema social? Ela é socialista ou
capitalista? Coloco esta questão porque há alguns dias, um italiano bem
conhecido, Marconi, disse, em Berlim, que a transmissão à distância de
imagens por ondas hertzianas é um prodigioso presente para o pacifismo,
anunciando o rápido fim da era militarista. Por que seria assim? Os fins da época
foram proclamados tão frequentemente que os pacifistas acabaram por confundir
os começos e os fins. O fato de ver as grandes distâncias deveria colocar fim
às guerras! Certamente, a invenção de meios de transmitir uma imagem animada
à grande distância é uma tarefa muito atraente, pois é ultrajante para o
nervo ótico que o nervo auditivo – graças ao rádio – ocupe uma posição
privilegiada a este respeito. Supor, no entanto, que disto deva resultar o fim
das guerras é simplesmente absurdo e mostra apenas que, no caso de grandes
homens como Marconi, assim como no caso da maioria das pessoas especializadas,
assim como no caso da maioria das pessoas em geral –, o modo de pensamento
científico fornece uma ajuda ao espírito, para falar cruamente, não em todos
os domínios, mas somente em pequenos setores. Assim como no casco de um navio
existem compartimentos estanques para que ele não soçobre de um único golpe
em caso de acidente, do mesmo modo existem inumeráveis compartimentos estanques
no cérebro humano: em um domínio ou mesmo em doze, podemos encontrar o espírito
científico mais revolucionário, mas detrás de um compartimento oculta-se o
mais acanhado espírito dos filisteus. A grande força do marxismo, enquanto
pensamento generalizador da experiência humana, é a de ajudar a derrubar estes
compartimentos interiores do espírito graças à integridade da sua análise do
mundo. Para retornar ao nosso tema, porque o fato de ver seu inimigo deveria
liquidar a guerra? Nos tempos antigos, quando havia guerra, os adversários
viam-se face a face. Era assim no tempo de Napoleão. Foi somente a criação de
armas de longo alcance que levou gradualmente os adversários a se afastar e os
conduziu a atirar sobre alvos fora de vista. E se o invisível torna-se visível,
isto significa somente que, também neste domínio, a tríade hegeliana triunfou
– depois da tese da antítese veio a “síntese” da exterminação mútua.
Lembro-me da época
quando se escrevia que o desenvolvimento da aviação colocaria fim à guerra
porque o conjunto da população seria lançada nas operações militares, uma
vez que ela ameaçaria com a ruína da economia e da vida cultural do país
inteior, etc... Na realidade, a invenção de um aparelho voador, mais pesado
que o ar, abriu um novo e mais cruel capítulo da história do militarismo. Não
há dúvida alguma de que atualmente também estamos a ponto de conhecer um capítulo
ainda mais sangrento e ainda mais apavorante. A técnica e a ciência têm sua
própria lógica do conhecimento da natureza e da sua submissão aos interesses
do homem. Mas a técnica e a ciência não se desenvolvem no vazio, são feitas
em uma sociedade humana dividida em classes. A classe dirigente, a classe
possuidora domina a técnica e, através dela, a natureza. A técnica em si
mesma não pode ser chamada de militarista ou pacifista. Em uma sociedade onde a
classe dirigente é militarista, a técnica está a serviço do militarismo.
É incontestável
que ciência mina pouco a pouco a superstição. No entanto, também ali o caráter
de classe da sociedade impõe reservas substanciais. Tomem a América: os sermões
são ali retransmitidos pelo rádio, o que significa que o rádio serve de meio
de difusão de preconceitos. Tais coisas não chegam até aqui, penso – a
Sociedade dos Amigos do Rádio está atenta, espero? (Risos
e aplausos). No sistema socialista, o conjunto da técnica e da ciência será
dirigida indubitavelmente contra os preconceitos religiosos, contra a
superstição que traduz a fraqueza do homem em face do homem ou da natureza. Eu
pergunto a vocês: qual será o peso de uma “voz do paraíso” quando em todo
o país seja difundida a voz do Museu Politécnico? (Risos).
