
As
conclusões e tarefas após a intentona golpista-imperialista na Venezuela
Desta
vez fracassou. Mas pode e vai acontecer novamente. Nas páginas da Revolução
socialista havíamos previsto os fatos, porque eles estão escritos nas páginas
da História da nossa sofrida América Latina: quando os movimentos
revolucionários ou simplesmente progressistas tentam derrubar as barreiras
seculares da miséria e da exploração, ou tão somente reformálas para o
benefício dos oprimidos, levanta-se a ira das elites e o ódio do
imperialismo Usa.
Portanto,
é preciso ter bem isto na mente. Esta é a luta de classes mundial, pois seus
fins, seus meios e seu desenvolvimento se resolvem no plano internacional. A
falta de uma URSS pesa enormemente, isola os países, os povos que querem se
libertar. Onde há iniciativas locais, mesmo heróicas como a luta dos
palestinos, estas ficam sem poder triunfar, o custo em sangue é enorme. E se
distancia o horizonte da libertação. Onde o capitalismo expressa o extremo da
sua putrefação, na falta de direções revolucionárias preparadas, a crise
parece não ter fim. Mas muito podem fazer os movimentos que existem, se se
nutrem da História, das suas mil experiências, sucessos e derrotas,
tragédias e glórias. Podem não esperar pelo pior. Podem preparar-se não só
militarmente, mas ideologicamente, socialmente. Podem aprender a confiar no
povo, porque esta massa enorme tem a força de um vulcão. Mas necessita desta
confiança, necessita não ser traída, necessita da audácia, da resolução,
do amor profundo pela sua vida. E da clareza do programa de transformações.
O
movimento de Chávez é indiscutivelmente um movimento social popular,
legítimo, e tem finalidades de promoção de justiça social que são
imprescindíveis, parte de qualquer projeto de transformação social,
socialista ou não, mas no sentido de enfrentar as enormes tarefas de redenção
social do povo venezuelano. Há que recordar que ele nasce das cinzas de uma
hecatombe universal que foi a queda da Urss, e a decomposição de setores muito
amplos da esquerda a nível mundial. Mesmo assim, e recorrendo a Bolívar, que
não poderia explicar obviamente porque a América Latina não conseguiu até
hoje se libertar e se unificar, este movimento tenta responder aos anseios do
seu povo.
Esta
relação entre povo e movimento, entre massas exploradas e líderes dispostos
a representá-las (muitos deles militares), é o que conta, é o que faz a
história. Mas ela é uma relação mutável, delicada, submetida a duras
provas. Se os almanaques e a ortodoxia de esquerda não servem para criar
movimentos desta dimensão, nem muito menos o sectarismo corporativo dos
“eleitos” do movimento operário, as idéias, a teoria marxista, o
programa do socialismo e das transformações sociais continuam sendo
imprescindíveis. Esta intentona imperialista na Venezuela, novamente, o
demonstra de forma evidente e dramática.
Chávez
avançou até onde pode vislumbrar, pelas vias legais, constitucionais,
regulamentares. Criou todos os instrumentos – chegando aos limites da
formalidade burguesa – para empreender mudanças econômicas e sociais. Não
chegou a tocar nos pontos sensíveis – petróleo, distribuição de renda,
poder popular direto – para finalmente por em marcha o formidável potencial
do povo venezuelano e vencer o desafio de incorporar à vida os 80% de pobres.
Mas ensaiou fazê-lo. Foi o suficiente para desencadear o preâmbulo do inferno.
O
monstro expôs todas as suas cabeças: o imperialismo USA, a alta hierarquia do
clero, a oligarquia agrária, petroleira, financeira, os oligopólios da mídia,
a “classe média” que “média” não é, os generais sem tropa. Desta
vez, o povo generoso, na sua espontaria reação, junto com a inteligência e a
agilidade de muitos quadros militares honrados, jovens oficiais e muitos
militantes, conseguiu surpreender os golpistas, que talvez tenham pecado por
excesso de confiança, violando regras fundamentais da conspiração, ou
acreditando mesmo na impunidade, por como vai o mundo: os militares yankees
reunindo-se abertamente com os golpistas, já não é preciso levar 30 anos para
identificar as suas infames pegadas.
É
notável: as elites cometeram erros primários. Avaliaram mal. Acreditaram
demais no próprio poder de fogo.
Mas
o embate foi só um preâmbulo. Diz-se que as derrotas sociais produzem sequelas
que duram décadas ou séculos. Aqui não houve um verdadeiro combate, apesar
dos quase 300 mortos, na maior parte por franco-atiradores das classes
dominantes. Houve uma medição de forças, desta vez resolvida em favor de
Chavez e das massas exploradas. Mas as elites não contam os seus mortos, pois
possuem um exército mundial e muito poderoso, não expõem muito mais que as
suas paneleiras e saltimbancos da “democracia”.
Mas
todos os indicadores são claros: a conspiração continua, a guerra da mídia
também – e não é local, é global – e a preparação do novo – e se
possível mais sangrento - enfrentamento está na ordem do dia. O petróleo é
um motivo evidente pois o país que tem uma das maiores reservas e abastece de
maneira estratégica os EUA. Isto é óbvio. Mas há outros motivos, entre eles
o “mau exemplo” de um país que não obedece à grande superpotência, que
promove a integração latino-americana, que apoia Cuba. Isto sim, é
intolerável, para todas as elites do Continente.
A
atual oposição no Brasil deveria refletir muito seriamente sobre esta
situação. Não só porque a cumplicidade da elite brasileira – a começar da
própria mídia – foi e é total com os golpistas, mas principalmente porque
qualquer tentativa de seguir no Brasil uma política sequer revolucionária, mas
digamos, de dignidade nacional, vai encontrar a reação furiosa da maior
potência imperial do planeta e das suas elites regionais aliadas.