A vitória sobre
a pobreza e a superstição nos está assegurada se progredirmos sobre o plano técnico.
Não devemos ficar a reboque de outros países. A primeira palavra-de-ordem que
cada rádio-amador deve ter na cabeça é: não ficar a reboque! Pois estamos
extraordinariamente atrasados com relação aos países capitalistas avançados;
este atraso é a nossa principal herança do passado. Que fazer? Se, camaradas,
a situação for tal que os países capitalistas continuem a progredir e a se
desenvolver regularmente como antes da guerra então devemos nos perguntar com
angústia: seremos capazes de alcançá-los? e se não podemos alcançá-los,
não seremos esmagados? A isto respondemos: não devemos esquecer que o
pensamento científico e a técnica na sociedade burguesa atingiram seu mais
alto grau de desenvolvimento no próprio momento em que, economicamente, esta
sociedade burguesa entra mais e mais em um impasse e tomba na decadência. A
economia européia não se está expandindo. Durante os últimos quinze anos, a
Europa destruía a Europa e devastava imensas extensões do continente, a
guerra deu, ao mesmo tempo um impulso prodigioso ao pensamento científico e técnico
que sufocava entre as garras do capitalismo decadente.
Se, no entanto
consideramos os acúmulos materiais da técnica, vale dizer, não apenas a técnica
que existe na cabeça dos homens, mas a que está
incorporada nas máquinas, nas manufaturas, usinas, caminhos de ferro, telégrafos
e telefones, etc... então é evidente que estamos terrivelmente atrasados.
Seria mais correto dizer que este atraso seria terrível se não possuíssemos a
imensa vantagem da organização soviética da sociedade que permite um
desenvolvimento planejado da ciência e da técnica enquanto a Europa sufoca em
suas próprias contradições.
Nosso atraso
atual em todos os ramos não deve, no entanto, ser ocultado, mas, ao contrário,
avaliado com uma objetividade severa, sem nos afligir, mas também sem nos
iludirmos com um único instante. Como um país transforma-se em um único todo
econômico e cultural? Pelos meios de comunicação: os caminhos de ferro, os
navios, os serviços postais, o telégrafo, o telefone e a radiotelegrafia e a
radiofonia. Onde estamos neste plano? Estamos terrivelmente atrasados. Na América,
a rede ferroviária se estende sobre 405 mil km; na Inglaterra sobre cerca de 40
mil; na Alemanha, sobre 54 mil; mas, entre nós, sobre apenas 69 mil km e isto
com as nossas enormes distâncias! É ainda muito mais instrutivo comparar as
cargas transportadas nestes países e aqui, medindo-as através da relação
entre tonelagem por quilometragem – isto é, em uma tonelada transportada por
um quilômetro. Os Estados Unidos transportaram no ao passado 600 milhões de
toneladas/km; nós transportamos 48,5; na Inglaterra 30; na Alemanha 60; isto
quer dizer que os EUA transportaram dez vezes mais que a Alemanha, vinte vezes
mais que a Inglaterra e duas ou três vezes mais que o conjunto da Europa,
incluindo o nosso país.