As
tarefas agora na Venezuela são muitas, e todos aqueles que se consideram
progressistas, de esquerda, anti-imperialistas, em qualquer parte do continente,
tem a obrigação de sustentar esta experiência importantíssima que está
fazendo todo um povo na Venezuela: a libertação dos venezuelanos é a
libertação de todos os povos. A sua derrota será uma derrota de todos. É
preciso aplicar as medidas de reformas, por insuficientes que sejam; é preciso
continuar a liquidar todos os gânglios de conspiração do Estado, do
exército, dos órgãos estatais, das empresas do Estado, e principalmente do
petróleo; é preciso imediatamente, sem perder tempo, empreender uma radical
reforma agrária. Nestes dias foi anunciado o aumento do salário mínimo para
207 dólares: é muito pouco. É preciso criar um movimento popular
organizado, criar assembléias populares permanentes, abrir os quartéis para
o povo, já que foi o povo que defendeu a legalidade, o que deu a força para
que as armas não fossem usadas contra ele.
É
urgente que o exército organize a auto-defesa do povo. Que os próprios
militares se entrelacem com as estruturas populares, que se questione a
verticalidade, as hierarquias, e que as forças armadas como um todo se
politizem, abertamente, pois ao contrário se “politizam” no sentido mais
perverso, o da conspiração, do anticomunismo e do golpismo. É preciso dar
continuidade e ampliar as operações sociais do exército, criar um novo
exército, o exército do povo. É preciso se preparar e se antecipar ao novo e
inevitável golpe construindo instrumentos de poder popular para a defesa, a
distribuição, o abastecimento e o planejamento.
É urgente “tomar o poder” nas comunicações de massa,
televisões, rádios, jornais, se for o caso por meio do apoio estatal a uma
vasta rede de televisões, rádios e jornais populares, e da punição exemplar
da mídia comprovadamente golpista.
É
urgente colocar os recursos petrolíferos finalmente à disposição da grande
massa da população, sem hesitação, sem compromissos e nem retórica.
Promover uma colossal distribuição de riquezas, com mobilização
popular, com discussões, assembléias, criação de organismos de
participação e controle por parte das massas exploradas, dos camponeses, dos
humildes, dos trabalhadores.
É
urgente promover uma limpeza no movimento sindical venezuelano, lembrando que a
máfia sindical na Argentina foi a responsável por boa parte dos massacres
contra a esquerda. Uma coisa é o movimento sindical, outra são estas máfias
que nos momentos cruciais da história atrelam o movimento dos trabalhadores
aos mais sinistros planos do imperialismo. Promover eleições gerais, leis de
apoio à democratização e à clareza nos ambientes sindicais, campanhas de
sindicalização de massa, no respeito da autonomia mas também no mais
rigoroso controle contra a corrupção no meio sindical, que é a mais
perniciosa de todas as corrupções porque mina a organização social por
dentro.
É
urgente fazer uma seleção no movimento bolivariano descartando o oportunismo
e o rebotalho que se une eternamente e sempre aos vencedores do momento. Tirar
lições do acontecido, das traições, das hesitações, das capitulações,
para estruturar um verdadeiro movimento político, partidário, estruturado.
Que a esquerda histórica ajude nesta tarefa, deixando de lado os
preconceitos, oferecendo uma contribuição ideológica, interpretativa,
estratégica, ajudando o movimento a sair do messianismo dando um verdadeiro
salto político que o permita ter plena consciência sobre a natureza de
classe do inimigo e as tarefas para a construção de uma nova sociedade.
É
urgente que o povo seja protagonista, que as discussões não fiquem nas
cúpulas, que a sua generosidade seja paga com a abertura, a mais plena
democracia para as massas e graves restrições para a elite conspiradora. Nada
de “mãos abertas” para as oposições, que já revelaram a sua língua
venenosa no dia seguinte do golpe fracassado. Não, Presidente Chávez, não
haverá trégua nem paz. Maior é o ódio do imperialismo, porque perdeu e
perdeu feio, frente a todo o mundo, e o orgulho do povo venezuelano contagia.
É
urgente a maior mobilização anti-imperialista, mundial e continental, pois
está sendo preparada a guerra contra o Iraque, e esta já se amplia na
Colômbia. O “interlocutor” está ávido de sangue. Nem limpou ainda as
mãos sanguinárias dos golpes dos anos 70 e já prepara outras aventuras nas
Américas. A “escola do Panamá” só mudou de endereço, foi para os EUA,
mas continua a desenfornar assassinos e conspiradores, como os próprios
participantes da intentona anticomunista.
Aproveitemo-nos
desta ocasião histórica que nos deu o povo venezuelano. Aproveitemo-nos da
mobilização do povo argentino, e do espírito de luta de todos os povos da
América Latina para cortar a cabeça da serpente, antes que esta volte a se
levantar. Mobilizemonos em apoio ao Governo de Chavez, para que este inicie
uma marcha decidida pelas transformações sociais, que não vacile frente às
novas conspirações e que dê lugar ao povo que o elegeu e o defendeu
heroicamente.
Chamamos
o PT, o MST, a toda a esquerda brasileira a assumir estas bandeiras, com a plena
consciência que os fatos da Venezuela falam, e muito, de nós mesmos. É
preciso tomar o exemplo do povo venezuelano que sabe o que fazer. Nao é à toa
que o general chavista disse que faltarão postes para pendurar todos os
golpistas e conspiradores. Antes que seja tarde demais. Esta é a vez, esta é a
ocasião! Não vamos perdê-la! Viva a revolução bolivariana e
anti-imperialista! Pela libertação social das nossas Américas! Pela união
dos povos, pelo socialismo!
29
de abril de 2002