Tomemos o serviço
postal, um dos meios de base na difusão da cultura. Segundo as informações
fornecidas pelo Comissariado de Correios e Telégrafos, fundadas sobre as cifras
mais recentes, as despesas dos EUA sobre a rede postal chegaram, no ano passado,
a um bilhão e um quarto de rublos, o que corresponde a 9 rublos e 40 copeques per
capita. Em nosso país, a despesa para o mesmo setor atinge 75 milhões, o
que representa 33 copeques por habitante. Há uma diferença entre nós que vai
de 940 a 33 copeques. As cifras para o telégrafo e telefone não são menos
marcantes. A extensão das linhas telegráficas nos Estados Unidos é de três
milhões de quilômetros, na Inglaterra cerca de meio milhão e aqui de 616 mil
quilômetros. Mas a extensão das linhas telegráficas é comparativamente
pequena na América porque eles têm muitas
linhas telefônicas – 60 milhões de km – enquanto na Grã Bretanha, não há
mais que 6 milhões e, aqui, apenas 311 mil quilômetros. Não vamos rir nem
chorar a respeito de nós mesmos, camaradas, mas coloquemos isto firmemente em
nossas cabeças: devemos medir e comparar afim de poder alcançar e ultrapassar
a todo custo! (Aplausos). O número de telefones – outro bom índice do nivel
cultural – é, na América, de 14 milhões, na Inglaterra, de um milhão e,
aqui, de 190 mil. Para cada 100 pessoas há nos EUA treze telefones, na
Inglaterra um pouco mais de dois e, entre nós, um décimo, ou, em outros
termos, na América o número de telefones, por relação à cifra da população
é 130 vezes maior que aqui.
No que concerne
ao rádio não sei o quanto dispensamos a ele todos os dias (penso que Sociedade
dos Amigos do Rádio pode juntar-se a esta tarefa), mas na América, gasta-se um
milhão de dólares, ou seja, dois milhões de rublos por dia para o rádio, o
que perfaz cerca de 700 milhões por ano.
Estas cifras nos
revelam duramente nosso atraso. Mas nos revelam, também, a importância que
pode e deve assumir o rádio enquanto meio de comunicação menos custoso em
nosso imenso país rural. Não podemos falar seriamente de socialismo sem
conceber a transformação do país em um único conjunto, ligado pelos meios de
comunicação de todos os tipos. Para poder introduzir o socialismo, devemos além
disso e acima de tudo ser capazes de falar às regiões mais afastadas do país,
tais como o Turcomenistão, pois o Turcomenistão, com o qual comecei minhas
reflexões hoje, produz algodão e dos trabalhos do Turcomenistão dependem o
trabalho das usinas têxteis das regiões de Moscou e de Ivanovo-Voznesensk.
Para comunicar diretamente e imediatamente com todos os pontos do país, um dos
mais importantes meios é o rádio – o que significa naturalmente que o rádio
não deve ser um brinquedo reservado às camadas superiores de cidadãos que têm
uma situação privilegiada em relação aos outros, mas deve tornar-se um
instrumento de comunicação econômica e cultural entre a cidade e o campo.
Não devemos
esquecer que entre a cidade e o campo existe, na Urss, monstruosas contradições
materiais e culturais que herdamos em bloco do capitalismo. No difícil período
que atravessamos, enquanto a cidade se refugia no campo e o campo dá uma libra
de pão em troca de um sobretudo, de alguns pregos ou de uma guitarra, a cidade
parece totalmente digna de compaixão em comparação com o campo confortável.
Mas, à medida em que os fundamentos elementares da nossa economia, em
particular da nossa indústria foram sendo restaurados as enormes vantagens técnicas
e culturais da cidade sobre o campo começaram a parecer sozinhas. Nós tivemos
bastante trabalho para temperar e mesmo para eliminar as contradições entre a
cidade e o campo no domínio da política e jurídico. No entanto, no plano técnico
não demos nenhum passo importante até o presente. E não podemos construir o
socialismo com o campo nestas condições de miséria técnica e com um
campesinato desprovido de cultura. Um socialismo desenvolvido significa antes de
mais nada colocar no mesmo nível técnico e cultural a cidade e o campo, ou
seja, a dissolução da cidade e do campo em um conjunto de condições econômicas
e culturais homogêneas. Eis porque o simples estreitamento entre a cidade e o
campo é para nós uma questão de vida ou morte.
Enquanto cria a
indústria e as instituições citadinas o capitalismo deixa o campo estagnar-se
e retroceder e não pode fazer outra coisa: ele sempre poderá tirar as matérias
primas e gêneros alimentícios necessários, não apenas de seus próprios
campos, como ainda dos países atrasados de além mar e das colônias onde a mão-de-obra
camponesa é barata. As perturbações da guerra e do após guerra, o bloqueio
e a ameaça sempre pendente e finalmente a instabilidade da sociedade burguesa
levaram a burguesia a se interessar mais de perto pelo campesinato.
Recentemente, ouvimos mais de uma vez os politicos burgueses e
social-democratas falar da ligação com o campesinato. Briand, na sua discussão
com o camarada Rakovski a respeito das dívidas descreveu com ênfase as
necessidades dos pequenos proprietários e, em particular, as necessidades dos
camponeses franceses. Otto Bauer, o menchevique de esquerda austríaco, em um
recente discurso, sublinhou a importância excepcional da “vinculação” com
o campo. Para coroar tudo, nosso velho conhecido, Lloyd George – que, na
verdade, começamos a esquecer um pouco – enquanto estava ainda em circulação,
organizou na Inglaterra uma liga camponesa especial para a “vinculação”
com o campesinato. Não sei que formas assumirá a “vinculação” nas condições
da Inglaterra, mas na boca de Lloyd George, a palavra assume uma ressonância um
tanto debochada. Em todos os casos não recomendaria sua eleição como
administrador de um distrito rural qualquer nem como membro honorário da
sociedade dos Amigos do Rádio, pois ele não deixaria de cometer uma vigarice
qualquer ou outro tipo de malversação (Aplausos). Enquanto que na Europa, a
retomada do interesse pela questão da ligação com o campo é, de um lado uma
manobra político-parlamentar e, de outro, um sintoma significativo da
instabilidade do regime burguês, para nós, o
problema das ligações econômicas e culturais com o campo é uma questão
de vida ou morte no sentido pleno do termo. A base técnica desta ligação deve
ser a eletrificação e isto está diretamente ligado ao problema da introdução
do rádio em um escala ampla. A fim de começar
a realização das tarefas mais simples e mais urgentes, é necessário que
todas as partes da União Soviética sejam capazes de falar umas com as
outras, que o campo possa escutar a cidade, como um irmão mais velho, mais
culto e melhor equipado. Senão a realização desta tarefa, a difusão do rádio
permanecerá como um brinquedo para os círculos privilegiados de cidadãos.
Seu relatório
estabeleceu que, em nosso país, três quartos da população rural ignoram o
que é o rádio e que o quarto restante não o conhece a não ser por demonstrações
especiais de festivais. Nosso programa deve prever que cada cidade não apenas
saiba o que é o rádio mas, que também possua sua própria estação de recepção.
O diagrama anexo
ao seu relatório mostra a repartição dos membros da Sociedade entre as
classes sociais. Os operários constituem 20% (é a pequena figura com um
martelo); os camponeses 13% (a figura ainda menor com uma foice); os funcionários
49% (a figura respeitável carregando um guardanapo); depois vêm 18% de
“outros” (não está determinado quem são, mas são representados pelo
desenho de um cavalheiro, com chapéu coco e bengala, evidentemente um nepman). Não sugiro que estes endinheirados sejam expulsos da
Sociedade dos Amigos do Rádio, mas devem ser cercados e enquadrados mais
energicamente, de tal modo que o rádio possa se tornar menos caro para as
pessoas de martelo e foice. (Aplausos).
Estou ainda menos inclinado a pensar que o número de membros que carregam um
guardanapo deva ser reduzido mecanicamente. Mas é, no entanto, necessário que
a importância dos dois grupos de base seja aumentada a todo preço (Aplausos),
20% de operários é em verdade muito pouco; 13% de camponeses, é
vergonhosamente pouco. O número de pessoas com chapéu coco é quase igual ao
dos operários (18%) e ultrapassa o dos camponeses que não é mais que 13%! É
uma violação flagrante da Constituição soviética. É necessário tomar
medidas para que no ano que vem em dois anos, os camponeses sejam cerca de 40%
os operários 45%, os funcionários de escritório 10% e os que são denominados
os “outros” 5%. Esta será uma proporção normal, completamente em harmonia
com o espírito da Constituição soviética. A conquista da aldeia pelo rádio
é uma tarefa para ser realizada por alguns anos no futuro, estreitamente ligada
à eliminação do analfabetismo e à eletrificação rural, e até certo ponto
uma condição prévia da realização destas tarefas. Cada provincia deveria
partir à conquista do campo com um programa definido de desenvolvimento do rádio.
Vamos lançar a carta de uma nova guerra sobre a mesa! De cada centro provincial
é necessário conquistar para o rádio, antes de mais nada, cada uma das
grandes aldeias. É necessário que nossa aldeia, letrada ou semi-letrada, mesmo
antes de saber ler e escrever como se deve, seja capaz de ter acesso à cultura
através do rádio, que é o meio mais democrático de difusão da informação
do conhecimento. É necessário que pelo meio do rádio um camponês seja capaz
de sentir-se cidadão da nossa União, cidadão do mundo inteiro. Do campesinato
depende não apenas em uma grande medida o desenvolvimento da nossa própria indústria,
isto está mais que claro; do nosso campesinato e do crescimento da sua economia
dependem também até um certo ponto a revolução nos países da Europa. O que
tolhe os operários europeus na sua luta pelo poder e – o que não é por
acaso – o que os social-democratas utilizam habilmente para um objetivo
reacionário, é a dependência da indústria européia em relação aos países
de além-mar no que diz respeito aos produtos alimentares e às matérias
primas. A América fornece cereais e algodão, o Egito o algodão, a India açúcar
e cana, o arquipélago malaio a borracha, etc... Existe o perigo de que um
bloqueio americano, por exemplo, reduza à penúria de matérias-primas e de
produtos alimentares a indústria européia durante os primeiros meses da revolução
proletária. Nestas condições, uma exportação incrementada de cereais e de
matérias primas soviéticas de todos os tipos é um poderoso fator revolucionário
para os países da Europa. Nossos camponeses devem ser tornados conscientes do
fato de que cada feixe de trigo suplementar sovado e exportados é um outro
tanto que pesa a mais na balança da luta revolucionária do proletariado
europeu, pois esse feixe reduz a dependência da Europa em relação à América
capitalista. Os camponeses turcomenos que cultivam o algodão devem ser ligados
aos operários têxteis de Moscou e de Ivanovo-Voznesensk e também ao
proletariado revolucionário da Europa. A rede de estações receptoras deve ser
tecida em nosso país de modo a que os camponeses possam viver a vida dos
trabalhadores da Europa e do mundo inteiro e aí participar no dia a dia. É
necessário que no dia em que os trabalhadores da Europa tomarem as suas estações
de difusão, quando o proletariado da França tomará a torre Eiffel e anunciará
em todas as línguas do seu alto que são os mestres da França
(Aplausos), é necessário que neste dia, que nesta hora, não apenas os
operários das nossas cidades e das nossas indústrias, mas também os
camponeses das nossas aldeias mais distantes possam responder ao chamado dos
operários europeus: “nos ouvem?” – “irmãos, ouvimos e queremos
ajudar!” (Aplausos). A Sibéria
ajudará com cereais, óleo, matérias primas, o Cubão e o Don com cereais e
carne, o Ubesquistão e o Turcomenistão contribuirão com o seu algodão. Isto
mostrará que o desenvolvimento das nossas comunicações de rádio apressou a
transformação da Europa em uma única organização econômica. O
desenvolvimento da rede radiotelegráfica é, entre todas as outras coisas, a
preparação do momento em que os povos da Europa e da Ásia unificar-se-ão em
uma União Soviética de Povos Socialistas. (Aplausos).